André Rui Graça: “É preciso estudar mais o cinema português e ajudar a divulgá-lo”

“É preciso estudar mais o cinema português e ajudar a divulgá-lo” e que “ainda há falta de livros sobre cinema português em inglês. Se não os houver de todo, nunca poderemos efetivamente ajudar à divulgação do cinema português.”, afirma André Rui Graça ao Cinema Sétima Arte que o entrevistou a propósito do recente lançamento do seu livro “Portuguese Cinema (1960-2010): consumption, circulation and commerce”.

Publicado pela editora académica Boydell and Brewer, “Portuguese Cinema (1960-2010)”, é um dos primeiros livros em inglês sobre cinema português e terá difusão internacional. O livro traça a evolução do cinema português entre o início do movimento do Novo Cinema em 1960 e o auge da crise económica em 2010, numa perspectiva sócio-cultural e económica. É, segundo o autor, um trabalho de divulgação científica. Está escrito de forma a que possa ser entendido tanto por um académico, como por alguém que simplesmente tenha curiosidade.”.

Ao mesmo tempo que se centra no caso de Portugal, também lança luz sobre os problemas enfrentados por outras culturas cinematográficas periféricas no mercado internacional e no circuito de festivais. “Este livro é o resultado de anos de investigação sobre a história estética e económica do cinema português. Este livro vem robustecer esta linha de investigação (bem como estudos sobre economia e cultura) e é um dos primeiros contributos de grande fôlego, em língua inglesa, acerca do tema.”

“Portuguese Cinema (1960-2010): consumption, circulation and commerce” está neste momento disponível para pré-encomenda no site da editora e nos canais normais (Amazon, etc). O lançamento está marcado para maio de 2021.

André Rui Graça é professor convidado, na área de cinema, na Universidade da Beira Interior, investigador na Universidade de Coimbra (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20) e consultor. É colaborador do Cinema Sétima Arte e colabora também com a Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento. Doutorado em Film Studies pela University College London, André “tem-se interessado sobre o comércio do cinema e do audiovisual, cinema português, teoria dos cineastas e cultura em geral.”.

André Rui Graça falou-nos sobre o seu livro, do seu percurso académico e da importância da divulgação e promoção do cinema português no mercado internacional.

CCA: O teu percurso Académico, entre a Universidade de Coimbra e a Universidade de Londres, foi sempre sobre o estudo do próprio cinema. Quais foram as principais diferenças que sentiste entre o estudo do cinema entre Portugal e Inglaterra? 

ARG: São muitas, por um lado. E muito poucas, por outro. O sistema anglo-saxónico tem particularidades que o distinguem do ensino português, que ainda é muito influenciado por uma matriz francesa. Em primeiro lugar, toda a estrutura de pensamento repousa sobre um pensamento indutivo, enquanto que o ensino nos países latinos privilegia uma explicação dedutiva dos fenómenos. Depois, há a questão do uso da língua. Nós tendemos muito a compor frases com imensas orações (sintaxe cumulativa), enquanto que os ingleses são menos rendilhados no discurso e manobram a língua de forma mais cirúrgica e assertiva. No meio disto tudo é importante também não esquecer que há um encorajamento muito grande à liberdade de pensamento (que tem vindo a estreitar nos últimos anos, fruto do politicamente correto), enquanto que em Portugal ainda há vestígios de 40 anos de obscurantismo. No meu caso particular, tenho a certeza que teria encontrado barreiras a esta investigação em Portugal pelo simples facto de que, há pouco distanciamento. Quase toda a gente que na altura me poderia orientar a tese estava envolvida no meio cinematográfico. Por fim, as próprias aulas são muito diferentes. Aqui ainda temos o sistema em que existe um ensino muito verticalizado, no qual os/as docentes expõem matérias. No Reino Unido também existe essa componente, mas os alunos são muito mais responsáveis pela sua aprendizagem, o que torna cada aula numa espécie de sessão de debate, em que os pressupostos já foram anteriormente assimilados e precisam apenas de ser processados ou esclarecidos. Em contrapartida, é importante que se diga que, ao nível do capital académico e intelectual, não noto muita diferença. Tive a sorte de ter encontrado um meio intelectualmente estimulante tanto em Coimbra como em Londres, onde contactei com professores brilhantes e com colegas que eram pessoas interessadas e interessantes. O que acontece é que o impacto de um artigo em inglês é muito maior do que de um escrito em português. Isso pesa muito nos rankings e faz com que a diferença entre as universidades de diferentes países seja maior do que eventualmente possa realmente ser.

Achas que o ensino de cinema em Portugal valoriza o cinema português? Ou seja, achas que as unidades curriculares que existem são suficientes para dar a conhecer aprofundadamente o cinema português?

Depende do que estamos a falar quando falamos de cinema português. No geral, penso que ainda há margem para tornar o cinema português mais presente nos planos de estudos de vários cursos de artes, multimédia, cinema, etc… Sei que em Coimbra existe uma disciplina de Cinema Português (que, na minha altura, era opcional) e na UBI há Cinema Português na licenciatura em Cinema. Também existem módulos ou unidades curriculares de cinema português noutras instituições de ensino. Contudo, para mim, essa não é a grande questão. É claro que é muito importante expor estudantes às obras nacionais. Porém, é igualmente importante explicar-lhes que a história estética não pode ser desligada da história material, cultural, legal e económica.

Quando estudaste em Londres sentiste que os ingleses desconheciam a história do cinema português ou pelo contrário, tinham conhecimento do nosso cinema e dos nossos cineastas?

Pode haver nichos cinéfilos onde o interesse pelo cinema português se manifesta de forma muito evidente e efusiva. Contudo, pela minha experiência, a maioria das pessoas (mesmo com qualificações e interesses culturais diversificados) não faz a mínima ideia do que é o cinema português nem se lembra da última vez que viu um filme português. Mesmo numa cidade tão diversa e cosmopolita como Londres. Na minha universidade não havia unidade curricular específica de cinema português (não fiz propriamente um levantamento sobre isso, mas agora que penso, nunca soube de unidades curriculares de cinema português no Reino Unido, ao contrário de outras zonas geográficas – por exemplo, sei de várias universidades com módulos sobre cinema francês, alemão, escandinavo ou latino-americano). A cultura portuguesa, no geral, é muito desconhecida e desconsiderada. Digo isto baseado em conhecimento empírico, mas também objetivo. Nós, internamente, temos muitos problemas em admitir a ausência da cultura portuguesa do panorama internacional, mas a verdade é que ela existe. O António Pinho Vargas explica bastante bem essa situação no caso da música, por exemplo. Não nos esqueçamos que, historicamente, fomos o único povo europeu que subalternizou, ao mesmo tempo que era considerado subalterno por outras culturas. Como dizia o (muito) saudoso Eduardo Lourenço, Portugal nunca aceitou pacificamente o seu papel de “ilustre figurante” da história mundial.

Publicaste agora o teu primeiro livro “Portuguese Cinema (1960-2010): consumption, circulation and commerce”. Porquê é que o escreveste em inglês e sentes que há um maior interesse sobre o cinema português por parte dos países europeus e dos EUA?

Sim, finalmente saiu esta obra, em inglês, que cobre uma grande parte da história do cinema português e da cultura visual dos portugueses. Já há outras publicações sobre cinema português em inglês, mas ou são monotemáticas (p.e. falam sobre um cineasta em específico, o que depois serve de pretexto para falar sobre alguns outros aspectos do cinema português) ou então são obras que reúnem vários textos. O meu livro tem a vantagem de ser um estudo concebido do princípio ao fim como uma monografia e resulta de vários anos de pesquisa continuada. Este livro é, acima de tudo, um trabalho de divulgação científica. Está escrito de forma a que possa ser entendido tanto por um académico, como por alguém que simplesmente tenha curiosidade. Há falta de livros sobre cinema português em inglês. Se não os houver de todo, nunca poderemos efetivamente ajudar à divulgação do cinema português. Estas iniciativas, de forma não intencional, acabam por “flanquear” a entrada de cinema português noutros mercados. Remover da equação a barreira linguística é um caminho que se faz para ir ao encontro de um público mais vasto, sim. Por outro lado, tenho divulgado alguns dos resultados em português, noutros contextos e publicações. Sei, também, que o inglês é mais acessível aos portugueses do que o português é aos britânicos ou aos americanos.

