«Bacurau» – Um futuro demasiado próximo do presente

A melhor forma que encontro para resumidamente descrever “Bacurau” (2019) é como se um episódio da série “Black Mirror” (2011-presente) se misturasse com “Django Unchained” (2012) ou “Inglourious Basterds” (2009) do realizador americano Quentin Tarantino. “Bacurau” é um raro filme brasileiro, realizado por Kleber Mendonça Filho em parceria com Juliano Dornelles, que junta o western e a ficção científica. Apesar de, como o realizador Kleber Mendonça Filho afirma numa entrevista: “Bacurau é muito um filme sobre o meu êxtase de ir ao cinema quando eu o descobri, adolescente e um jovem adulto”, o filme não deixa de ter uma enorme carga política se tivermos em conta a situação social e económica do Brasil, bem como a posição do atual Presidente Jair Bolsonaro em relação à cultura e em especial ao cinema brasileiro.

“Bacurau” começa com a frase: “Oeste de Pernambuco. Daqui a alguns anos…”. A história passa-se no interior no Brasil, mais concretamente numa aldeia chamada Bacurau. Teresa (Bárbara Colen) regressa à sua aldeia natal para estar presente no funeral da sua avó. Encontramo-nos num futuro onde execuções de criminosos são transmitidas em directo na televisão. Teresa, que é médica, regressa ao sertão, levando com ela medicamentos que, devido às políticas de Tony Junior (Thardelly Lima), o “perfeito”, são escassos na aldeia. Do mesmo modo, a água é de igual forma rara, chegando à população através de um camião. Pouco depois da chegada de Teresa e do funeral da sua avó, os cidadãos de Bacurau descobrem que a sua aldeia desapareceu dos mapas online. A aldeia torna-se um local abandonado, sem água, sem alimentos e sem cobertura de rede móvel. O clima de medo e incerteza instala-se. A vida dos habitantes de Bacurau mudará para sempre quando é avistado um drone que se assemelha a um disco voador alienígena e quando um casal, que aparentemente pratica motocross, chega à aldeia.

Revelar mais da história tiraria a emoção do que se passa em Bacurau depois dos habitantes da aldeia perceberem que estão por sua conta. Em todo o caso, Kleber Mendonça Filho, questionado sobre a carga política do seu filme, responde do seguinte modo: “Queria fazer uma história de ação, aventura, mas que também tratasse de questões que são cíclicas, crônicas no Brasil. Ponho na tela, por exemplo, a separação invisível e histórica entre Sul e Sudeste, de um lado, e o Nordeste, de outro. A desigualdade está retratada lá, assim como o problema do abastecimento de água, o político corrupto, os supremacistas brancos, o caminhão que despeja livros no meio da rua, o descaso com a educação.” Apesar de admitir nunca ter pensado em fazer um filme político, o que acontece é que, infelizmente, o seu filme pode ser visto com uma metáfora do Brasil dos dias de hoje.

Acerca da posição do actual Presidente do Brasil em relação ao cinema e à cultura, Kleber Mendonça Filho não deixou a questão sem resposta. Nos créditos de Bacurau surge a seguinte mensagem: “A realização e distribuição desse filme gerou mais de 800 empregos diretos e indiretos. Além de ser a identidade de um país, a cultura é também indústria.”

“Bacurau”, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes de 2019, é um filme que nos surpreende e nos empolga à medida em que a trama se desenrola. Pode ser invulgar se tivermos em conta as diferentes referências e géneros representados, bem como as diversas metáforas que nele existem. É, todavia, um filme a não perder. Seja pela acção, seja pelo facto de a cultura ser a maior força de um país. E ela, a cultura, deve subsistir sempre.

“Bacurau” estreia no próximo dia 20 de Fevereiro no Espaço Nimas, em Lisboa

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