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“As Noites de Cabíria” – A esperança é a última a morrer

Em 1957 estreou “As Noites de Cabíria”, com Giulietta Masina no papel principal e o seu esposo, Federico Fellini, como realizador. Este filme arrecadou o Óscar de melhor filme estrangeiro e valeu a Giulietta o prémio de melhor atriz em Cannes, pela interpretação de Cabíria, uma prostituta com coração de ouro, vítima de vários enganos por parte de homens que a cortejam, mas à primeira oportunidade acabam por deixá-la e até a roubam, como acontece na cena inicial. No entanto, o seu otimismo mantém-na sã e com esperança que, um dia, as circunstâncias mudem.

A personalidade de Cabíria encaixa no que, em inglês, é comummente denominado como people pleaser, isto é, alguém que tenta agradar às pessoas em toda e qualquer circunstância, esquecendo-se de seguir os seus próprios sentimentos e interesses – no caso específico da nossa heroína, talvez porque os seus sentimentos a atraiçoaram vezes sem conta. Ou talvez seja o método de sobrevivência que ela desenvolveu após anos de trabalho como prostituta e, além disso, depois de ser enganada vezes sem conta por homens cheios de promessas vazias. 

Há uma pessoa diferente conforme quem a acompanha e mediante o ambiente onde se encontra: com as outras prostitutas dança, brinca e até se envolve numa luta; com Alberto, a estrela de cinema, apesar de mostrar alguma irreverência em certos momentos, é muito mais calma, educada e cordial, como é exigido a alguém com tamanha importância; com o “homem do saco”, que ajuda os sem abrigo de Roma, habitantes das caves, Cabíria tem um dos momentos mais honestos e sinceros de toda a obra – um sentimento ao nível do homem com quem fala (nota: esta cena foi apenas mostrada em Cannes, tendo sido cortada por objeção da igreja quando o filme saiu. Foi acrescentada nas versões restauradas que saíram ao longo do tempo); no local onde imensos peregrinos pedem ajuda à Madonna, num primeiro momento, permanece contemplativa e absorve o que se passa à sua volta para, de seguida, transbordar de emoção e adoração à Santa, chegando até a beijar o chão do altar, pedindo ajuda para mudar a sua vida.

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O guião é brilhante, não há dúvida, mas não é escrito numa maneira tradicional, no sentido em que é difícil, para não dizer impossível, dividi-lo usando o método mais frequente, a estrutura em três atos com plot points antes da mudança do ato um para o ato dois, do ato dois para o ato três e com midpoint. Em vez disso é algo muito mais episódico, temos histórias que por si só podiam constituir um filme. Todas estas aventuras associadas umas às outras, numa sequência temporal linear, criam o enredo no seu todo. Este método permite-nos descobrir diferentes traços da personagem, consoante as diferentes aventuras onde é colocada Cabiria, através da maneira como reage a todas as benesses e adversidades que aparecem no seu caminho.

Esta Cabiria tem muito de Chaplin, algo que é visível pela maneira como anda e, em particular, numa cena em que dança, na luxuosa festa. Federico Fellini, entre outras coisas, disse numa entrevista que a sua esposa ficou muito contente com tal comparação feita pela crítica e também pelo próprio Chaplin, que chegou a dizer que Masina foi a atriz que mais o moveu. E o próprio realizador também ficou feliz, visto Charlie Chaplin (e “City Lights” (1931) em particular) terem sido uma influência no cineasta italiano ao fazer este filme. Além disto, num artigo que pode ser lido no Criterion Channel, Fellini conta que o guarda-roupa de Cabiria foi comprado num mercado de rua e, como Giulietta não iria ter roupas bonitas para usar no filme, comprou-lhe um vestido numa boutique luxuosa, para compensar. Não é à toa que o casamento deles durou 50 anos.

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É visível que o estilo de realização de Fellini amadureceu, tornou-se mais coeso, e não existem tantas falhas neste filme como nos anteriores, não sendo por acaso que os seus trabalhos mais populares e aclamados comecem a partir daqui, passando por “La Dolce Vita” (1960) ou “8½” (1963), que talvez tenham tornado Cabíria menos conhecida do que deveria ser. Não que o que anteriormente o que fez seja mau, mas talvez ainda estivesse a descobrir a sua voz como realizador, a chegar ao ponto em que iria atingir notoriedade mundial e ter filmes que são e sempre serão eternos na história do cinema. “As Noites de Cabiria” marca o fim do neorrealismo na obra de Fellini e marca também aquela que, a meu ver, é a mais brilhante colaboração entre Federico e Giulietta, marido e mulher, um dos casais mais influentes e importantes do cinema.

Deveria constar nos créditos, juntamente com o nome do realizador, o nome da atriz principal. “As Noites de Cabíria” pertence tanto ou mais a Giulietta Masina do que a Federico Fellini. Giulietta Masina é O FILME. Tudo o que ela faz, enquanto Cabíria, é perfeito. Conseguimos saber o que vai na alma da personagem com um simples levantar da sobrancelha, com um sorriso, pela maneira que move os olhos, ora rapidamente, ora em contemplação. No final, o olhar em direção à câmara (a quebra da quarta parede como Chaplin fazia frequentemente e com grande efeito na audiência) resume perfeitamente o filme: Cabíria convida-nos a segui-la na sua jornada, ainda que de modo tímido e com receio, porque nem ela sabe o que se vai passar a seguir. No entanto, nós (espectador e Cabíria) sabemos que, aconteça o que acontecer, ela terá sempre um sorriso para mostrar, que nos comove e enche de esperança.

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