Houve uma noite, daquelas em que a televisão fica ligada só para fazer companhia, em que dei por mim a ver, pela terceira vez, um episódio de “Narcos”. Não por entusiasmo, mas por preguiça, aquela preguiça de quem chega cansado, aquece o jantar e aceita o primeiro tiroteio que aparece no ecrã. Ao lado, no telemóvel, alguém comentava outra série, “Pablo Escobar, el patrón del mal”, como se toda a história da Colômbia coubesse ali, entre um tiro e um plano aéreo de helicóptero. Quando iniciei o curso de Geografia, em 2019, nas leituras das cadeiras, sobretudo em Geografia da População, ministrada pela querida Marta Luedemann, percebi que muitos países acabam injustamente resumidos a um único enredo.
Não é culpa exclusiva da Netflix, claro. Há uma tentação humana de reduzir o passado a personagens fáceis. Se falamos de Medellín, logo surge o fantasma de Pablo Emilio Escobar Gaviria, como se a cidade inteira fosse uma rua escura com carros blindados. E ninguém nega que ele existiu, que nasceu pobre, que ficou obscenamente rico, que transformou o departamento de Antioquia num nome sussurrado com medo. Mas as cidades são sempre maiores do que os seus criminosos.
Uma cidade é também o médico que acorda cedo, o professor que explica o corpo humano como quem explica um poema épico, o pai que volta a casa com livros debaixo do braço. Em Medellín houve um homem assim, Héctor Abad Gómez, que acreditava em vacinas, em bibliotecas e em direitos humanos. Foi assassinado em 1987, numa manhã que devia ser banal, como tantas manhãs em que alguém sai de casa com pressa e uma lista de tarefas.
Nesse dia, levava no bolso um papel com versos de Jorge Luis Borges. O poema “Epitáfio” dizia que já somos a ausência que seremos. É curioso como, por vezes, guardamos frases no bolso como quem leva um talismã. Eu próprio tenho um bilhete dobrado na carteira com um verso de “Maravida”, de Gonzaguinha, não para me proteger de balas, mas de dias maus. A literatura é um guarda-chuva frágil, mas ainda assim abrimo-lo.
O filho desse médico, Héctor Abad Faciolince, escreveu um livro para resgatar o pai do esquecimento. Chamou-lhe “El olvido que seremos” e, de repente, o mundo descobriu que havia outra história por contar, sem pistolas, sem perseguições de carro. Um livro elogiado por gente grande como J. M. Coetzee, laureado com o Nobel de Literatura em 2003, que sabe uma coisa ou duas sobre memória e culpa.
Anos depois, o realizador Fernando Trueba transformou o livro num filme com o mesmo título. Embora a sua circulação tenha sido parcialmente afetada pela pandemia e pelas restrições, a longa-metragem ganhou novo fôlego quando chegou às plataformas de streaming.
Vi-o numa tarde chuvosa de 2022, daquelas em que a casa fica silenciosa e o café arrefece. E percebi que a violência também pode ser mostrada pelo avesso, pela ternura. O médico é interpretado por Javier Cámara, com um sorriso cansado que parece dizer que o mundo ainda vale a pena.
O filho, primeiro criança, surge com a naturalidade espantosa de Nicolás Reyes Cano e, depois, jovem adulto, com a timidez luminosa de Juan Pablo Urrego. Este último já tinha feito o papel de um sicário numa série baseada nas memórias de Jhon Jairo Velásquez para a Caracol Televisión. No cinema, porém, é apenas um rapaz que ama o pai e tem medo de o perder. Às vezes, a maior coragem é essa.
Há uma cena em que o miúdo defende o pai de uma piada cruel no recreio. Outra em que o pai explica, com delicadeza, porque não acredita no inferno. Vi-me ali, a lembrar-me do meu próprio pai, que me ensinou a afiar lápis com navalha e a pedir desculpa quando erro. Nada de heroísmos, apenas pequenos gestos. Talvez seja isso que falta nas séries de tiroteios: o som das cadeiras a arrastar na cozinha, a discussão sobre o preço do café, o beijo na testa antes de dormir e o sorriso sincero que pode dizer diálogos completos de William Shakespeare sem abrir a boca.
Não digo que não devamos contar as histórias dos criminosos. Elas explicam muita coisa. Mas há um risco em deixar que sejam as únicas. É como se um país inteiro fosse reduzido a um retrato policial. Medellín tem parques, escolas, gente que canta, gente que planta flores. E teve um médico que guardava poemas no bolso.
Quando o filme acabou, fiquei uns minutos em silêncio. Lá fora, um vizinho discutia futebol, alguém fechava uma porta, um carro passava devagar. Pensei que a violência não começa nem acaba nos grandes nomes. Começa no esquecimento. Quando deixamos de contar as histórias de quem tentou ser justo, de quem cuidou dos outros, de quem acreditou que a saúde pública podia salvar vidas.
Talvez seja por isso que escrevemos crónicas, notícias, romances. Para contrariar o ruído. Para lembrar que por detrás de cada manchete existe uma casa, uma mesa, um filho que beija o pai na rua e sente ainda o último calor do rosto. E que, mesmo quando o mundo insiste em reduzir tudo a pólvora, ainda há espaço para um poema dobrado no bolso, ansioso por ser lido.
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Poema “Epitáfio”, de Jorge Luis Borges
Já somos o esquecimento que seremos,
o pó elementar que nos ignora,
e que foi o vermelho Adão, e que é agora
todos os homens, e que não veremos.
Já somos, na tumba, as duas datas
do princípio e do termo: a caixa,
a obscena corrupção e a mortalha,
os triunfos da morte e as endechas.
Não sou o insensato que se agarra
ao mágico som do seu nome;
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Sob o indiferente azul do Céu,
esta meditação é um consolo.

