Donald Trump, no rescaldo da 91.ª cerimónia dos Óscares do passado domingo, apelidou de racista Spike Lee, lamentando, no Twitter, que este o tenha mencionado no discurso de agradecimento do Óscar de Melhor Argumento Adaptado (por “BlacKkKlansman – O Infiltrado”).

O realizador americano referiu-se às eleições presidenciais de 2020, recordando a história da escravatura e da sua família: a minha avó, que viveu até aos 100 anos, licenciou-se na faculdade, apesar de a sua mãe ter sido escrava”, tendo, segundo ele, “poupado 50 anos de cheques de segurança social para pôr o seu primeiro neto na faculdade de cinema em Nova Iorque”.

Apelando a uma mudança revolucionária de mentalidades, em resposta à crise de valores que se estende, inclusive, à indústria cinematográfica, relembrou: todos haveremos de nos ligar aos nossos antepassados; recuperaremos o amor e a sabedoria, recuperaremos a nossa humanidade”. Assumidamente contra a política e o poder demissionário de Donald Trump, Spike Lee frisa, ainda, o seguinte: vai ser um momento poderoso; as eleições presidenciais de 2020 estão aí à porta. Vamos mobilizar-nos e ficar do lado certo da história”, alertando, por fim, para a escolha, com moral, entre o amor e o ódio.

Em resposta, o Presidente norte-americano apontou: era bom que o Spike Lee se limitasse a ler os seus apontamentos, ou que os usasse de todo, em vez de lançar um ataque racista contra o vosso presidente”, que, segundo ele, já fez mais pelos afro-americanos (reforma da justiça criminal, os números de desemprego mais baixos da história, cortes de impostos, etc.) do que praticamente qualquer outro presidente.

Como vemos, estamos perante uma conjuntura de pensamento perigosa, onde não há espaço para debate, onde não há liberdade e respeito intelectual para se chegar a um consenso moral. É por isso que a indústria cinematográfica, os filmes, os artistas, realizadores e, sobretudo, os argumentos têm uma missão intelectual de excelência, a escolha de elevar mentalidades e linhas de pensamento, através da crítica, sátira, do humor, histórias verídicas. Precisamos do cinema para chegarmos mais longe. Juntos. Todos unidos na celebração da beleza e esplendor da sétima arte.