O realizador, produtor e argumentista mexicano, vencedor de dois Óscares de Melhor Realizador, Alejandro G. Iñárritu, atualmente na Bósnia e Herzegovina para receber o Prémio Honorário Coração de Sarajevo na 25.ª edição do Festival de Cinema de Sarajevo, que termina a 23 de agosto, teve algumas palavras fortes sobre o estado atual do cinema. No discurso de aceitação do prémio o realizador avisou que os filmes estão a mover-se a um passo rápido demais e estão a atingir ritmos tornados populares por narrativas “fabricadas”também conhecidas como narrativas de TV, em particular os streamings de televisão.

Segundo a Variety, Iñárritu apelou a que os filmes sejam mais contemplativos, apelando a que estes sejam mais misteriosos, impenetráveis, poéticos e emotivos”. Acrescentou, ainda, que os filmes do passado exploravam diferentes maneiras de contar histórias, tentando empurrar a linguagema um patamar mais célebre. Agora é a experiência do streaming de TV que prevalece”.

Os filmes mais recentes de Iñárritu, incluindo épicos cinematográficos como Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (2015) e “The Revenant: O Renascido” (2016), não testam exactamente a paciência, mas adoptam uma abordagem mais contemplativa das suas narrativas baseadas em personagens, o que ele enfatiza estar atualmente ausente nos cinemas. A linguagem está a mudar, a necessidade de enredo e narrativa é tanta que está começar a deformar a maneira como podemos explorar os temas. As pessoas são muito impacientes agora”.

Está tudo a mudar tão rápido que agora os filmes precisam de agradar imediatamente ao público. Os filmes têm que ser globais e têm que gerar muito dinheiro, (…) o que acontecerá com as gerações mais jovens que não conseguirão entender que um filme pode ser poético, impenetrável ou misterioso?.

“Imperfeição, risco e audácia” nos filmes é o que Iñárritu sugere, afirmando que a poesia reside no facto de o primeiro filme não ser perfeito, ou que neste caso, não deve ser perfeito.

Para alguns o cinema é uma forma artística de expressar uma visão pessoal do mundo, para outros é apenas entretenimento: é um meio de fazer dinheiro, uma indústria”. Esta indústria apenas quer fazer “conteúdo para preencher os canais”.

Embora os filmes continuem a ser a forma de arte mais importante do mundo, o meio tornou-se “uma orgia de interesses que estão na mesma cama, com princípios poéticos, mas ao mesmo tempo é uma prostituta a troco de dinheiro”, lamenta o realizador.

Alejandro González Iñárritu teve a sua estreia na realização na Semana da Crítica na edição do ano de 2000 do Festival Internacional de Cinema em Cannes, com “Amor Cão” (2000), tendo sido nomeado no mesmo ano para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na sua carreira tem títulos como “21 Gramas” (2003)“Babel” (2006), que reuniu sete nomeações aos Óscares e recebeu o Prémio de Melhor Realizador em Cannes, em 2006, e Biutiful, apresentado em competição em Cannes, em 2010.

Tornou-se no primeiro cineasta mexicano a ser nomeado para os Óscares de Melhor Realizador e Melhor Produtor, e o primeiro do seu país a ser nomeado para a Palma de Ouro em Cannes. Recentemente, Iñárritu tornou-se no primeiro realizador latino-americano a encabeçar o júri do Festival de Cinema de Cannes, em 2019.