«A Biblioteca dos Livros Rejeitados» – O crítico-detective e a suspeita sobre os que suspeitam

Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini) é um afamado e mediático crítico literário, que possui um programa televisivo onde comenta criticamente as produções literárias recém-publicadas; porém, por trás desse mediatismo existe uma vida pessoal em processo de desmoronamento. Se o seu casamento já apresentava fragilidades, a sua presunção ao levantar uma suspeita, em directo no seu programa, em relação à autoria do mais recente best-seller é a gota de água que leva a esposa a colocar um fim ao casamento.  De casamento desfeito e despedido pelo canal televisivo, Jean-Michel torna-se um detective em causa própria, animado pela sua suspeita obsessiva.

Do outro lado da narrativa, em confronto com o cepticismo petulante do crítico, estão a viúva e filha de Henri Pick, o suposto autor do best-seller «As Últimas Horas de Uma História de Amor», e Daphné Despero (Alice Isaaz), a jovem editora que descobriu a obra.

Todo o mistério em torno desta descoberta reside numa pequena biblioteca, situada numa pequena vila da Bretanha, que possui uma secção dedicada a receber livros que foram rejeitados pelas editoras e que nunca chagaram a ser publicados. É dentro deste espaço, naturalmente remetido ao abandono, onde Daphné encontra a obra, cuja publicação se torna o seu mais recente troféu profissional, que acaba por ter um impacto no seu namorado, Fred Koskas (Bastien Bouillon), um jovem escritor que possui a esperança de ver o seu trabalho reconhecido.

As suspeitas de Jean-Michele nascem quando se pergunta como um homem aparentemente comum, como Henri Pick, que dedicou o seu tempo como pizzaiolo, deu origem a uma obra literária tão aprimorada, onde se notam várias influências literárias, tendo como Pushkin a mais presente de todas. O crítico persegue, incansável e obsessivamente, a peugada dessa obra, desde a casa onde viveu Pick, passando pela pizzaria onde trabalhou, pela biblioteca dos livros rejeitados, e por cartas escritas por Pick à sua família.

É neste crítico transformado num Sherlock Holmes espontâneo, que reside o maior interesse do filme, desde o meu ponto de vista. A narrativa anima-se ao sabor da força interior desta personagem e da violência externa que os signos provocam no seu pensamento. E não é dessa força que vive o crítico? Desse mergulhar numa floresta de signos que vão intensificando o seu pensamento, que dá voltas infinitas dentro de si mesmo? Embora o crítico seja muitas vezes estereotipado como aquele que julga, presunçosamente, sobre uma obra de arte, a verdade é que esse julgamento não é mais do que o resultado de um fluxo infinito de pensamento, que acaba por se coagular na forma das suas palavras. A perseguição frenética do crítico em direcção ao fundamento da sua suspeita ajusta-se ao pathos essencial do seu mister. Ele quer tornar visível aquilo que parece querer esconder-se, sem que a realidade perca o seu mistério (no melhor dos casos, ele conseguirá adensá-lo). E o que seria um crítico sem vontade de mistério? Uma mente adormecida, condenada a ignorar os signos que o rodeiam; ou um analista frio, que acredita que a realidade é absolutamente traduzível no conjunto de abstracções com a qual ele a reveste.

Este crítico-detective mostra que nem todas as perseguições contribuem para a barbárie, existindo lugar para um exercício espiritual mais puro, que só descansa ao encontrar o fechamento da sua investigação: corresponda, ou não, esse resultado à hipótese que levantou. Porque não é tanto o resultado que procura o crítico, mas o processo. É neste que habita a paixão que o anima, onde ele é mobilizado pelos signos que o instigam à reflexão. Em tempos onde a televisão se torna a mais brutal máquina de criação de crenças, e que transforma o espírito comum num imenso rio de águas estagnadas, o espírito crítico, que embora não seja um vento forte capaz de fazer correr essas águas, deve ser uma pedra cujo impacto criará uma pequena ondulação. E se a moral está programada para suspeitar da suspeita, é porque a inércia resiste sempre à força que lhe provoca um novo movimento.

Eis o caminho de Jean-Michel: a sua suspeita; os que suspeitam da sua suspeita; e, no final, a importância da sua suspeita.

«A Biblioteca dos Livros Rejeitados» – O crítico-detective e a suspeita sobre os que suspeitam
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