Edgar Wright construiu um filme desde e para os nossos tempos; algo extraordinariamente original, sem nada de vulgar ou gratuito. Algo na primeira cena do filme me fez lembrar uma das primeiras vezes em que tive a experiência de viajar num avião. Guardo a memória do momento em que os motores são puxados até à sua máxima potência para iniciar a descolagem. Assim que o avião iniciou a marcha, senti o poder daquela poderosa máquina pelo ronco enérgico dos motores ao mesmo que as minhas costas ficavam coladas à cadeira onde viajava. Foi assim que me senti após a primeira cena do filme. Algo naquela sequência inicial me conquistou rapidamente.

Baby (Ansel Elgort) é o ás por trás do volante, que se vê forçado a conduzir um gangue nas fugas, após levarem a cabo os assaltos, até saldar a dívida que tem para com Doc (Kevin Spacey).

A narrativa, para além do conflito presente ser ininterrupto, vive muito da qualidade da caracterização das personagens. Baby tem uma back story que justifica a sua personalidade reservada e a constante presença da música na sua vida. Doc, embora sendo ainda o arquétipo do mafioso puro, pronto a mandar matar uma família inteira como quem rotineiramente pede o seu pequeno almoço, parece esconder algures um lado paternal que Baby vem fazer despertar. Bats (Jamie Foxx) é a figura do bandido desprovido de qualquer valor – nem uma graciosidade ou inocência animal vislumbramos; é um ser acéfalo, insensível, astucioso, bully, egoísta e que toda a gente sentiria um prazer especial em ver morto. Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza González) são uma espécie de Bonnie and Clyde, que não vivem um sem o outro. O convívio entre todas estas personagens e a música que as perpassa constantemente, alimentam a narrativa, sem deixar o filme entregue a um mero formalismo técnico de um realizador presunçoso que quer sobressair pelo seu virtuosismo.

O som e a montagem são os grandes investimentos do filme. O realizador disse numa entrevista que a gestação do filme durou mais de duas décadas, e que foi a partir das músicas da sua playlist que foi construindo o filme na sua cabeça. O resultado desse trabalho eidético foi concretizado minuciosamente, na escolha dos planos e nas suas durações para que a música se tornasse a batida, tanto da montagem como da mis en scène. Tudo se movimenta harmoniosamente. A velocidade e os carros não são apenas recursos diegéticos, são antes de tudo matéria de intensificação da experiência cinematográfica, são parte vital da orquestra visual que dá corpo à sinfonia que é a banda sonora.

Estamos perante um filme que tem força intrínseca, e que embora não seja feito para uma elevação reflexiva ou expressão de afectos, capta o espectador pelo seu movimento tão bem orquestrado e pela belíssima banda sonora que o acompanha. O filme não promete mais do que aquilo que não pode cumprir e isso faz com que nos esvaziemos um pouco das expectativas – boas ou más – para que a experiência seja sentida na sua vibração própria. E não nos enganemos, pois este não é, de todo, um filme vazio, é um filme com soul!

Realização: Edgar Wright
Argumento: Edgar Wright
Elenco: Ansel Elgort, Jon Bernthal, Jon Hamm
Inglaterra/EUA/2017 – Ação/Crime
Sinopse: Baby, um jovem e talentoso condutor, especialista em fugas em assaltos, confia na batida da sua banda sonora pessoal para ser o melhor. Quando encontra a miúda dos seus sonhos, Baby vê nela a oportunidade de deixar para trás a sua vida de crime e sair de forma airosa desse universo. No entanto, ao se ver coagido a trabalhar para um chefe do crime, e quando um golpe condenado ameaça a sua vida, o seu romance e a sua liberdade, ele terá de optar pela música certa…

«Baby Driver - Alta Velocidade» - Atinge-me com música, brutaliza-me com cinema
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