A nossa vida em directo nesta “Máquina Fantástica”

"Máquina Fantástica", de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck "Máquina Fantástica", de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck
"Máquina Fantástica", de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck

“Máquina Fantástica” que está agora disponível na Filmin em Portugal, é o documentário de estreia dos realizadores Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck. Premiados nos Festivais de Sundance e Berlim com esta obra que vira as câmeras para a sociedade para explorar, explicar e expor como a nossa obsessão desenfreada pela imagem cresceu e mudou o nosso comportamento humano.

O documentário começa com uma breve e rápida história da imagem, do cinema e do audiovisual. Da Câmera Escura e dos Irmãos Lumière ao YouTube e ao mundo das redes sociais, da invenção da webcam ao primeiro vídeo viral, o filme narra como passamos da captura da imagem de um quintal a uma indústria de conteúdos multibilionária em apenas 200 anos. Com uso exclusivo de imagens de arquivo e recolhidas em redes sociais e canais de streaming, a narração conduz-nos por um mapa em que o filme utiliza o próprio meio que examina, numa montagem rápida e autorreflexiva. Ao reunir material de arquivo histórico de grandes ditadores desfilando diante de multidões animadas, onde podemos ver uma sorridente Leni Riefenstahl orgulhosa, com vídeos caseiros, conteúdo de streaming ao vivo e clipes de caçadores de emoções no topo de um arranha-céu, ou fotografias angustiantes da imprensa exibindo violência, oferece um estudo emblemático de cinema/audiovisual e a história social que ele cria: Quais são as implicações de estar exposto a milhares de milhões de imagens que competem pela nossa atenção? Quinhentas horas de vídeo são enviadas ao YouTube a cada minuto. O que isso diz sobre nossos tempos?

A necessidade uma constante exibição e captação da realidade refuta cada vez mais a capacidade de memória real visual, sensorial. Criamos falsas memórias a partir do material que recebemos em catadupa. Daqui a uns anos já não saberemos distinguir se estivemos no evento x ou y ou se o absorvemos pelas imagens de outro.

A multiplicação das fake news, das inverdades e da forma como quem faz fact checking acaba por ser ignorado porque a primeira imagem vale mais que qualquer correcção que possa ser feita à posteriori. Vale como verdade a primeira coisa que nos chega aos olhos. Há um fenómeno crescente e assustador de uma geração que será a que mais acesso e mais fácil acesso tem do conhecimento e da informação e que ao mesmo tempo não sabe lidar com a quantidade. Acabamos assoberbados em varias tabs abertas no browser, vários dispositivos ligados ao mesmo tempo e a dispersão da capacidade de foco.

“Máquina Fantástica” não é um excelente documentário mas é sem dúvida uma ferramenta fácil de usar para criar pensamento crítico e discussão. Dos 8 aos 80 anos, nas salas de aula será um bom auxilio para professores. Cumpre assim uma função e tem o seu valor por isso.

"Máquina Fantástica", de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck
A nossa vida em directo nesta “Máquina Fantástica”
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