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«A Mulher Que Fugiu» – Mas que continua no mesmo sítio

Ouve-se a certar altura, a passos do seu final, uma mulher referindo à popularidade do seu ex-marido [romancista] desta forma – “A maneira como ele se repete é absurda”. A frase parece cair nas minhas mãos como uma nota de suicídio, um “mata-me por favor” vindo do realizador “mais consensual do momento”.

É que filme após filme e quase sem descanso, o sul-coreano Hong Sang-soo tem mimetizando um estilo, uma estética despida e intencionalmente amadora, e retalhos de um quotidiano entediado (“A vida é aborrecida”, outra tirada ouvida por estas bandas) até à sua exaustão. É um efeito-estufa, o de criar um universo reconhecido até à última gota para que a viagem na corrente da sua filmografia seja percorrida em trilhos seguros e sem qualquer imprevisto. Mas será essa própria fidelidade autoral num sinónimo de genuinidade autoral? Será que poderemos considerar o constante gesto repetitivo como a cerne de um artista?

Possivelmente, como o leitor já deve ter percebido, sou uma voz rara na atual cinéfila, um cético na autenticidade e dos critérios que fazem qualificar este cineasta como um apogeu da sua arte, mas mais que isso, acredito que a repetição é diversas vezes usada como um escudo, uma impunidade crítica a favor da empatia. Primeiro, Hong Sang-soo não ‘nasceu’ detendo aqueles característicos zooms (como é óbvio!), privilegiando-o dessa inexperiência com a câmara para muitos (só de pensar na tamanha indignação causada por um travelling em “Kapò”, de Gillo Pontecorvo), e segundo, o tom que cada vez mais se aproxima às aventuras e desventuras emocionais e “filosóficas” do francês proverbial Eric Rohmer. Ou seja, há uma importação colonizada em Sang-soo, um cinema sul-coreano com alma europeia, com facilidades de agradar os grandes polos de crítica internacional.

Não me interpretem mal, não considero Hong Sang-soo um zero redondo e a negrito, é na sua criatividade como argumentista o qual esforço em acompanhar (recordo da agradável barafunda narrativa de “Hill for Freedom”, uma construção-puzzle num dispositivo credível), porque a sua formalidade fixou-se numa homogeneidade cansável (basta verificar a sua estreia em 1996 – “The Day a Pig Fell Into the Well” – uma relação desencantada para com o quotidiano mas encantada na sua estetização) como a própria rotina quotidiana (como muitos defenderão).

Porém, em “A Mulher que Fugiu”, filme inacreditavelmente premiado como Melhor Realização no Festival de Berlim, é somente o bloco de carvão extraído do lápis, não há réstias de evolução nem preocupação formal (há um gato que aparece sem aviso e que tem contraído orgasmos e histerias por essa cinefilia fora, sem contar com os tais “zooms” aleatórios) ou de guião (a visita de uma mulher às suas diferentes amigas, orbitadas por prejudiciais presenças masculinas, é um punhado de rotinas esvaziadas). O que pairamos nestes 70 minutos é a derivação de um estilo e a prevalência de costumes brandos (a atriz e musa Kim Min-hee repete-se novamente como espectadora dos seus próprios filmes e dos criados para encher telas de “faz-de-conta”).

No entanto, repesco a minha anterior pergunta para a deixá-la no ar: será que poderemos considerar o constante gesto repetitivo como a cerne de um artista?

«A Mulher Que Fugiu» – Mas que continua no mesmo sítio
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