Arantza Santesteban

Arantza Santesteban: “este filme é uma tentativa de encontrar sentido para tudo o que vivi”

O Cinema Sétima Arte conversou com a realizadora basca Arantza Santesteban a propósito do seu filme “918 Noites”, que será exibido de 17 a 23 de Fevereiro, em Lisboa, no âmbito da abertura da mostra 6.doc – o Doclisboa no Cinema Ideal.

Em sua primeira longa-metragem, que venceu o Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Filme da Competição Internacional do 19º Doclisboa, a realizadora reflete sobre o tempo que passou encarcerada entre 2007 e 2009.

Nascida em Pamplona (capital da província de Navarra), em 1979, Arantza Santesteban foi detida por integrar um grupo de esquerda pró-independência no País Basco – declarado ilegal após a Lei dos Partidos sancionada em 2002. Então com 28 anos, ela foi acusada de terrorismo pelo juiz Baltasar Garzón e enviada à prisão. Quando Santesteban sai em liberdade, as pessoas pedem-lhe discursos que ela não quer mais dar, não a cobram em restaurantes, mas ela recusa o lugar de heroína que querem lhe atribuir.

“918 Noites” é uma corajosa e generosa partilha de memórias pessoais que não se limitam apenas ao período em que Arantza Santesteban viveu presa por motivos políticos. “O filme tenta lidar com as contradições de estar presa, com a dureza do regime prisional, mas também conta a história da saída da prisão e a tentativa de encontrar um sentido para tudo o que vivi”, afirma a realizadora.

 

Por vários anos após sua libertação, você não quis falar sobre o que viveu na prisão. Quando foi que você decidiu que queria trazer sua experiência – agora de quase 15 anos atrás – para o cinema?

A ideia de fazer um filme sobre esta experiência na minha vida surgiu com força quando, passados ​​alguns anos, visitei a casa dos meus pais e abri a caixa que continha todo o arquivo de cartas e fotografias que guardei do meu tempo na prisão. Já tinham se passado 6 anos desde que saí da prisão e, até então, não queria confrontar aquele arquivo. Mas quando o abri, essas cartas e fotografias apareceram diante de mim, contendo muitos detalhes que falavam desse tempo na prisão. Aquelas frases, aqueles desenhos, todos os afetos contidos naqueles documentos… Percebi que eles foram muito importantes para me sustentar naquele período, porém, eu mudei e percebi que eu os estava vendo de uma grande distância.

O período que o filme narra não se limita a contar os 918 dias que estive presa, mas tive que estender mais esse tempo, para contar aquele processo de mudança e aquele tipo de estranhamento que senti em relação àquele arquivo. O filme tenta lidar com as contradições de estar presa, com a dureza do regime prisional, mas também conta a história da saída da prisão e a tentativa de encontrar um sentido para tudo o que vivi.

Você fala sobre ser uma presa política sem cair em estereótipos. Como surgiu a ideia de ditar suas memórias para um gravador de voz e misturá-las com esses documentos, fotografias, e cenas de devaneio?

Temos uma concepção muito mitificada das histórias desse tipo. Parece que o preso por motivos políticos é um sujeito ideologicamente sem fissuras, sem contradições, e minha ideia foi contar minha formação política, em que mostro que a dúvida ou a desmistificação também podem fazer parte do processo dos sujeitos politizados. No meu caso, não foi a prisão, como uma instituição penal e punitiva, que de repente fez com que muitos dos significados políticos que dei à luta se transformassem em uma perspectiva mais humana. Foi um processo de amadurecimento político, uma relação com a política dentro de um regime de confinamento, os afetos que isso mobilizou em mim…

Percebi que as narrativas militantes estabelecidas haviam construído parte da minha identidade política e eram demasiado pequenas para mim. Faltava complexidade nessa visão do militante político, faltavam muitas coisas e essas revelações que surgiam em mim precisavam de formas mais adequadas para explicar minha própria subjetividade política.

O arquivo de cartas e fotografias contava uma parte da minha experiência ligada a essa ideia do militante inquebrável; no entanto, para mostrar outras dimensões da minha própria experiência e do processo de busca da minha identidade política, tive que filmar cenas da minha realidade atual. Naquele momento, decidi que o filme não teria uma narrativa linear e seria uma estrutura fragmentada construída com fragmentos que mostrariam melhor minhas próprias contradições e dúvidas.

Você disse que ler as cartas de Rosa Luxemburgo na prisão a ajudou neste período, e há uma cena de sexo em “918 Noites” que lembra muito uma cena do filme “Je, tu, il, elle”, primeira longa da Chantal Akerman. Quais artistas e/ou ativistas mulheres são inspirações?

Ler Rosa Luxemburgo foi uma grande revelação para mim. Suas cartas escritas na prisão são maravilhosos e autênticos tratados de botânica. Mas, acima de tudo, ela fala de seu compromisso político a partir de uma posição autónoma que para mim é muito necessária. Ela diz que o seu coração pertence mais às andorinhas do que aos seus camaradas, e penso que explica muito bem que o compromisso político pode ser muito forte mas que é necessário manter uma certa autonomia de pensamento.

Como você disse, aquela cena da Chantal Akerman foi uma inspiração para mim. Gosto muito da longa duração da cena, dessa forma de abordar o sexual entre dois corpos que lutam entre si e se encontram depois… Acho inspirador o cinema de mulheres que quebram a forma convencional de representação. Para mim, o cinema é sobretudo a procura de quebrar estereótipos, e embora eu ache muito complicado, é a visão do cinema que mais me interessa.

Onde você está a morar atualmente e em qual projeto está a trabalhar?

No momento moro em San Sebastian, uma cidade costeira do País Basco. Estou a terminar o doutoramento em estudos cinematográficos na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Além disso, sou editora de uma revista sobre arte e pensamento contemporâneo e coordeno um grupo aberto de pensamento crítico em um centro artístico em San Sebastian. Em relação ao cinema, estou a pensar no próximo projeto, mas primeiro tenho que terminar o doutoramento que exige quase todo o meu tempo no momento.

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