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“Ama-san” é, na sua essência, um retrato de um Japão aparentemente futurista, mas que já nasceu há 2000 anos: Varejão cristaliza uma tradição ancestral que corre o risco de se esvair por entre a modernização sedutora. “Ama-san” cria assim um paralelismo com um país moderno que caminha lado a lado com o seu legado tradicional, num mergulho não apenas para encontrar abalone e búzios, mas também um mundo suspenso entre o sonho e a realidade, o passado e o futuro

Uma “ama” significa literalmente “pessoa do mar”: é uma mergulhadora das profundezas das águas japonesas que se dedica à recolha de abalones, algas, pérolas e outros tesouros marinhos. Esta prática leva mulheres de várias idades a mergulhar no mar em apneia, sem ajuda de botijas de oxigénio, conseguindo manter-se com a respiração suspensa até dois minutos. É perigosíssimo, mas serve-lhes de sustento para elas próprias e para as suas famílias.

Varejão foi descobri-las nas fotografias do antropólogo Fosco Maraini, que deu a conhecer esta comunidade à Europa nos anos 50, e também num poema escrito por uma amiga. Nos documentos de Maraini, estas jovens mulheres apareciam de corpo nu, com um sabre pontiagudo de madeira preso à tanga e uma corda à volta da cintura para as ligar ao barco. Atualmente, elas cobrem-se: para além dos fatos de borracha, barbatanas, luvas, e das máscaras de mergulhador, colocam sobre a cabeça um lenço todo carimbado com símbolos dos templos, que segue toda uma lógica de colocação, segundo a religião budista.

Esta viagem de Cláudia Varejão acompanha Matsumi, Mayumi e Masumi, três mulheres “ama”, dentro de uma comunidade nacional de 2000 mergulhadoras, de gerações distintas a viver numa pequena vila piscatória japonesa. Elas pertencem a um grupo que mergulha nas águas de Shima há já 30 anos – existem “ama-san” com 90 anos de idade a ir para o mar todos os dias. Em vez de refazer esta história com temáticas factuais, Varejão opta pela observação dos rituais do quotidiano de uma comunidade predominantemente feminina, executada através de uma bela relação de cumplicidade e afeto para com as personagens principais. É notável sentir o clima de entreajuda entre as “amas”. Elas não competem entre si, para ver quem é que apanha mais abalone e quem tem o saco mais pesado, elas são mulheres corajosas que se apoiam entre si e vivem um objetivo máximo de preservar esta tradição. Entre os meses de Março e Setembro, durante 4 horas por dia, repartidas entre a manhã e a hora de almoço, as “amas” fazem-se ao mar. Mergulham sem botijas de oxigénio, para assim perpetuar a tradição das suas antepassadas. Isso é notável porque a presença das câmaras não as condiciona, pelo contrário, mantém a sua distância delas. O público fica assim grato por poder testemunhar silenciosamente esta vivência deliciosa.

Ama-san é um símbolo de emancipação da mulher oriental. As “amas” têm um valor inestimável para o seu país, conquistado o estatuto de coletoras e cuidadoras, e questionando o que significa ser mulher nas sociedades orientais.

Cláudia Varejão prometeu-nos sereias. E cumpriu.

Estreado na Seleção Oficial do Festival Visions Du Réel 2016, “Ama-San” ganhou o prémio de Melhor Filme da Competição Portuguesa no Doclisboa 2016.

Realização: Cláudia Varejão
Argumento: Cláudia Varejão
Elenco: Matsumi Koiso, Mayumi Mitsuhashi, Masumi Shibahara
Portugal – 2016
Documentário
Sinopse
: Um mergulho, a luz do sol do meio-dia atravessa a água a pique. O ar que está nos pulmões terá que chegar até que se consiga arrancar o abalone das rochas do fundo do Oceano Pacífico. Sem o auxílio de botija de ar ou outra ferramenta que potencie a capacidade de permanecer debaixo de água, o corpo é convocado a atingir o seu limite. Em Wagu, uma pequena vila piscatória da Península de Ise, Matsumi, Mayumi e Masumi, mergulham diariamente sem saber o que irão encontrar. Os seus corpos delicados em terra dão lugar a caçadoras no mar. Estes mergulhos são dados no Japão há mais de 2000 anos pelas Ama-San.

«Ama-San» – As Sereias do Japão
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