A Evolução do Cinema Através da Ficção Científica – O Que é a Ficção Científica?

A Ficção Científica é um género de ficção que se baseia na exploração de ideias e possibilidades originadas no mundo científico, ao contrário por exemplo do que acontece no género da Fantasia que se baseia em fenómenos sobrenaturais ou mágicos. A ficção cientifica tem então como premissa coisas como os avanços tecnológicos, viagens no tempo e no espaço, ameaça nuclear, tecnologia robótica, vida extra-terrestre, deslocação á velocidade da luz, etc. Enfim, basicamente tudo o que se possa englobar nas áreas científicas e Pseudo-científicas.

 

Como é normal no cinema, as origens deste género remontam á literatura. Autores como Phillip K. Dick (“Do Androids Dream of Electric Sheep”) H.G. Wells (“A Guerra dos Mundos”) Isaac Asimov (“Eu Robô”) ou Júlio Verne (“Vinte mil léguas submarinas” e “Viagem ao Centro da Terra”) são considerados os mestres do género e inspiraram de facto ao nascimento de muitos filmes, mas o verdadeiro pai deste género, ou neste caso, a mãe, é a escritora inglesa Mary Shelley, ao publicar em 1818 “Frankenstein ou o Moderno Prometeu” e pouco mais tarde, em 1828 “O Ultimo Homem”.

 

A ficção Cientifica pode ser encontrada ainda mais atrás na história, mais precisamente até ao século dez, onde no Japão o conto popular “O conto do cortador de Bambu” continha já viagens á Lua. Também algumas histórias de “As Mil e Uma Noites” contém viagens espaciais e povos que habitavam no fundo dos mares. Estes contos não tinham propriamente as mesmas bases dos livros de Shelley ou Julio Verne mas mesmo sendo maioritariamente ligados á fantasia iam mostrando pequenos detalhes importantes que posteriormente influenciaram os pioneiros da ficção cientifica como a conhecemos hoje em dia.

 

O inicio do “período dourado” do género deu-se já no século vinte, nos finais de 1920 e muito graças ao crescimento das revistas Pulp, dedicadas exclusivamente á Ficção Científica e fortemente influenciadas pelas populares obras de H. G. Wells e pelos avanços tecnológicos da altura que permitiam a chegada por exemplo de novos aparelhos a casa das famílias americanas e que anunciavam um futuro bastante promissor para a sociedade. A primeira série de revistas Pulp foi a Astounding Science-Fiction liderada pelo editor/autor John Campbell. Campbell foi de importância capital para o crescimento do género, sendo que o próprio Assimov o considerou como “A força mais poderosa de sempre na Ficção Científica”. Com o crescimento das histórias de Campbell nasceram outras revistas Pulp como a Galaxy e The Magazine of Fantasy and Science Fiction.  Posteriormente com o final de Segunda Guerra mundial e com o crescente uso da ciência no campo bélico (armas nucleares) as temáticas das revistas Pulp começaram a mudar. O mundo entrava agora num clima de Guerra Fria e exploração Espacial e a Ficção Científica acompanhava os acontecimentos. Com esta mudança de filosofia e com uma nova paleta de medos a Ficção Científica ganha um novo grupo de seguidores e novos autores começam a surgir; estamos no período de Stanislaw Lem, Isaac Assimov, Phillip K. Dick, George Orwell. A partir deste momento a Ficção Científica assume-se como um género sério e adulto que se utiliza a si mesmo para poder camuflar as suas sátiras e as suas opiniões acerca da sociedade moderna.

 

“Histórias de Ficção Científica podem parecer triviais aos olhos dos críticos e  filósofos mais desatentos, mas o núcleo, a essência da Ficção Científica tornou-se crucial para a nossa salvação, se é que vamos ser salvos de todo. ” – Isaac Asimov

Mas o Cinema, mesmo com bastantes anos de atraso em relação á Literatura; afinal de contas, o Cinema tem apenas 100 anos; conseguiu rapidamente apanhar todas as revistas pulp e todos os romances de Ficção Científica.

 

A grande diferença entre Cinema e Literatura é que enquanto um meio requer a criação de formas que permitam ao espectador visualizar (e mais tarde ouvir) de facto o que se está a passar na tela à sua frente, o outro meio apenas requer a existência de uma caneta, um bloco de folhas e bastante capacidade descritiva capaz de fazer o leitor imaginar com a maior precisão possível aquilo que lhe é descrito. O cinema precisava então de efeitos especiais e George Meliès foi o homem capaz de lhe fornecer isso.

Antes de começar a fazer cinema, Meliès era um ilusionista, sabendo portanto como enganar o publico a pensar que vê algo á partida impossível, e depois de montar o seu estúdio no telhado de um edifício de Paris ele começou a pensar em formas de fazer o mesmo em frente a uma câmara de filmar. A exposição múltipla por exemplo permitia-lhe criar uma banda de sete instrumentos, todos a ser tocados por réplicas de um único músico. Meliès inspirou-se então em Júlio Verne e em Wells e fez a primeira grande obra prima do cinema de Ficção Científica, e do cinema em geral: “A viagem á Lua”.

 

Já em meados da década de 20, 1924 e 1926 são lançadas duas longas metragens seguindo as premissas deixadas por Meliès no que toca a efeitos especiais. O filme de 1924 chama-se “Aelita”, um filme soviético realizado por Yakov Protazanov. O filme é uma adaptação do livro com o mesmo nome de Alexei Tolstoy e conta a história de uma viagem a Marte feita por um cientista Russo do periodo da pós-revolução que consegue construir uma inovadora nave capaz de viagens espaciais. Ele parte então para marte na companhia de um ex-soldado russo e quando chegam ao seu destino descobrem que o planeta é habitado por uma raça superior descendente de marcianos e do povo da perdida Atlantida, que vive num sistema bastante equiparável ao nosso capitalismo e onde a diferença de classes é abismal. Após uma tentativa de revolução, os dois viajantes russos retornam à Terra. O filme de 1926, definitvamente mais conhecido pelo grande publico é o “Metropolis” de Fritz lang, um filme épico que ultrapassou tudo o que havia sido feito até então em termos de efeitos especiais e sendo ainda hoje considerando uma das grandes obras do cinema mundial. Ambos os filmes fazem da Ficção Científica uma analogia para os problemas vividos pelas sociedades da altura, sendo que o filme Soviético investe mais nessa vertente do que o filme alemão (influência de uma recente revolução política-social) sendo que enquanto na literatura ainda demorou um bom bocado até que se apercebessem da capacidade do género para este tipo de intervenções, no cinema esta qualidade começou logo com as duas primeiras longas metragens de Ficção Científica.

 

Mas se na parte narrativa/interventiva “Aelita” sai um pouco por cima, a nivel técnico “Metropolis” leva sem dúvida o prémio de obra-prima. Lang mostra-nos aviões a circular entre os edifícios, uma cidade gigantesca com um estilo arquitectónico bem diferente a aquilo que era normal ver na época (e ainda hoje) alimentada por uma fábrica nunca antes vista, enorme, onde o trabalho é feito com um ritmo e uma coreografia muito particular e mostra-nos ainda a famosa cena onde um Robô ganha a aparência de uma jovem mulher.