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Fotografia de José Cruzio, durante o Shortcutz Viseu, no Carmo 81.

O cinema português tem sido, digamos assim, um “pobre feliz” da cultura. Ou seja, pobre no sentido de ser precário nos apoios, orçamentos e na valorização por parte dos portugueses, mas muito feliz no reconhecimento internacional. O cinema português nunca foi tão premiado como nas últimas duas décadas. Faço-te a mesma questão que colocaste no teu estudo: “Porque é que a vibrante e criativa indústria do cinema em Portugal não tem tido mais sucesso comercial?” Achas que Portugal tem uma indústria de cinema? E achas necessário para uma maior projecção internacional da nossa cinematografia, ou não é isso que fará a diferença?

Bom, isso são várias questões que interligam. Vou tentar ser prático. Não temos uma indústria, propriamente. Falar em “indústria cinematográfica portuguesa” não é inteiramente errado, mas é uma imprecisão. Temos um meio cinematográfico, isso sim. O grande desafio é que, independentemente da dimensão desse meio, há a necessidade de o tornar mais produtivo, mais sustentável do ponto de vista económico, menos dependente da lotaria dos financiamentos e menos precário. É importante criar uma estrutura (e aqui não responsabilizo o Estado para fazê-lo) que permita mais emprego e emprego de melhor qualidade para quem trabalha no meio. É também preciso apostar na reabilitação da “marca” cinema português diante das audiências e nas estratégias de circulação dos filmes. A circulação é historicamente um dos maiores problemas. Em muitos casos, o filme é financiado ao nível da produção, mas quando chega à altura de se confrontar com o mercado, encontra vários obstáculos. Há várias estratégias para conseguir melhorar a situação nas várias etapas da cadeia de valor, mas têm sido implementadas a conta-gotas, pois ainda há uma grande resistência à utilização de princípios de gestão e marketing no contexto do cinema. A ideia de que o cinema português é um cinema “resistente” ou “artesanal”, para além de ser verdade, faz parte da auto-mitologia desta prática artística. É um pouco como a “arte povera” italiana e tem sido uma self-fulfilling prophecy. Pode ser um discurso que ajude a diferenciar o cinema português dos outros (fazendo com que se espalhem lendas da aldeia dos irredutíveis gauleses). Porém, se não funcionar enquanto discurso que consiga promover de forma efetiva o cinema português, pode causar mais dano à sua circunstância material do que benefícios. Muitos cineastas e produtores têm seguido um caminho que pode dar frutos, mas que é muito arriscado. Há várias vias para fazer com que o cinema português, nas suas várias vertentes, se desenvolva e prospere. É preciso encontrar esse caminho – às vezes com ideias fora da caixa. Pessoalmente, nesta fase, mais do que os filmes propriamente, preocupo-me com as pessoas que trabalham no meio. Muitas fazem cinema com enorme paixão e entrega e merecem melhor.

A questão do prestígio artístico é antiga. Mais uma vez, é preciso ver tudo em perspetiva. Há um centro, do qual emana um poder de validação (refiro-me aos principais festivais, europeus, ou aos outros festivais espalhados por todo o mundo que seguem linhas semelhantes – ou seja, que estão “europeizados”). É esse centro e os critérios que escolhe que decidem os pesos das cinematografias no contexto do circuito internacional do cinema. É um engano olhar para os festivais como simples celebrações da arte cinematográfica. No festivais estão em causa questões muito mais vastas, que pouco ou nada têm que ver com estética cinematográfica, de natureza geopolítica e ideológica (e, também, ao nível das redes de conhecimentos, das tendências dos mercados, etc…). Tal como os Nobel ou outros prémios, há uma componente de statement político muito grande nos festivais. Tudo isso entra em linha de conta na hora de atribuir um prémio a A ou a B. Há quem separe as obras do seu contexto mais vasto, há quem tenha dificuldade em fazê-lo, e depois há mesmo quem conscientemente insista em politizar tudo. Houve cinematografias muito galardoadas e com grande exposição que hoje já não têm um impacto tão forte. Houve outras que durante essa janela de oportunidade conquistaram um espaço de culto tão grande que não mais saíram de cena, por assim dizer. Funciona por ciclos. Quando caiu a URSS, os países do antigo bloco soviético foram muito celebrados. O mesmo aconteceu a dado momento com os filmes do sudeste asiático. O cinema português teve um destino um pouco diferente. A nossa história, depois do 25 de abril, foi sempre tépida. Até ao abanão provocado pela crise das dívidas soberanas e à intervenção da troika, não havia razões políticas de força maior para dar protagonismo a Portugal ou aos portugueses. E aqui está a chave da questão: o cinema português não é inteiramente responsável pelo protagonismo que lhe dão, ou deixam de dar. Como cinema periférico que é, o cinema português está dependente das boas graças que o centro lhe resolva atribuir.

