25 de Abril

“As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” – Estarão os padrões em voga?

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Filme realizado por Rainer Werner Fassbinder com estreia em 1972, é reconhecida como uma das obras mais importantes do realizador alemão. Um artista multifacetado, de produção constante, em 16 anos completou mais de 40 projectos, na sua maioria melodramas sociais, como é este filme (participou ainda em 30 obras de outros realizadores, tal tamanho tinha a sua energia e vontade de criar). Fassbinder era um rebelde, abertamente homossexual (curiosamente, acusado por vários como chauvinista, anti-comunista e anti-homossexual, entre outros rótulos). Achei relevante esta diminuta nota biográfica referente à vida pessoal do cineasta alemão porque o estilo de Fassbinder é… diferente. É muito próprio. E isso é bom. Desde a primeira obra assinada por ele que vi, fiquei com a sensação de que precisava de saber algo mais – é como estar num grupo de amigos e ter uma inside joke. Quem estiver por fora nunca vai compreender o porquê das gargalhadas. Pessoalmente, alguma informação sobre a vida do homem por trás da câmara foi-me útil, de modo a chegar mais perto daquilo que Fassbinder pretendia transmitir.

Petra von Kant (Margit Carstensen) é uma estilista de moda renomeada que se apaixona por Karin (Hanna Schygulla), uma jovem de grande beleza. O resto do filme lida com as emoções, repercussões e situações que esta paixão traz consigo. Escrevi algures num outro texto que um grande filme pode ser explicado em uma, no máximo duas frases. A simplicidade com que se resume o enredo é inversamente proporcional à qualidade da obra. Tenho a consciência que não é sempre assim, mas regra geral sinto-me seduzido para ver e escrever sobre filmes que sigam este princípio.

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Marlene (Irm Hermann) é a assistente de Petra, e a primeira mantém uma relação de submissão perante a segunda. Apesar de ser uma das personagens principais, Marlene não tem qualquer fala nas duas horas e quatro minutos de película. É dito por Petra que a assistente está apaixonada pela protagonista. O constante tratamento ríspido, por vezes bruto, que existe, é injustificado. Sentimos pena e empatizamos com Marlene. Creio que von Kant se revê na sua assistente, especificamente na forma como age quando está apaixonada. E isso deixa-a enfurecida ao ponto de descarregar noutra pessoa aquilo que devia, em primeira instância, trabalhar em si mesma.

Todo o filme decorre no mesmo espaço, o apartamento de Petra. Fassbinder utiliza o cenário de modo a encurralar a estilista: a escolha do realizador em filmar tudo num só espaço (interior), pode ser interpretado como uma maneira de não deixar o espectador (e Petra) respirarem. A claustrofobia emocional que assola a protagonista é representada pela actriz, e ao mesmo tempo pelo cenário, que reforça essa ideia – um pouco ao estilo de Michelangelo Antonioni na sua Trilogia da Incomunicabilidade. O apartamento também é uma personagem.

O diálogo é a força motriz do filme. Não admira, pois inicialmente foi escrito como uma peça de teatro, e a própria divisão da obra é feita em actos. Contudo, fiquei surpreso por um motivo, relacionado com o meu gosto pessoal: a minha preferência pelas imagens que evocam sentimento, por gestos que mostram emoção, por pausas que revelam desejos… Em suma, que existam diálogos somente quando necessário (é o que a minha experiência ao escrever guiões de cinema diz). Não refuto a existência de tudo o que descrevi nestas Lágrimas Amargas, apenas digo que existe muito diálogo. E que não me senti aborrecido ou distraído por um minuto sequer. Além de Fassbinder, claro está, muito se deve às interpretações das actrizes, com natural destaque para Margit Carstensen, que dá vida à personagem cujo nome está no título. Não me arrisco a adjectivar esta performance, porque seriam poucas as palavras que lhe fariam justiça.

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No fundo, observamos uma história de padrões. Petra informa-nos sobre o seu passado, sendo Sidonie (Katrin Schaake), amiga e confidente da protagonista, o veículo para obtermos essa informação expositiva. Apesar do desgosto passado que ainda anuvia o presente, quando conhece Karin imediatamente vemos os olhos de von Kant a acenderem, uma chama (dita) extinta está viva e dá-lhe calor. Torna-se óbvio com o decorrer do filme que Petra é uma pessoa emocionalmente dependente, que não consegue estar (verdadeiramente) sozinha. Necessita de uma relação amorosa para lhe dar aquilo que o seu amor-próprio devia fazer. Quando tudo corre mal e Karin deixa de fazer parte da sua vida, tenta com Marlene iniciar um novo ciclo, de volta ao seu padrão. O final da peça de teatro consiste numa “libertação” do lugar de assistente para o de amante, com a repetição da fala inicial de Von Kant, aquando introduzida a Karin: “Fala-me sobre ti”; no filme, a mesma fala, mas com uma diferença – Marlene faz as malas para ir embora e a sua ama deita-se, pronta a dormir.

As lágrimas de Petra von Kant são amargas, como todas as lágrimas o são quando alguém que nos é querido e de quem gostamos deixa de fazer parte da nossa vida. Assim o são todas as lágrimas… numa fase inicial. Contudo, o erro da protagonista é ficar presa a essa amargura, e assim deixa passar a oportunidade de dar um sentido ao seu sofrimento, de tornar as lágrimas amargas em lágrimas doces e, de um dia, tornar essas lágrimas num sorriso.

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