As Escolhas de Sofia

“Mas quem é a Sofia? E porquê é que interessa o que ela escolhe? A Sofia é uma amante da sétima arte, com formação em psicologia, que nos trará semanalmente uma análise idiossincrática de um filme da sua preferência. Opinião sincera e repleta de curiosidades, acerca de filmes, muitas vezes ignorados pelas luzes da ribalta, mas que de alguma forma merecem protagonismo, pelo interesse do ponto de vista psicológico, da análise do comportamento e da personalidade, e dos benefícios de os visionar. Esperamos que não fique indiferente a esta nova rubrica, e que torne as escolhas da Sofia suas escolhas também!”

Favores em Cadeia (2000) – Boas Ações Num Mundo Cruel

Imaginem fazerem um favor a alguém e pedirem que em vez de vos retribuir a vós o façam a três outras pessoas e assim sucessivamente. Ainda no rescaldo da comemoração do dia mundial da criança, que assinala a data em que foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança e a Convenção sobre os Direitos da Criança que reconhecem os direitos das crianças e jovens e lhes conferem uma proteção e cuidados especiais, esta semana escolhi “Favores em Cadeia” (Pay It Forward) o filme protagonizado por uma criança brilhante que lança este movimento de benevolência.

O filme realizado por Mimi Leder, baseado no livro de Catherine Ryan Hyde, com argumento de Leslie Dixon, tem como estrela principal Haley Joel Osment, o eterno menino de “O Sexto Sentido” e “A.I. Inteligência Artificial”, no papel de Trevor McKinney, um jovem de 11 anos que vive com a sua mãe Arlene (Helen Hunt). Trevor é um menino marcado pelo problema de alcoolismo da mãe e pela ausência do pai -Ricky (Jon Bon Jovi) – mas desenrascado, inteligente e sensível.

Quando Eugene Simonet (Kevin Spacey), o seu novo professor de estudos sociais, desafia os alunos a criarem algo que possa mudar o mundo, Trevor constrói a teoria de que os favores não devem ser retribuídos ou “pagos de volta” (payback), mas sim “em frente”, (pay forward) fazendo boas ações e favores a três novas pessoas, criando uma cadeia de generosidade. Ao por a ideia em prática a sua atitude vai ter impacto não apenas na sua vida mas também na da sua mãe, do seu professor e de muitas outras pessoas em seu redor (e não só).

Na verdade a sua teoria seria perfeita num mundo também ele perfeito. No entanto, ao longo do filme Trevor é várias vezes confrontado com a dura realidade das injustiças e com as dificuldades de tentar controlar e mudar o mudar o mundo, tendo que lidar com a frustração quando os acontecimentos não se desenrolam como gostaria, o que naturalmente se torna difícil, principalmente porque não deixa de ser uma criança.

Este filme não é imaculado. É um filme essencialmente dramático, com uma grande carga emocional e que recebeu uma mistura de críticas, sendo geralmente aclamado pelo desempenho dos atores, mas crucificado pelo seu final.

No entanto, creio que a sua mensagem é inspiradora e merece a atenção de quem utiliza o cinema não só para entretenimento, mas para pensar sobre si e o mundo.

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