Chega agora às salas um dos melhores filmes portugueses de que temos memória. Não deixa de ser curioso, voltar a este texto (escrito na altura do Indie, mas também rever este filme), isto, em pleno decurso do festival de Berlim. E até, com o lado irresistível (provocatório) de o confrontar com a já longa lista dos que vimos até agora. Caro Aguilar, por certo, não seríamos só ‘nós’ a optarmos pela letargia irresistível desta ‘tropical malady’, em vez de tantas outras propostas, digamos assim, esquecíveis por aqui receitadas.
Tilinta ao som de espanta-espíritos e articula um cinema de procura em que um grupo de personagens vive momentos de ansiedade, paredes-meias com a loucura. Sandro Aguilar volta a ‘casa’, na sua terceira longa, com um cinema avassalador, depois de “Mariphasa” (2017) e “A Zona” (2008), mesmo com inúmeras curtas de permeio, apesar de ser na produção que Aguilar se destaca, com perto de uma centena de obras com o selo de O Som e a Fúria.
“Nós”, portanto. Esse é o efeito reflexo sugerido no título “Primeira Pessoa do Plural”, e que leva mais longe esse território de questionamento visual (melhor, sensorial) como não me lembro de ver em nenhum outro filme português recente. Albano Jerónimo, é avassalador como só ele sabe ser, tal como uma irresistivelmente titubeante Isabel Abreu, falando como se lhe faltasse o ar, regressam, ambos de olhos vendados, sugerindo o blind date para um casal destroçado pela morte (apenas sugerida) da filha deles. Preparam-se para uma viajem aos trópicos (a uma ‘ilha da desilusão’), disfarçada da celebração dos seus vinte anos de casados. Ou seja, o contraste mais vincado. Ao agregado acrescenta-se ainda Eduardo Aguilar, filho de Sandro, uma feliz novidade para um ator prestes a reclamar um espaço próprio, depois das experiências nos filmes anteriores de Sandro. Ele é um puto de hoje, ‘coelho’, para os ‘manos’ da escola, ligeiramente arrogante, suavemente afetado, pausado, desinteressadamente inquisitivo.
Este é um filme que não propõe explicações – talvez por isso nos seduza – preferindo atrair o espectador para um campo simbólico, onde os gestos remetem para um universo habitado por fragmentos de filmes clássicos (mas também contemporâneos) onde a câmara desliza num fascinante jogo de fusões e espelhos. Claro que pensamos ‘ver’ “O Homem Insivível” (1933), de James Whale, na procura de devolver a vida à filha morta, ou a metáfora subconsciente de “Olhos sem Rosto” (1960), de Georges Franju, no propósito de devolver o olhar à filha. Se bem que toda esta jornada tenha algo de provocadoramente insólito e febril, que nos lembra “Pacification”, de Albert Serra ou até os fantasmas de “Tropical Malady”, Apichatpong Weerasethakul.
Mas que mundo é este, ao mesmo tempo assético, imaculado e encantatório? Mas será que precisamos de compreensão? Nada disso. Deixemo-nos transportar para os trópicos (com ou sem máscara), indiferentes ao contágio sensorial deste objeto fascinante de cinema que capta os gestos de diferentes gerações, sejam eles adolescentes ou adultos. E que não deixa de nos visar. A nós. Aguilar comete a ousadia de aproximar-se de uma grande verdade de cinema. É isso que fascina. Pelo desprezo de uma retórica narrativa linear, deixando espaço livre para nos perdermos.
Este é um filme que parece estar ligado por pinças, mesmo que essa delicadeza falsa, destorcida, ceda a num estado de embriaguez medicada que nos arrasta ao longo de duas horas de fascinante prazer. A certa altura, diz a personagem de Albano à do jovem Aguilar, enquanto partilha com ele um charro, “não é fácil entrar neste mundo de merda”. Pois, talvez não seja, mas “A Primeira Pessoa do Plural” é daqueles filmes que apetece rever imediatamente após o seu final, para rever aqueles momentos de uma frágil tensão, para recordar os prodigiosos movimentos de câmara, os reflexos a meia luz.
“As pálpebras estão a descolar-se…”, escuta-se, já no final, como um prenuncio de desintegração física. Como Isabel Abreu que parecer levantar-se debaixo da terra, feita zombie, para cuspir os brincos ensanguentados na pia da casa de banho. Para estes dois, a solução dos trópicos já não é suficiente. O apaziguamento já não vai lá, nem com a euforia do tecno final, que mais parece o batimento de um coração prestes a rebentar!
É um pouco esta tonalidade surreal que liberta o olhar desse sonho febril, dessa letargia paranoica. Só que toda esta asfixia levada aos limites, incorpora o tilintar do espanta-espíritos que rimar com a melodia solitária de um piano afinado pelo barulho da chuva lá fora. Um contexto acertado para uma pequena obra-prima.


