As Escolhas de Sofia

Iris (2001) – Pior que Perder os Outros, é Perdermo-nos a Nós Próprios

Jean Iris Murdoch (1919-1999) foi uma escritora e filósofa irlandesa. Escreveu 28 romances em 40 anos, e foi integrada pelo jornal The Times na lista dos “50 maiores escritores britânicos desde 1945”. Este filme realizado por Richard Eyre é uma homenagem à escritora, retratando a sua vida, em especial os últimos momentos em que lidava com a doença de Alzheimer.

A doença de Alzheimer é caracterizada pela deterioração progressiva das capacidades cognitivas, como a atenção, o pensamento, a linguagem e especialmente a memória. No entanto, surgem também alterações na esfera emocional e afetiva. O paciente necessita de constante apoio e ajuda por parte de um ou mais cuidadores, papel adotado habitualmente por familiares, que carecem também eles de auxílio e informação.

Esta doença está frequentemente associada a sintomas depressivos, quer nos pacientes, quer nos seus cuidadores. É uma doença cuja causa esta ainda sob investigação, sem que se saiba como preveni-la. Apesar dos primeiros sintomas apontarem para a perda da memória, esta doença tem como consequência a alteração do comportamento, da personalidade e da capacidade funcional do sujeito, dificultando a vida quotidiana da pessoa e dos que a rodeiam.

“Iris” é um retrato perfeito dos sintomas e do caos que esta condição traz para a vida da pessoa e da sua família. Kate Winslet interpreta Iris no apogeu das suas capacidades intelectuais, enquanto Judi Dench tem a difícil tarefa de representar a deterioração cognitiva da conceituada escritora.

O filme que retrata os primeiros e últimos momentos da relação amorosa entre Iris e John Bayley (Hugh Bonneville e Jim Broadbent) centra-se no contraste entre a imagem da jovem dinâmica e brilhante, com o reflexo da fragilidade causada pela doença. Deixa de lado os anos de maior produtividade criativa da autora, razão pela qual muitos dos apaixonados pela sua obra se sentem traídos pelo filme. Contudo, ganha um enorme potencial na demonstração da evolução negativa da demência, exacerbando visualmente as mudanças sentidas, através do lapso temporal.

Não obstante, o filme mostra a luta de John, o companheiro de uma vida, para abrandar a perda da mulher como a conhecia, servindo-se de leituras e incentivando-a a escrever, o que se verificam esforços em vão. John cuida da sua amada por vários estádios da doença, enfrentando a destruição que se apodera da sua vida familiar e pessoal, até ao desfecho da pelicula.  

Este é um filme triste, com um final duro e sem subtilezas, que atinge a dimensão profunda e universal da vulnerabilidade. É um filme triste, mas real e indispensável.

"Iris" (2001)_1