Especial “A Cidade e as Salas de Cinema. As Salas de Cinema e a Cidade”

Em 1945 nasceu o Cineclube do Porto (o primeiro em Portugal) que em pouco tempo se tornou num dos maiores da Europa e “a ter mais sócios do que o FC Porto” (1).

Tudo começou quando um grupo de estudantes do Liceu Alexandre Herculano, amadores e amantes do cinema, liderados por Hipólito Duarte, criaram a 13 de abril de 1945 as raízes do primeiro cineclube de Portugal, o CPC (Clube Português de Cinematografia). Mas é a partir de 1947 que o cineclube se reorganiza e entra numa fase regular de atividades e adota a designação de CCP (Cineclube do Porto). “Os seus objetivos foram claros desde o início, pretendia-se defender o cinema com interesse particular pelo cinema português. Este trabalho seria feito através da projeção de filmes de interesse cineclubista e da publicação de um boletim. Rejeitando à partida quaisquer fins religiosos ou políticos, procurava formar a cultura cinematográfica dos associados.” (2).

Em 1947, entraram para o grupo três novos membros, entre os quais dois viriam a ser nomes chave na história do cineclube, Luís Neves Real e Henrique Alves Costa. Neves Real cedeu o seu cinema Batalha para a realização das sessões de domingo de manhã do cineclube e Alves Costa, o crítico cineclubista, viria a chefiar a direção do CCP e a tornar-se na figura mais carismática desta instituição.

Em 1948 são aprovados os estatutos do cineclube do Porto pelo governo civil do Porto e em 1949 o número de sócios sobe para 900, no início do ano, registando 1230 sócios em dezembro desse ano. Nesse mês realizou-se a primeira sessão infantil. Em 1950, com o constante aumento de sócios, o cineclube foi obrigado ao desdobramento das sessões, que passaram a realizar-se às 10h30 o Águia d’Ouro e às 11h no Batalha. É famosa e lembrada ainda por muitos, a cena de se assistir ao transporte das bobines entre ambas as salas (enquanto num cinema se mudava para a bobine 2, o outro cinema começava a bobine 1).

Em 52 o número de associados chega aos 2500 sócios e em 1953, com a constante atividade e aposta na formação exemplar do cineclube do Porto, “no seu esforço para defender e dignificar o cinema e desenvolver no público gosto e o interesse pelos aspetos técnicos e estéticos da arte cinematográfica” (3), gerou-se por todo o país a criação de outros cineclubes, como é o caso de sucesso de Lisboa (1950), Viseu (1955), Santarém (1955), Aveiro (1955), Faro (1956), Guimarães (1958), Coimbra (1958) e Torres Novas (1960). Em 53 o CCP dedica um ciclo a Charles Chaplin e outro ao cinema francês. Em 55 o CCP promoveu o primeiro encontro dos dirigentes dos cineclubes portugueses. De facto, os anos 50 foram sem dúvida o auge do CCP.

Foi a partir do final dos anos 50, mas sobretudo durante os anos 60, que o movimento cineclubista ganhou peso e viria a estar ligado à luta política de resistência à ditadura. Surge nesta altura uma elite intelectual, em oposição ao Regime. “O contexto social e político do Estado Novo condicionaria a vida do CPC. A imposição de uma fabricada identidade nacional faria dele um baluarte da luta pela liberdade de expressão.” (4). O cineclube do Porto conseguiu ainda assim projetar alguns dos filmes e realizadores mais proibidos de então, como por exemplo “O Couraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein. Durante a década de 60 o cineclube viria a apostar bastante na formação de técnicos e na produção de pequenos filmes em 16mm.

Após o 25 de abril, “a crise instala-se no Cine-Clube do Porto, que sofre uma perda significativa de associados. O que aconteceu?…” (5). Com o 25 de abril houve uma separação entre associados, devido à má gestão e conflitos internos por parte das várias direções, tendo- se criado um novo cineclube na cidade, o Cinelube do Norte. Nos anos que se sucederam o número de sócios começou a diminuir e muitos deixaram de pagar as cotas, e com o surgimento dos multiplex, o público mudou de hábitos, alterou-se a forma de ver cinema, perdeu-se o movimento cineclubista. A própria sede do CCP começou a degradar-se e com falta de apoio financeiro, as suas instalações deterioraram-se com o tempo.

