“A Balada de Buster Scruggs”, o mais recente filme realizado e escrito por Joel Coen e Ethan Coen, é uma antologia Western – ainda está para vir o filme que realizem sem o terem escrito.

Distribuído pela Netflix, o filme estreou em 2018 no Festival de Veneza, onde competiu pelo cobiçado Leão de Ouro – prémio que no fim foi atribuído a “Roma”, de Alfonso Cuarón. No entanto, “Scruggs” não saiu de mãos a abanar, valendo aos Coens o prémio de Melhor Argumento, atribuído pelo júri presidido pelo realizador mexicano Guillermo del Toro. O filme foi ainda nomeado para três Óscares da Academia: melhor Argumento Adaptado, Canção Original e Guarda-roupa. Não venceu nenhum.

Os célebres irmãos assinaram o argumento tendo por base pequenos contos que escreveram ao longo da carreira e que foram ficando na gaveta. Duas das seis narrativas que compõem a longa-metragem foram inspiradas nos contos “All Gold Canyon” e The Girl Who Got Rattled”, de Jack London e Stewart Edward White respectivamente.

A antologia que nos é apresentada encontra-se dividida em seis histórias independentes: todas decorridas no pós-Guerra Civil Americana do século XIX, porém não relacionadas entre si. Qualquer longa-metragem que opte por uma estrutura antológica enfrenta diversos riscos que são inerentes à ausência de elo narrativo entre os vários capítulos.

Primeiramente, o incentivo – ou falta dele – por parte do público em investir na trama e personagens. O espectador que, antecipando uma série de narrativas isoladas, decida de antemão remeter o enredo para segundo plano arrisca-se a não ser capaz de estabelecer qualquer ligação emocional com as personagens, o que sem dúvida prejudicará a experiência de visualização e por conseguinte o seu parecer final sobre o filme. Por sua vez, o espectador que privilegie uma boa história e se dedique às personagens será constantemente desiludido pelas sucessivas mudanças de narrativa. Ora tal problema é evitado se o número de capítulos for mantido a um mínimo. Infelizmente, Scruggscomprova precisamente que agrupar seis contos numa só longa-metragem é desaconselhável. Seis revela-se um número demasiado grande para permitir – e incentivar – o investimento por parte do público.

Em segundo lugar, o inevitável ranking dos capítulos. Há umas semanas, dois amigos meus conversavam sobre “Scruggs”. À pergunta de um “Gostaste do filme?”, a resposta do outro foi “Gostei muito da história X”. A inexistência de um elo entre as narrativas propicia a comparação e a eleição dos “melhores” contos, atingindo o espectador com a realização de que não apreciou alguns – ou até mesmo muitos – dos capítulos de “Scruggs”. A única forma de impedir tais comparações é assegurar um alto nível de qualidade ao longo do filme e seus contos, o que não é o caso em “Scruggs. É evidente que é mais fácil falar que fazer e que a preferência entre os contos é matéria fortemente pessoal, mas o espectador termina o filme a reflectir no aborrecimento de certos capítulos.

A história mais interessante e bem conseguida é talvez a primeira. Acompanhamos o anedótico Buster Scruggs (notável Tim Blake Nelson) e as peripécias deste cowboy cantante – e fora-da-lei. Se ao menos os Coen nos tivessem presenteado com uma longa-metragem exclusivamente sobre esta personagem. Lamento que assim não seja. Iniciar uma antologia com a narrativa e personagem mais cativantes encaminha o público para uma decepção, dado que tudo o que se segue é de inferior qualidade. Para não falar de que o último conto do filme, intitulado The Mortal Remains”, é de longe o pior: um diálogo tedioso entre cinco personagens numa carruagem que se arrasta ao longo de vinte minutos. A dado momento, um dos viajantes faz uma revelação chocante – que de chocante nada tem. Para um elenco que conta com nomes como Tyne Daly e Brendan Gleeson, é uma sequência pouco inspirada e, lamentavelmente, a que encerra o filme.

Outro motivo de insatisfação prende-se com a disparidade da duração dos contos. Se o filme já é desnivelado em termos da qualidade dos seus vários capítulos, a situação ainda é agravada com o facto de certos episódios durarem apenas dez minutos (“Near Algodones com James Franco), enquanto outros quarenta minutos (The Gal Who GotRattled com Zoe Kazan, um excelente capítulo, a par com o de abertura). Tal discrepância induz a sensação de que vimos pouco de uns, mas demasiado de outros.

Para além dos realizadores, houve muito talento atrás da câmara nesta longa-metragem. O trabalho do cinematógrafo Bruno Delbonnelque também colaborou com os irmãos Coen em “A Propósito de Llewyn Davis” – merece um louvor especial. Delbonnel concede-nos uma fotografia lindíssima, repleta de imagens que nos ficam na memória muito depois das luzes se terem acendido. Desde um chapéu branco ensanguentado, a nove cavaleiros no horizonte. Desde um homem de costas para uma galinha, a um índio vindo do nada. Também a banda sonora de Carter Burwell colaborador muitíssimo frequente dos irmãos – merece uma saudação, se bem que já escutámos melhores partituras do famoso compositor. Até à data, o seu melhor trabalho foi em 2015 no filme “Carol”, de Todd Haynes.

Os irmãos Coen já se tinham aventurado no Western, com incursões mais bem sucedidas: em 2007 com “Este País Não é Para Velhos e em 2010 com “Indomável. Em “Scruggs”, nota-se um carácter mais experimental e uma liberdade criativa que talvez só mesmo a Netflix tenha sido capaz de oferecer aos irmãos, dada a actual aposta em franchises e super-heróis por parte dos grandes estúdios. A vontade de experimentar é de se elogiar, mas “The Ballad of Buster Scruggs” sofre dos males comuns à maioria das antologias: atormentado por contos menores e um excessivo pára-arrranca. Encantador de se ver, mas aquém do desejado.

«A Balada de Buster Scruggs» - Nova incursão dos irmãos Coen no faroeste
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