“A Dupla Vida de Véronique”: Ligação psíquica, mas não corporal

“A Dupla Vida de Véronique” é um filme de 1991 realizado pelo aclamado realizador polaco Krzysztof Kieślowski. O filme estreou no Festival de Cannes em 1991 e recebeu o prémio FIPRESCI, o prémio do Júri Ecuménico  e o de Melhor Atriz para Irène Jacob; foi a primeira co-produção Polónia-França de Kieślowski, marcando assim o início de uma etapa na filmografia do realizador marcada pelo sucesso comercial e reconhecimento internacional. Após “A Dupla Vida de Véronique”, Kieślowski realizou, também em co-produção, a trilogia da cor, “Azul” (1993), “Branco” (1994) e “Vermelho” (1994), tendo marcado presença nos principais festivais de cinema. Com “Azul” venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza; no Festival de Berlim venceu o Urso de Prata de melhor realizador com “Branco”; e “Vermelho” integrou a competição oficial do Festival de Cannes, tendo sido mais tarde nomeado ao Óscar de Melhor Realizador e argumento original. Após a estreia de “Vermelho”, Kieślowski anunciou que se afastaria da indústria cinematográfica, chegou a escrever o argumento de uma trilogia inspirada na “Divina Comédia” de Dante mas acabaria por falecer no ano de 1996.

“A Dupla Vida de Véronique” apresenta duas personagens que não se conhecem mas que são idênticas. Weronika vive na Polónia e Véronique na França, ambas partilham uma voz e sentido musical sublime, e um sentimento de que não estão sozinhas neste mundo, o que acontece a Weronika acaba por se refletir na vida de Véronique. Weronika representa a inocência e um certo tradicionalismo, oscila entre as forças da vida e morte, atinge reconhecimento profissional e artístico mas acaba por morrer durante o seu primeiro concerto. Da cena de morte de Weronika, Kieślowski corta para uma cena de sexo de Véronique, e assim introduz ao espectador uma nova narrativa. Véronique afirma sentir um sentimento de perda e luto que não consegue explicar, e decide desistir do coro onde cantava, após assistir a um espetáculo de marionetas na escola onde ensina música, entra num jogo de encontros e sedução com o manejador de marionetas, Alexandre. Quando finalmente encontra Alexandre e envolve-se com ele, apercebe-se do momento em que, numa viagem à Polónia, viu Weronika numa praça em Cracóvia.

A Dupla Vida de Véronique (1991) Krzysztof Kieślowski

É um filme dotado de uma sensibilidade cinematográfica e musical única, e por uma narrativa peculiar e intrigante. Nunca é explicado ao espectador a verdadeira ligação entre Véronique e Weronika, não percebemos o porquê das suas semelhanças físicas nem da sua ligação psíquica e emocional, o filme vai além do lógico ou racional e revela ao espectador duas personagens que são como uma mesma em dois mundos bastante diferentes. O filme é dotado de um realismo profundo mas é impossível ao espectador fugir da ideia mística e surrealista que está presente na narrativa. As figuras masculinas têm neste filme um certo papel de destaque, em parte assumem um papel de preocupação e ternura, tal representam o pai de Véronique e o maestro de Weronika, em outra o de autoridade e manipulação. Alexandre enquadra-se em ambos, nutre um sentimento puro por Véronique mas não deixa de a manipular num jogo que a leva ao seu encontro, por fim cria duas marionetas à semelhança de Véronique, ela sente que ambas representam a sua realidade, e quando ela lhe pergunta o porquê das duas, Alexandre afirma que quando uma se partir, tem uma segunda boneca de substituição, tal como o próprio Kieślowski nos apresenta a segunda Véronique após a morte da primeira.

A Dupla Vida de Véronique (1991) Krzysztof Kieślowski

Se olharmos para a filmografia de Kieślowski, é visível a maneira única como o realizador trabalha as relações entre personagens. Kieślowski explora de forma sublime o acaso dos encontros entre os protagonistas dos seus filmes, desde Decálogo” (1988) a “Vermelho”, passando por Short Film About Love” (1988), e claro está, a “A Dupla Vida de Véronique”, o realizador explora o individualismo e a maneira como o percurso dos seus protagonistas é marcado por encontros não intencionais. É através da maneira como as personagens dos seus filmes se conhecem e como se influenciam que Kieślowski dá forma a narrativas sublimes que exploram o contacto e interação humana. 

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