As Escolhas de Sofia

“Soldier’s Girl” (2003) – O Poder da Crueldade

No passado dia 22 de Janeiro foi votada e chumbada, pela quarta vez, a adoção plena de crianças por casais do mesmo sexo. Portugal continua então a proclamar ideias de um país em crise de valores.

Discutir este e outros pontos de vista é importante, no entanto, muitas vezes a velha máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras”, tem ainda mais impacto, pelo que esta semana escolhi falar-vos de um filme que mostra o poder das ideias retrogradas, da crueldade e da falta de respeito pelos outros e pela sua genuinidade.

Soldier’s Girl é um filme pouco comercial que não chegou a Portugal, realizado por Frank Pierson, com argumento da autoria de Ron Nyswaner, que prova que não só os blockbusters e os orçamentos milionários são capazes de contar histórias que ficam no pensamento mesmo depois do filme terminar.

Baseado em factos reais, atual e terrivelmente cruel, este filme conta a história de Barry Winchell (Troy Garity), um soldado que em 1999 se alista na Divisão Aérea do Exército dos Estados Unidos. Numa noite, Winchell acompanha seu colega de quarto Justin Fisher (Shawn Hatosy), e outros soldados numa excursão noturna pelos bares de Nashville. Num dos bares, o jovem conhece Calpernia Addams (Lee Pace), por quem se apaixona.

Na vida de Winchell tudo corre de feição, até ser considerado “soldado do mês” pelo Sargento Diaz (Andre Braugher) e começar a ser alvo de boatos e palavras de ódio por parte do seu invejoso companheiro de quarto – Fisher – e do recém-chegado Calvin Glover (Philip Eddolls).

O namoro de Winchell e Calpernia torna-se uma afronta para os colegas soldados por ela ser transsexual, e estes começam por repudia-lo e maltratá-lo, culminando numa explosão de violência criminosa.

Esta é uma história que espelha o poder da ignorância, uma vez que na verdade Barry e Calpernia mantinham um relacionamento heterossexual, apesar de serem vítimas de ódio homofóbico. Calpernia apesar de ter nascido do sexo masculino, foi sempre do género feminino, e Barry apenas gostava de uma mulher diferente, como aliás todas são.

Calpernia é hoje em dia uma importante ativista dos direitos da comunidade LGBT, lutando por dar voz a tantas histórias de amor como a sua. Numa época em que exibimos cartazes de orgulho do progresso e da liberdade de expressão, é quando deixamos cair as mascaras que nos apercebemos que esta é uma história que, com mais de uma década de vida, se mantém atual, sendo a comunidade transsexual ainda alvo de preconceitos que os impedem de amar em voz alta como a outros lhes é “permitido”.

Continuemos então a aguardar o dia em que possamos todos e todas proclamar uma liberdade que existe e não aquela que é só para alguns.

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