Concordas com a seguinte afirmação “um dos grandes problemas do cinema português é a falta de divulgação”? 

Sem dúvida. Exposição e boa publicidade é tudo. Vivemos numa época em que é possível vender frigoríficos a esquimós. Diria até mais: um dos grandes problemas do cinema português é a falta de boa divulgação. Para isso é preciso haver trabalho não só cá, como também nos países para onde se pretenda exportar cinema português.

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O teu estudo sobre o cinema português foca-se entre os anos 1960 até 2010. Porque não de 1955 a 2012, que foram os dois “anos zero” em termos de produção do cinema português?

Tecnicamente, a ideia de que 1955 foi um ano zero é uma imprecisão. Efetivamente não se rodou nenhuma longa metragem, mas foram produzidas várias curtas importantes. O Paulo Cunha já desmontou bem essa ideia. Quanto a 2012, é verdade que foi um ano também complicado. Contudo, precisava de balizas temporais bem definidas. Apesar de haver estas marcações dou umas achegas no cinema antes de 1960 e em algum que foi feito depois de 2010.

Uma notícia do Jornal de Notícias, de fevereiro de 2021, sob o título “Livros de cinema em alta no mercado”, dava conta de um grande aumento na dinâmica do livro de cinema em Portugal. Este aumento é surpreendente dado que este nunca foi um segmento muito ativo por parte das editores nacionais. No entanto, é verdade que nos últimos anos temos assistido a um crescente número de publicações sobre cinema escritas em português. Será que tudo isto se deve em parte ao aumento do número de estudantes de cinema em Portugal? Os portugueses estão mais interessados em ler e estudar sobre cinema?

É intrigante, de facto. Sim, concedo que possa ter havido uma série de fatores a contribuir para um lançamento concomitante de várias obras sobre cinema português. Não posso, no entanto, prever se esse fenómeno será o começo de algo continuado ou um momento específico. O mercado literário auto-regula-se, e veremos. Acredito que, com o aumento de mais estudantes a nível pós-graduado e com académicos a necessitar de colocar o seu output cá fora, o sistema tenha momentos de maior fluxo. Por outro lado, a pandemia fez com que quem tivesse livros pendentes os pudesse terminar, e quem esteja a investigar tenha mais tempo para ler sobre cinema português. No geral, creio que as pessoas se interessam por cinema. É consensual; praticamente toda a gente vê e gosta de ver (independentemente da preferência). É bem mais consensual do que a literatura, a ópera ou o teatro, por exemplo. Creio que há nichos (para além dos espectadores profissionais e dos académicos) que se interessam por cinema ao ponto de ir ler sobre as obras, os autores, as cinematografias, etc… Por outro lado, o cinema toca em várias questões ou pode ser usado como pretexto para se falar de outros temas das humanidades ou das ciências sociais. É por abranger um espectro tão grande que penso que há mais publicações e mais pessoas interessadas em completar as suas leituras com publicações onde figura o cinema.

És professor auxiliar convidado da Universidade da Beira Interior. Sentes que os teus alunos têm interesse em estudar o cinema português e em ver filmes portugueses?

Quero acreditar que sim. E espero, acima de tudo, que partam para o visionamento do cinema português, em toda a sua diversidade, de espírito aberto. Por outras palavras, sem idolatria, ou quaisquer preconceitos ideológicos ou estéticos.

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