«À Pas Aveugles» – à memória dos que resistiram para devolver a nossa Humanidade

Nestes lugares dedicados à negação da Humanidade, recuperar o controlo da própria imagem era um ato de resistência

São vários os momentos de difícil associação deste “À pas Aveugles” (“From Where then Stood”) com a literatura de Primo Levi, nomeadamente do seu mundialmente famosos e relevante “Se Isto é um Homem” (“Se questo è un uomo”, publicado em 1947). Até porque o autor literário confidenciava nas páginas a sua experiência em Auschwitz, referindo-se, sobretudo, ao ato de higienização (o quanto possível) como uma oposição à transformação sub-humana que os prisioneiros eram, diariamente, submetidos. No documentário de Christophe Cognet, realizador que dedica parte da sua vida à análise e estudo dos campos de concentração alemães, aponta para as fotografias clandestinas tiradas por dezenas de prisioneiros (registando-se atualmente mais de 50 “fotógrafos marginais”), longe dos olhares dos guardas e dos seus carrascos, como uma guerrilha, não só pelo seu individualismo (sendo que o filme demonstra a fotografia como um escape daquelas mesmas trevas), mas na concepção de documentação que impedem o esquecimento futuro daquela existência, assim como daqueles campos.

São fotografias, ocultadas e sucessivamente contrabandeadas para o exterior, que desmontam parte do quotidiano naqueles terrenos malditos, descortinando rostos e arquitetura, porventura destruídas, ou provas esquecidas dos atos ali cometidos. Cognet segue para o terreno, explorando o sitio onde tais imagens foram extraídas e, simbolicamente, devolvendo-as através dos inúmeros “filhos dos negativos”, a fotografia em contacto com a sua génese. “À pas Aveugles” convida-nos a olhar para os registos, analisando-os com a profundidade e detalhe de vislumbre académica, porém, é o seu respeito, algo mútuo, que tornam estas imagens destacadas numa mostra silenciosa (impedindo o “embelezamento” ou acréscimo emocional, sobretudo através da ausência de banda-sonora, uma mera futilidade neste caso), ou a aproximação do desígnio da “não-imagem” de Alain Resnais (“Noite e Nevoeiro”, 1956) e por sua vez caminho direto ao anual “post-it” de “Never Forget” (Holocausto como memorando da nossa vivência enquanto Humanidade) .

Convenhamos que a sobre-análise para fins estudiosos desta mesma colheita fotográfica, colocam o filme de Cognet na investigação academizada, afastando-o dos olhares menos dados para intensificadas interações. Todavia, o resultado, a viagem que assombra-nos, é um feito numa atualidade dotada de banalizações ou negacionismos de oportunismo politizado. Pegando no tal “post-it” – o de nunca esquecer dos negros dias em que ser um Homem seria mais do que o arrasto do fôlego, e sim a invocação, mesmo que sufocada pela destruidora “máquina” nazi, da nossa civilização … ou que restava dela.

Mas o sentido era este, que não esqueci, nem então nem depois: que, exatamente que o Lager [campo] é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais; que também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para contar, para testemunhar; e para viver é importante esforçarmo-nos para salvar pelo menos o esqueleto, os pilares, a forma da nossa civilização. Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos, portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos que caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.

Primo Levi, “Se Isto é um Homem”

«À Pas Aveugles» – à memória dos que resistiram para devolver a nossa Humanidade
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