“A Noite” – Do mistério que habita o banal

Depois da sua curta, “Walker” (2012), onde um monge (Lee Kang-Sheng) faz uma longa e lenta, muita lenta, caminhada pelas ruas de Hong Kong, com um saco de plástico numa mão e um hambúrguer na outra, Tsai Ming-Liang trouxe à última edição do Curtas Vila do Conde a sua nova curta-metragem, “A Noite”. O realizador tailandês escolhe novamente as ruas de Hong Kong como cenário do seu filme. Os demorados planos das ruas da cidade vão mostrando a dinâmica nocturna através dos fluxos de movimento que nelas circulam. Se os primeiros planos – mais demorados – possuem um teor realista, apresentando objectivamente os movimentos nas ruas enquadradas pelo realizador, os últimos entram numa estética impressionista, onde os movimentos da cidade começam a ser captados com alguma opacidade, através de vidros onde foram deixados pedaços remanescentes de cartazes arrancados.  Os fragmentos de papel, juntamente com as camadas de cola que permaneceram nos vidros, formam quadros que começam a abstrair, progressivamente, o teor realista com que o realizador havia começado o filme.

O espectador habituado ao estilo particular do cineasta tailandês sabe que a banalidade apresentada é aparente, pois existe uma chama já acesa algures. Olhámos para as imagens dos seus filmes como para uma porção de água que sabemos que demora a ferver. E eis que vemos surgir o ponto de ebulição, num borbulhar sereno, quase impercetível. Da aparência fria das imagens emana uma nuvem de vapor, uma emoção singela, que preenche de afecto todas as imagens precedentes. Em “A Noite”, essa nuvem vaporosa é uma antiga música chinesa que fala sobre o mistério que a noite encerra, sobre a brevidade dos encontros que terminam com o nascer do sol.

O realizador tenta nesta curta a mesma construção formal da sua obra-prima “Goodbye, Dragon Inn” (2003), filme sobre o último filme chinês a passar numa sala de cinema desertificada, inundada e decrépita. O ponto de ebulição e o toque afectivo que ele consegue gerar é aqui tão subtil que é difícil coloca-lo em palavras. Uma série de elementos estéticos fazem confluir o movimento lento do filme para esse momento final em que a música começa a tocar. O cenário nocturno, a chuva abundante, os espaços do cinema, inundados e desgastados, vão passando uma sensação forte de nostalgia até que a música final vem derramar esse afecto ternurento e nostálgico dentro de nós.  Em “A Noite”, a duração e os elementos que vão aparecendo não são suficientes para que esse toque final tenha o misterioso poder afectivo de “Goodbye, Dragon Inn”, porém, dentro da atmosfera que criou na sua curta, o toque final é suficiente para dar luz a uma certa memória ou imagem que guardávamos em nós.

No final, perante um filme de Tsai Ming-Liang já não se trata tanto de compreender uma lógica inerente ao filme, trata-se de um reaprender a ver. Trata-se de recuperar a circunspeção que esse gesto comporta e a sapiência de um olhar que consegue esperar.

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