“Annette” – O Espetáculo Tem que Continuar

O coro com que se inicia este “Annette” de Léos Carax depressa informa acerca das suas duas qualidades muito próprias: o entrecruzamento de géneros e a quebras de expectativas no modo de narrar. Léos Carax, sentado à mesa de mistura e na sala de controlo – misto de realizador cinematográfico e produtor musical, afinal as suas duas funções mais claras no filme – ordena o começo do filme.

A música começa. Logo ali, não questionaria a ninguém que o filme fosse sobre música, o ato de fazer música. Ou não fosse o estúdio musical e músicos nesse mesmo ato de performance a serem o espaço e as personagens a serem filmadas. Mas depressa os músicos se levantam e saem do estúdio – com o produtor atrás – e seguem para a rua. A música cantada é já diegética, a sincronia das vozes é som direto, o instrumental é fundo e banda sonora do filme. A câmara segue, avança à frente, enquadra de lado, rodeia a parada musical, num contínuo plano sequência, linha visual não quebrada e assento da linha musical. A esse coro juntam-se Adam Driver, Marion Cotillard e Simon Helberg, tomando a dianteira. Ainda não as personagens que virão a ser, mas os atores do filme, em representação da própria aura, nos também auráticos passeios de Hollywood, terra de magias e sonhos, imagens e músicas, que se veem assim tomados por um cinema que se diz a si mesmo para ser começado – a cantar – na espessura acimentada e iluminada da capital do entretenimento, e onde o experimentalismo do género cinematográfico e a torção dos modos ficcionais de Carax desembocam, numa ousada travessia, por entre os edifícios – também eles luzes sobre cimento – da sua parafernália simbólica: os estúdios de cinema, música e televisão, os teatros e as salas de espetáculo. Ali vai esse grupo, em coro, não sem flutuações na afinação, a clamar que vão começar a fazer um filme.

O filme começa quando os seus dois atores principais, em andamento, tomam as suas personagens: Driver passa a ser Henry McHenry e segue na sua mota; Cotillard passa a ser Anne Desfrasnoux e entra na limusina que a há de levar ao seu espetáculo de ópera. Ambos são artistas. Este filme, já começado, é sobre os artistas no ato de serem os artistas em ato e problemática de serem criadores. Logo, fá-lo um filme sobre a Arte e a prossecução do ato artístico, até ao limite da indiferenciação entre a pessoa e o artista: o artista como fazedor, o artista como verdade e mentira de si mesmo.

Na glamorosa mescla que perfaz uma unidade-imagem feita de imagens bem opostas, Ann e Hebry são modos artísticos contemporâneos: a Alta Arte e a Arte Média (que aqui não se chame esta segunda de Baixa Arte), as quais correspondem, respetivamente, a outras duas categorias de produção, distribuição e consumo comercial, a Alta Cultura e a Cultura Média.

Ela é sentimento, emoção e souplesse. Ele é injúria, escárnio e brutalidade. A sala dela é a grande ópera, o seu palco é o do efeito, do fumo, das luzes centradas, da singularidade da figura que carrega as mais extremadas emoções e sentimentos do humano. Ele é um espetáculo ambulante, vociferante e desbocado, desrespeitador do público, um pantomimo obsceno e tragicómico, sempre com o propósito de fazer rir, pela ignomínia da sua própria atuação. Ambos vendem bilhetes, ambos constroem públicos, ambos são a arte performativa de serem artistas performativos.

Imagem de palco para imagem de televisão: o casal perfeito para ser uma imagética comercializada dos programas de celebridades, que tem uma casa luxuosa numa propriedade isolada, feito de beijos doces quando ele a vai buscar de mota. Logo ela com ele vai, de capacete na cabeça e com o ramo de flores na mão. Flashes e correrias de repórteres de imagem, o espetáculo do espetáculo. O filme é cantado daí em frente, a entrega de diálogos é cantada, musicada, choque na narração, forma estendida de torção da palavra, este filme é mesmo um musical, aqui e acolá cortado com esse programa de televisão dos célebres, uma outra mistura de géneros, um outro modo narrativo incomum.

Cantada ou parcamente dita, a relação entre os dois é uma tão de amor como de ódio não dito (cantado). Os corpos que se amam e se tocam, que suam e se penetram não escondem as imagens superlativas de cada um:  ele quer ser tão respeitado – como artista – quanto ela. Nem mesmo o gerar de uma filha – a criação maior, em princípio, mas não nesta relação cada vez mais tóxica – deixa de fazer crescer o rancor na alma de Henry. Ele não quer ser arte média, quer ser arte alta. O corpo estranho que é a filha de ambos, a Annette feita de madeira, articulada, difícil de se olhar, inumana mesmo na sua ficção, é a frieza inócua das criações que se anulam e não procriam uma soma maior.

Desvalido e diminuído, Henry perde a sua imagem, o seu sucesso. E se a Arte não mata, pode por ela fazer morrer. Enquanto agente da sua própria falha, Henry mata Ann (um afogamento acidental para o programa de televisão). Mas mesmo ela não morre neste filme de cruzamentos – o Fantástico passa a assombrar o Musical – ela regressa, mais negramente bela, aparição e fantasma, lívida e misturada com as algas do mar onde se afogou.

A Alta Arte, como fantasmática, a Arte Média como o espetáculo contínuo: Henry faz de Annette uma comodidade imagética. Ela, que canta com a voz de Anne, é feita cantar pelo mundo, luzes e sons demasiados que a exaustam, ela que pequena imagem é. É ela que mata, por fim, a imagem do pai: é ela quem o nomeia como o assassino da mãe. Na cena final, Annette (Devyn McDowell) é já um corpo real. No último cantar, sôfrego e intenso, ela rejeita o pai (terá sido ele mesmo o seu pai, nunca se sabe realmente). Ele deixa de ser uma imagem. Também ele passa a ser um fantasma musicado de uma imagem que já tinha deixado, há muito, de cantar, para só rouquejar.

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