A caminho dos 50 anos do 25 de Abril com testemunhos sobre o primeiro filme visto em liberdade

A primeira vez, em liberdade. A caminho dos 50 anos do 25 de abril

O Cinema Sétima Arte dá início este mês às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril com a publicação de vários testemunhos de personalidades portuguesas das mais diferentes valências – política, cultural, académica, e ativismo -, sobre a “sua primeira vez em liberdade”, ou seja, sobre o primeiro filme que viram em liberdade, depois do 25 de abril.

Este mês celebram-se os 49 anos da revolução dos cravos e é nesse espírito comemorativo e reflexivo a caminho dos 50 anos do 25 de abril de 1974, que o Cinema Sétima Arte cria esta rubrica especial que tem início em abril de 2023 e que culmina em abril de 2024 (com os 50 anos da revolução). Ao longo dos próximos 12 meses iremos publicar vários textos.

O 25 de abril é um momento fundador da democracia portuguesa, pelo que é também o momento em que várias gerações foram ao cinema ver um filme pela primeira vez em liberdade. Queremos conhecer as estórias e experiências de ter ido ver um filme ao cinema que foi proibido durante o Estado Novo.

A primeira vez, em liberdade.

No dia 25 de abril de 1974, os jornais da manhã publicavam os anúncios de dois filmes portugueses recém-estreados: ‘Malteses, burgueses e às vezes’ e ‘Eusébio, a pantera negra’. Mas, nesse dia, os projetores das suas salas não se acenderam, tendo saído para a rua todas as câmaras disponíveis…” (1).

Com a revolução do 25 de abril de 1974 a acontecer nas ruas, o cinema português sentiu a urgência em também sair à rua e registar a memória histórica do presente. Era preciso filmar a revolução em curso e os seus protagonistas, dando assim início ao cinema militante e ideológico em Portugal.

Na madrugada de 26 de abril de 1974, a RTP transmitia a proclamação da Junta de Salvação Nacional, em que um dos pontos garantia “a liberdade de expressão e pensamento”. A censura desaparece ao fim de 48 anos de regime fascista e a liberdade sonhada contagia todas as pessoas. As salas de cinema e os cineclubes, assim como todos os programadores e agentes culturais, passam a ter liberdade de expressão e de pensamento, para fazerem a sua programação de cinema sem quaisquer restrições ou repreensões.

Muitos filmes que foram proibidos durante o Estado Novo estreavam pela primeira vez no país, como é o caso do filme soviético “O Couraçado Potemkine”, de Sergei Eisenstein, que, quarenta e nove anos depois da sua estreia, chegava ao cinema Império, em Lisboa, no dia 1 de maio de 1974. O fim da censura levou à sede de cinema, provocando enchentes às portas das salas de cinema lotadas. Durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso), foram muitas as estreias comerciais de filmes proibidos, como é o caso de “Satyricon”, de Fellini, “Sopro no Coração”, de Louis Malle, “O Silêncio”, de Ingmar Bergman, ou o erótico “Emmanuelle”, de Just Jaeckin

Outro exemplo é o caso da famosa história do “Último Tango em Paris” (1973), de Bernardo Bertolucci, que passou no cinema Trindade e no Olympia, no Porto, depois da revolução. Devido às cenas sexuais explícitas entre Marlon Brando e Maria Schneider, o filme foi censurado, mas, com a liberdade, o público invadiu os cinemas. Foi também depois do 25 de abril que surgiram os primeiros cinemas pornográficos.

É no espírito comemorativo e reflexivo sobre os 50 anos do 25 de abril de 1974, que o Cinema Sétima Arte cria esta rubrica especial que tem início em abril de 2023 (ano em que se celebram os 49 anos da revolução portuguesa) e que culmina em abril de 2024 (com os 50 anos da revolução).

(1) “Panorama do Cinema Português (das origens à actualidade” de Luís de Pina, Terra Livre, 1978.

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