Depois do “Volume 1, O Inquieto”, chega o “Volume 2, O Desolado”, um filme que faz jus ao nome, tal como o primeiro o fazia, pois este é o tomo mais triste do épico social de Miguel Gomes, a trilogia de “As Mil e uma Noites”.

“O Desolado” é o mais triste, o mais solitário e literalmente o mais desolado dos três volumes. Não oferece conforto e as suas personagens estão desamparadas. É um retrato fiel de um país que vive socialmente desesperado.

Continuando a mesma estrutura do primeiro volume, este reúne três contos que são narrados pela rainha Xerazade, que começam sempre da mesma forma: “escuta, ó venturoso rei, fui sabedora de que, num triste país entre os países…”.

O primeiro episódio conta a história de um assassino em fuga (Simão sem tripas, inspirado no famoso caso de Manuel ‘Palito’) que vagueia pelas terras do interior durante mais de quarenta dias para fugir à Guarda, sonhando com putas e orgias. Este é talvez o episódio mais duro e paciente de todos, onde existe mais silêncio e onde se sente mais o tempo. No final, Simão é aclamado pela população por ter conseguido enganado as autoridades, terminando a história num tom de comédia.

O segundo episódio, ‘As Lágrimas da Juíza’, é por ventura a obra-prima dos contos. A história de uma juíza aflita que chora em vez de ditar as sentenças, é uma queda de dominós, onde impera a miséria. A desgraça de uns é a desgraça de outros. Nesta história, Miguel Gomes reune, de uma forma quase teatral, uma série de problemas que afetam os portugueses. É uma magnifica descrição da sociedade, que percorre o país inteiro. A miséria é tanta que a juíza fica em lágrimas, sem saber o que fazer, sem saber quem julgar, pois todos cometeram crimes, todos são culpados. É das histórias mais tristes de “As Mil e uma Noites”.

O terceiro episódio é também dos mais comoventes e desoladores contos. ‘Os Donos de Dixie’ é a história de um cão e dos seus donos que retratam uma comunidade de bairro suburbano. É também um espelho da atual sociedade em que vivemos. Tal como no primeiro episódio, neste também impera a solidão e o desespero, que tenta ser negado com a companhia do cão Dixie. Naquele prédio as personagens vivem presas ao passado, aos mortos.

As três histórias deste volume são diferentes, abordadas com estilos variados, mas unem-se do princípio ao fim pelo lado desolador, desamparado e despovoado das suas personagens. O primeiro episódio descreve-se como a solidão, o segundo a desilusão e o terceiro a destruição.

Miguel Gomes faz um trabalho notável neste segundo volume. “O Desolado” foi o filme escolhido pela Academia Portuguesa das Artes e Ciências Cinematográficas como candidato de Portugal à nomeação para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro da 88ª edição dos Óscares. “O Desolado” é o mais dramático dos volumes e um retrato profundo de um país socialmente devastado. Esse país é Portugal.

Realização: Miguel Gomes

Argumento: Telmo Churro, Miguel Gomes, Mariana Ricardo

Elenco: Cristina Alfaiate, Adriano Luz, Américo Silva, Rogério Samora, Carloto Cotta, Teresa Madruga, João Pedro Bénard, Joana de Verona, Luísa Cruz, Gonçalo Waddington

Portugal/2015 – Drama

Sinopse: Xerazade duvida que ainda consiga contar histórias que agradem ao Rei, dado que o que tem para contar pesa três mil toneladas. Por isso foge do palácio e percorre o Reino em busca de prazer e encantamento. O seu pai, o Grão-Vizir, marca encontro com ela na roda gigante, e Xerazade retoma a narração : “Oh venturoso Rei, fui sabedora que em antigos bairros de lata de Lisboa, existia uma comunidade de homens enfeitiçados que, com rigor e paixão, se dedicava a ensinar pássaros a cantar … “. E vendo despontar a manhã, Xerazade calou-se.

«As Mil e Uma Noites – Volume 2, O Desolado» – Um país em lágrimas
4.5Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos