O Writers Guild of America chegou a um acordo provisório com os grandes estúdios de Hollywood, representados pela Alliance of Motion Picture and Television Producers, após cerca de três semanas de negociações. O entendimento foi anunciado no sábado, dia 4, através das redes sociais das duas entidades.
O novo contrato terá a duração de quatro anos, ultrapassando o modelo habitual de três, e surge como uma tentativa de garantir maior estabilidade num sector ainda marcado pelas tensões recentes. Apesar do avanço, o acordo precisa ainda de ser aprovado pela direcção e pelos membros do sindicato antes de entrar em vigor.
Segundo o sindicato, o entendimento assegura a protecção do plano de saúde dos roteiristas, que vinha enfrentando dificuldades financeiras, e inclui um investimento de vários milhões de dólares para garantir a sua sustentabilidade. O acordo baseia-se também nas conquistas alcançadas em 2023 e procura responder a desafios persistentes, como o chamado trabalho não remunerado.
Outro ponto central diz respeito à limitação do uso de inteligência artificial na criação de guiões. O objectivo é garantir que a escrita continue a depender do trabalho humano, num momento em que as novas tecnologias começam a alterar profundamente os processos de produção audiovisual.
No plano económico, o contrato deverá incluir aumentos de remuneração, com especial incidência nos conteúdos destinados ao streaming, bem como melhorias nos pagamentos residuais, atribuídos sempre que uma obra continua a ser exibida. Estas medidas procuram adaptar o modelo de compensação a um mercado cada vez mais dominado pelas plataformas digitais.
Do lado empresarial, participam nas negociações grandes estúdios e serviços de streaming como Netflix, Amazon e Disney, reunidos sob a aliança de produtores. Em comunicado, a organização afirmou estar empenhada em promover acordos que assegurem a estabilidade do sector a longo prazo.
O acordo surge após o impacto das greves de 2023, quando roteiristas e actores paralisaram a indústria durante vários meses, numa das mais longas crises de Hollywood. Na altura, as reivindicações centravam-se precisamente nas mudanças provocadas pelo streaming e no avanço da inteligência artificial.
Desta vez, as negociações avançaram de forma mais rápida, reduzindo o risco de uma nova paralisação. Ainda assim, os termos completos do acordo não foram divulgados e só deverão ser conhecidos após a ratificação formal.
O contexto permanece complexo. O sindicato enfrenta actualmente uma greve interna de trabalhadores de outros departamentos, iniciada em Fevereiro, e continuam em curso negociações com actores e realizadores, cujos contratos deverão expirar nos próximos meses.
O desfecho deste processo poderá ser decisivo para definir o futuro das relações laborais em Hollywood, num momento em que a indústria procura equilibrar inovação tecnológica com a preservação de direitos e rendimentos.
Como terminou a greve de 2023?
A greve dos argumentistas de Hollywood terminou na madrugada de 27 de Setembro de 2023, após 148 dias de paralisação. O desfecho ocorreu com a aprovação de um acordo entre o sindicato e os estúdios, posteriormente apresentado aos mais de 11 mil membros, que previa aumentos salariais, melhoria dos pagamentos residuais e medidas de protecção face ao uso de inteligência artificial.
Entre as principais conquistas destacou-se a criação de um sistema de bónus baseado na audiência das produções em plataformas de streaming. Até então, os argumentistas recebiam pagamentos antecipados e residuais fixos, sem relação directa com o sucesso das obras. O novo modelo passou a contemplar essa variável, procurando tornar a remuneração mais ajustada ao desempenho dos conteúdos.
O acordo introduziu também maior transparência no acesso aos dados de audiência. As plataformas passaram a partilhar métricas confidenciais relativas a conteúdos originais, calculadas com base nas horas de visualização. Dados agregados podem igualmente ser divulgados, permitindo uma leitura mais ampla do impacto das produções.
Outro ponto relevante foi a definição de equipas mínimas nas salas de argumentistas para televisão, em função da duração das temporadas. Séries com até seis episódios devem contar com pelo menos três argumentistas, enquanto produções com 13 ou mais episódios exigem um mínimo de seis profissionais, podendo incluir argumentistas-produtores.
Esta medida respondeu a uma das principais preocupações da classe. Com o crescimento do streaming, as temporadas tornaram-se mais curtas e as equipas mais reduzidas, limitando oportunidades de trabalho e dificultando a progressão profissional. A expansão das chamadas minissalas, utilizadas na fase de desenvolvimento antes da produção, agravou esse cenário, sobretudo para quem está em início de carreira.
O acordo passou ainda a regular o uso de inteligência artificial. As produtoras ficam obrigadas a informar os argumentistas sempre que os materiais fornecidos incluam conteúdos gerados por IA. A questão tornou-se central num sector onde a adopção destas tecnologias levanta receios quanto à substituição de trabalho humano.
Por fim, o contrato estabeleceu aumentos salariais ao longo de três anos, com uma subida de 5% no primeiro ano, 4% no segundo e 3,5% no terceiro. Alguns valores mínimos e residuais sofreram ajustes específicos.

