«A Mulher Que Fugiu» – Uma leve brisa de ar fresco num dia de Verão

Lembro-me que o meu primeiro contacto com a obra de Hong Sang-soo foi como abrir uma janela e levar no rosto com uma brisa de ar fresco num dia de calor intenso. Se esta metáfora, por um lado, tenta explicar a singularidade da minha experiência, ao mesmo tempo, ela traduz aquilo que, aos meus olhos, é essência do cinema do cineasta sul-coreano.  E um filme talvez seja sempre uma janela: em alguns filmes, elas abrem-se; em outros, fecham-se. Porque nem sempre é bom abrir uma janela. Por vezes, os filmes intensificam a nossa experiência quando nos fecham uma janela na cara ao conseguirem pressentir a nossa vontade de a escancarar. Esses são, sem dúvida, os melhores filmes. Mas, há janelas que também se abrem diante do nosso olhar, para que cesse o indelével desfile do nosso reflexo projectado nos seus vidros. Antes de qualquer incursão óbvia na comparação da abertura de uma janela com o realismo cinematográfico, acho que esse acesso ao real é, antes de tudo, uma forma de exaustão necessária do ar viciado acumulado, que já foi demasiadamente respirado. É precisamente por vivermos demasiado tempo confinados no mesmo ar, que sentimos um prazer inesperado na frescura da nova brisa que entra. Então, nem é tanto a visão do real que o filme nos oferece, mas sim o vislumbre de uma alteridade mais pura: o simples prazer de sentimos a presença da diferença; uma não dependência do filme em relação ao nosso olhar.

É este o sentimento que (todos) os  filmes de Hong me passam. Como se nem exigisse mais nada do que sentir neles essa brisa, todas as vezes. É a frescura de sentir entrar por essa janela as influências dos vultos dos maiores génios do cinema moderno condensados numa forma de filmar desconcertante, por conseguir um nível de precisão extrema aliado a uma singeleza sem par. No seu último filme, Hong intensifica essa singeleza ao nos mostrar um dia na vida de Gam-hee (Kim Min-hee). Esse dia podia estar repleto de acontecimentos extraordinários e ruidosos; porém, Gam-hee, no único dia em que esteve longe do seu marido, resolve aparecer na casa de uma amiga com um saco de carne para um churrasco. Se no diálogo que antecede o almoço, Gam-hee fala do quão especial é esse dia, em que (finalmente?) se encontra longe do namorado, durante o almoço, Hong ainda dá autorização às personagens para falarem sobre a banalidade expectável do facto de estarem a comer carne… Sei que aos olhos de alguns espectadores tudo isto pode parecer demasiado banal, porém, aos meus olhos, é sintoma claro de uma enorme ousadia, que revela uma forte subtileza estilística.

Talvez o famoso plano do gato resuma bem o tipo de cinema de Hong Sang-soo. O realizador sul-coreano tem naquele gato o seu alter-ego – porque os realizadores são como “gatos que não são ladrões, mas crianças”. Por um lado, existem os que gostam dos seus filmes e os recebem com prazer; por outro, existem os que reclamam da sua existência e que não percebem aqueles que lhe alimentam o ego. Em relação a ambos os lados, Hong procura o melhor lugar onde pousam os raios de sol da manhã, senta-se, dá uma breve coçadela no cachaço, une as duas patinhas dianteiras e termina o seu intenso manifesto de liberdade com um bocejo. E o que fazer perante essas imagens, que se dão ao espectador com o profundo desprendimento de um felino? A verdade é que não o afecta nem o elogio mais rasgado, nem a crítica mais severa.

Se pensarmos que estamos perante imagens que apenas representam a maior das banalidades, quer dizer que precisamos de redobrar a nossa atenção.  Chegaremos a um ponto em que, pouco a pouco, começamos a reconhecer um tipo de precisão muito particular. As repetições vão consolidando e reforçando os traços que caracterizam a essência do estilo do realizador. Através delas, o realizador cria um solo, uma base imóvel que irá segurar toda a sua estrutura formal – onde são visíveis as suas assumidas influências bressionianas. A verdade é que criando esta solidez, este bloco marmóreo de mesmidade formal, o menor movimento passa a ser sentido com uma intensidade inesperada. Este filme, contém talvez um dos melhores exemplos deste efeito. Na cena em que Gam-hee se encontra em diálogo, numa mesa, frente a frente com a sua amiga, enquanto comem e bebem um copo de vinho, a estranheza de quem conhece o estilo do realizador toca de imediato, quando notamos que o realizador escolheu desviar a câmara uns centímetros para o lado esquerdo do ponto central em relação à postura de perfil das duas personagens – plano que define a base estilística de Hong. Para um olhar desatento, esta deslocação não passa de um mero capricho de realização, como se fosse igual deslocar a câmara uns centímetros para a esquerda ou para a direita. Mas, ao olharmos mais atentamente para essa cena, a janela que se encontra no fundo do plano, deixa de ser uma simples janela ao notarmos que os desvios da câmara afinal se justificam ao darem forma a um segundo enquadramento dentro do plano. A janela enquadra a paisagem exterior de forma não aleatória, mas formando um quadro, que, caso a câmara estivesse centrada, certamente a imagem iria perder qualidades pictóricas que o realizador, com o seu pequeno desvio, optou por trazer para o seu enquadramento.

Os filmes de Hong Sang-soo estão repletos de detalhes que possuem uma força quase mágica. Fico com a sensação de que as coisas belas não seriam belas sem uma pequena dose de estranheza. O cinema abre as janelas à estranheza, àquilo que insistentemente nos nega, e consegue-o com mais força quando coloca a estranheza no seio mais profundo do nosso quotidiano.

Que maravilha é um cinema des-interiorizado, que, dentro de si, apenas contém um nada, que ternamente nos bafeja o rosto como uma brisa de ar fresco num dia de calor intenso.

«A Mulher Que Fugiu» – Uma leve brisa de ar fresco num dia de Verão
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