“Que segunda cidade do país é esta que já teve um dos maiores cineclubes da Europa e onde agora há pessoas para tudo, menos para o cinema?”. José António Cunha, o atual presidente do CCP respondeu da seguinte forma: “No Porto existe público para o cinema. Não existe é cinema para o público do Porto. As infraestruturas instaladas não oferecem condições e é muito difícil para um programador encontrar uma sala bem equipada e com capacidade de acolher uma programação regular de cinema. Há, no entanto, algumas instituições a trabalhar e a exibir cinema. Destaca-se, entre todas, o trabalho da programação da Medeia no Teatro do Campo Alegre que tem sido uma referência de qualidade e estabilidade num contexto difícil. O Cineclube do Porto procura construir uma rede de parceiros que lhe permita estar em contacto com o público nas condições necessárias para se exibir cinema com qualidade.” (6).

Em 2010 o Cineclube do Porto regressa em força com a sua atividade regular cinéfila, recuperando alguns dos antigos sócios e trazendo muitos novos. “O Cineclube do Porto está hoje regularmente ativo apresentando aproximadamente 35 sessões por ano, com sessões todos os meses. Temos um ciclo de programação regular, quinzenal, durante todo o ano e dois ciclos de cinema ao ar livre, no mês de agosto. Além destas sessões que se repetem todos os anos, o Cineclube organiza sempre sessões de carácter excecional que vão surgindo ao longo do ano (…) A ausência de salas devidamente preparadas para suportar uma programação regular e não tendo ainda capacidade própria de ocupar e apetrechar uma leva-nos a programar em vários locais distintos ajustando a programação ao perfil desses mesmos espaços. Nos dias de hoje, o Cineclube do Porto programa as suas sessões quinzenais no Cinema Passos Manuel e os ciclos de verão no Museu Nacional de Soares dos Reis e no jardim da Academia de Música / Bar Breyner 85.” (7). Entretanto, o CCP passou a ocupar a Casa das Artes como espaço de exibição das suas sessões.

O papel dos cineclubes passa sobretudo por partilhar, ensinar e divulgar a paixão do cinema, a forma como vemos e pensamos o cinema. Passa portanto pela formação de novos públicos e técnicos. “…há um grande interesse por parte de todos eles em divulgar o cinema, os vários cinemas (português, europeu, americano, asiático, etc). Muitos continuam a investir na produção de cinema nacional e na formação de técnicos e de novos públicos. De uma forma generalista sentem os sinais da crise nacional, que tem vindo a cortar fortemente nos apoios às instituições. No âmbito regional estas instituições têm sido fundamentais para a criação de uma programação alternativa para as pessoas e mesmo para o desenvolvimento regional. Em alguns casos o cineclube é o único meio de ver cinema fora de casa (“a única ligação que o público tem com a 7a arte numa sala de cinema”). (…) Há, portanto, uma vontade evidente de querer passar o gosto pelo cinema, de ver, de o pensar e de o fazer. Tem sido esse o papel importante destes cineclubes nos últimos anos, ou até mesmo desde sempre.” (8).

Notas:

1) NADAIS, Inês – Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?. Ipsilon. (27/02/2009).

2) RESENDE, Tiago – Querido Diário: Edição Cineclubes #3 (Porto). Cinema 7a Arte. (15-09-2013).

3) COSTA, Alves – Os 12 degraus da vida do cine-clube do Porto. Porto, 1957.

4) REAL, Manuel Luís, [e tal.], eds. – Filmes na Invicta: A Militância do Cineclube do Porto. Porto: produzido pela Câmara Municipal do Porto e Pelouro da Cultura, Turismo e Lazer – DMC, coordenado por Manuel Luís Real e Maria Helena Gil Braga, dezembro 2008.

5) REAL, Manuel Luís, [e tal.], eds. – Filmes na Invicta: A Militância do Cineclube do Porto. Porto: produzido pela Câmara Municipal do Porto e Pelouro da Cultura, Turismo e Lazer – DMC, coordenado por Manuel Luís Real e Maria Helena Gil Braga, dezembro 2008.

6) RESENDE, Tiago – Querido Diário: Edição Cineclubes #3 (Porto). Cinema 7a Arte. (15-09-2013).

7) RESENDE, Tiago – Querido Diário: Edição Cineclubes #3 (Porto). Cinema 7a Arte. (15-09-2013).

8) RESENDE, Tiago – Querido Diário: Edição Cineclubes – Notas de Viagem #1. Cinema 7a Arte. (25-11-2013).