Não é por acaso que ao longo deste “Western”, de Valeska Grisebach, ressoem ecos do velho género americano. As paisagens áridas, as vilas esquecidas no tempo, o suor, o esforço físico, a incessante procura por um lugar, ou a busca pela sua ausência, espelham o espírito dos velhos mestres do género. Certamente, porém, o objetivo desta terceira longa-metragem de Valeska Grisebach não é ser um western, nem, tão pouco, um tributo ao género; é impossível, contudo, não traçar as semelhanças temáticas e estilísticas entre ambos. Sobretudo, “Western” é uma obra que explora barreiras culturais e linguísticas, fraternidade, procura, liberdade e a fé no espírito humano.

O filme tem em Meinhard (Meinhard Neumann), um alemão que se encontra na Bulgária, com uma equipa de operários, a construir uma central hidroelétrica, um homem um tanto solitário que vagueia pela paisagem búlgara à procura de algo que não é inteiramente evidente. Confrontado com uma língua que lhe é estranha, Meinhard tenta comunicar com os habitantes de uma vila na proximidade da obra, a qual o recebe com uma desconfiança que, por vezes, roça a hostilidade. À medida que o filme se desenrola, a barreira linguística entre os alemães e os búlgaros vai esfumando-se; e é na relação fraternal entre Meinhard e Adrian, um dos aldeões, que essa aproximação é mais evidente.

Mais do que um enredo previsível ou de um desfile sôfrego de planos, “Western”, com o seu uso magistral do plano geral, dos cenários áridos e do espírito nómada do seu protagonista, como se de um verdadeiro western se tratasse, centra a sua ação na desconstrução dessa muralha cultural entre as suas personagens, transpondo-a lentamente, o que é apropriado, já que é necessário, também nós, nos habituarmos a um ritmo mais pausado para simpatizarmos com os costumes de uma cultura que nos é alheia, e por um território que não nos pertence, para que nasça a tolerância e o respeito para a poder compreender. Nós, o público, somos como estranhos num novo mundo com o qual tentamos familiarizar-nos, uma simbiose que é cada vez mais rara no cinema. Há, no entanto, e cada vez mais, quem se inquiete com filmes que adotam um ritmo mais demorado e Grisebach pede-nos algo que nos é cada vez mais difícil de fazer: a contemplação. Fazer isto ao testemunhar os momentos de comunhão entre os operários alemães e os aldeões búlgaros, ao viver a viagem, saboreá-la, a apreciar o silêncio dos planos, a testemunhar o ruir de uma muralha, que é simultaneamente representativo de uma aproximação entre as personagens no filme, e da nossa, como espectadores, com o cinema de Grisebach. E, tal como na busca de Meinhard por esse algo esquivo que tarda a aparecer, ou a não aparecer de todo, seja ele um irmão, um lar, amor, felicidade, ou o simples ato do convívio, embora separados por essa barreira invisível da língua, da nacionalidade, é na contemplação que se consegue apreciar tudo o que este belo filme tem para partilhar.

Este “Western” carrega em si algo raro e inviolável que se manifesta na sobriedade da câmara de Grisebach e no caráter vigoroso das suas personagens; é um tipo de filme que cada vez vemos menos nas nossas salas de cinema. Exige, tal como o seu final, em aberto, que mantenhamos um espírito recetivo, não ao que é dito, mas ao que é sentido entre as personagens, as quais, por razões óbvias, não se compreendem, mas que, todavia, revelam que há algo mais na comunicação do que o significado que as palavras encerram. É na observação cuidada, na tolerância, na paciência e no respeito que nos compreendemos; e “Western” é disso um monumento.

O filme está em exibição no Medeia Monumental, com sessões às 14h15, 16h45, 19h15 e 21h45. E no Cinema Ideal as sessões são às 17h05 e às 21h05.

RealizaçãoValeska Grisebach
ArgumentoValeska Grisebach
ElencoMeinhard NeumannReinhardt WetrekSyuleyman Alilov Letifov
Alemanha/Bulgária/Austria/2017 – Drama
Sinopse
: Um grupo de trabalhadores alemães da construção civil começa um trabalho difícil num estaleiro de uma zona rural da Bulgária. A terra estrangeira desperta o sentido aventureiro dos homens, mas eles também se confrontam com os seus próprios preconceitos e desconfianças, acentuados pela barreira linguística e pelas diferenças culturais. Tudo aponta para um confronto quando dois homens começam a competir pelo reconhecimento e favor dos locais.

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