Começaremos com o óbvio: “A Impossibilidade de Estar Só” é um fantasia açucarada de quem julga que a juventude é o fim das emoções – a epifania das epifanias – de quem encara a vida como uma autêntica ficção mercantil com o desejo de ser maior que as próprias circunstancias. Contudo, nada de mal com isso, se não fosse o facto deste projeto ser no mínimo embaraçoso.

Sérgio Graciano (do inesquecível [pelas piores razões] “As Linhas de Sangue” e o limitadamente competente “Assim, Assim”) estreará este ano [2020] três longas-metragens, incluindo a esperada cinebiografia de Salgueiro Maia, porém, no pacote está incluído este road trip romanceado de uma jovem, diagnosticada com uma doença rara, que se aventura, juntamente com a sua melhor amiga e contra as indicações dos médicos e dos seus pais, pela costa vicentina na demanda do seu pretendente.

Uma “aventura” (colocar as aspas para não sermos mal interpretados), onde os adultos são meras vozes ou corpos imparciais e a música de Lúcia Moniz acompanha os intermináveis slow-motions (autênticos videoclipes de narrativa deitada fora). Este é o tipo de produção cujas boas intenções não pagam barqueiros, tudo ambicioso mas igualmente entregue a uma estética académica e inexperiente, com Sérgio Graciano provando mais uma vez, que os tiques televisivos que ostenta não são mais que meros “know hows” de mau tarefeiro. Já vimos trabalhos escolares com melhor aspeto que isto.

Pelo meio deste turbilhão … previsível aliás (até existe uma clara apropriação de guião e decisões estéticas a replicar “Everything, Everything”, fábula de amores “teenagers” de Stella Meghie) … desperdiça-se talentos (imaginamos estas atrizes sob outra direção), vontades e até mesmo caridades. É novamente o protótipo de um cinema que não existe de todo, e para além disso, é tão embaraçosamente artificial … tão “impossivelmente” meloso!

«A Impossibilidade de Estar Só» – mas por vezes vale mais do que estar mal acompanhado
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