A 94ª edição dos Óscares e a celebração da violência polida

Quase uma centena de edições de cerimónias de Óscares promovidas pela Academia de Cinema norte-americana conferem e legitimam um sentimento de nostalgia naqueles que, ano após ano de desencanto, se sentem impelidos a assistir, uma vez mais, à transmissão global do programa televisivo.

Para nós, os nostálgicos, algo impera nos dias de hoje, a escassez de sensação de duração, pelo que, talvez também esta nostalgia cesse de durar após a edição polidamente violenta do ano de 2022. Num ano em que regressaram vários aspectos do passado, em que a evocação da história do cinema marcou presença, não houve nada de consistente ou de reflexivo num espectáculo demasiadamente acelerado em nome do entretenimento, das audiências e do lucro.

Um dos aspectos que regressou foi a presença de apresentadores e coube a três mulheres actrizes e comediantes a tarefa de trazer de volta as conhecidas farpas humorísticas que estão ao serviço de cutucar o glamour e pedantismo da atmosfera de Hollywood. Essas farpas são necessárias, vitais e fazem parte da celebração, pois, numa noite de prémios que abrirão portas a cachês ainda mais elevados, convém lembrar que quem faz cinema é humano, efémero e imperfeito, aquilo que permanece são os filmes, não as pessoas. O texto humorístico das apresentadoras cumpriu, maioritariamente, a sua missão, nomeadamente quando colocam o dedo na ferida de alguns dos paradoxos contemporâneos, a saber, contratar três mulheres na vez de um homem sai mais barato e, os filmes blockbusters continuam a ser protagonizados por figuras masculinas mesmo quando parecem ilustrar a história de mulheres.

Na sua essência, a cerimónia revestiu-se de paradoxos, a saber, a Academia homenageou ao longo da noite vários filmes de sucesso que comemoravam anos de estreia, e para isso reuniu os elencos principais de “Pulp Fuction“, “The Godfather“, “Juno“, e “White Men can´t Jump“, bem como decorou o palco de modo alusivo aos 60 anos da saga “007 James Bond” e também da saga “Dune“. Trata-se de um paradoxo, pois evocar o passado e o papel reflexivo da memória cinematográfica é um exercício que requer demora e tempo de degustação, e a aceleração evidente de um programa que tinha já assumido o objectivo de encurtar a sua duração, pode somente resultar numa aparência de homenagem, mais ainda, num consumo bulímico de pequenos shots culturais.

Tal aceleração notou-se também nos discursos sucessivamente encurtados e interrompidos abruptamente (como foi o caso do discurso do realizador japonês Ryusuke Hamaguchi, que venceu o Melhor Filme Internacional com “Drive my Car“, e que até abdicou da tradução para inglês num esforço de resumo e de êxtase notoriamente desprezados pela música silenciadora da banda). Na esmagadora maioria destes discursos foi evidente a ausência de mensagens políticas e humanistas que caracterizam estes momentos de celebração, o que foi de um silêncio ensurdecedor, conduzindo os espectadores a assistirem a um simulacro da celebração de cinema, isto é, nesta celebração não coube vida, logo não coube cinema, visto que nada pulsa, nada diverge, e nada é autêntico. Todavia a pressa da aceleração, Francis Ford Coppola foi ímpar no uso do seu tempo para afirmar o crucial: Viva Ukraine. 

A aceleração dá-nos a ilusão de que corremos para o melhor e para a antecipada resolução final, contudo, a aceleração destes Óscares foi ilusória nesse sentimento e, por isso, não abafou sequer a possibilidade de quebrar e interromper o espectáculo com o sintoma de mal-estar e de rancor subjacente a todo este simulacro. A agressão, que sucede como resposta ao momento de comédia realizado pelo apresentador da categoria de Documentário, escancara a polidez que vivemos na actual sociedade, ou seja, um actor levanta-se, dá um murro num colega seu, que nos deixa a todos na dúvida quanto à veracidade da agressão, e volta a sentar-se, proferindo rudes palavras que ilustram o seu estado de ofensa perante a piada proferida sobre a sua mulher, também ela actriz. Depois disto, a cerimónia continua, e o mesmo actor recebe, pouco depois, o Óscar de Melhor Actor principal. Como se não bastasse o absurdo de recorrer à violência, em directo, como resposta ao humor (o humor que não deve ter limites morais, não fosse o cinema uma arte e não fosse a Arte amoral), a pessoa objecto da piada é uma mulher incapaz de se pronunciar por si mesma, e todo o público permanece inerte e aplaude, seguidamente, o discurso de aceitação do Óscar que ocupou o tempo que quis do programa. A violência polida compensa, ela conquistou tempo de antena e não demoveu a Academia de ponderar os danos reputacionais de premiar um ator-homem-agressor, já que reputação é o que comanda o espectáculo. Esta violência é polida, na medida em que não há verdadeiro confronto de ideias, há tão somente o borbulhar dos sintomas que o entretenimento e a aparente inclusão querem, à força, silenciar, mas de tão genuinamente inautênticos, apenas resultarão em instantes vergonhosamente deploráveis.

O momento violento faz-nos questionar, nostalgicamente, se seria possível repetir a apresentação humorística deliciosamente cáustica de Ricky Gervais, numa circunstância em que a ofensa justifica o soco, e o politicamente correcto parece ser o único barómetro moral do sucesso. Assistiremos, doravante, se o dano reputacional a posteriori pressionará a Academia a retirar o Óscar, visto que no reino da polidez, as manchas são para eliminar.

A nossa nostalgia estende-se, igualmente, ao típico momento da cerimónia que sempre assinalou, in memoriam, aqueles que partiram no ano civil passado e que pertenciam ao universo da sétima arte, e que, por muito que não passasse da inscrição dos seus nomes numa montagem animada, jamais tinha sido apresentado com a animação de um coro coreografado a dançar e a bater palmas a plenos pulmões. Por muito que se celebre a morte, num espectáculo onde nem a celebração da vida autêntica cabe, esta forma animada de recordar os mortos deixou um travo amargo aos mais nostalgicamente introspectivos.

Num ano em que, mais do que nunca, se regressou ao passado, de volta à sala do teatro despida de máscaras e vestida de risos, esta é a edição que, precisamente unidos pelo amor aos filmes (o tema desta edição foi movie lovers unite), marca o ponto em que, para esses, os Óscares deixam de ter futuro.

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