“Batalha Atrás de Batalha” e uma guerra por ganhar

O triunfo deste filme e da sua máquina de marketing vivem do mega orçamento e do que será a sua campanha para os Óscares
Batalha Atrás de Batalha Batalha Atrás de Batalha
“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson

A imagética de Paul Thomas Anderson passa sempre por um espaço temporal meio vintage meio moderno. Normalmente acarretando contradições entre personagens, guarda-roupa e cenografia. Mais uma vez a receita repete-se apimentado com golpes de Tarantino mas com um abuso nos saltos temporais, desnecessários e repentinos na maior parte das vezes. Uma sexualização descontextualizada e um grau de violência sem charme. Elenco de luxo, uma exibição notável do Sean Penn, um Benicio del Toro bem mas deslocado e um lugar comum de Leonardo Di Caprio numa confusão entre ser e estar – e aqui havia espaço para um outro texto sobre o homem que vai ao casamento de Jeff Bezos, que está a construir um hotel de luxo em terrenos ocupados da Palestina e que tenta lavar a sua imagem como revolucionário num filme.

O filme arranca com a toda a velocidade, despeja personagens e linhas de argumento. São 30 minutos de trailer, que sabendo que o filme tem uma duração de quase 3 horas, deixa-me à partida a suspeitar sobre o ritmo que se segue. O realizador quer tomar posições sem as tomar, pinta um cenário de autoritarismo numa crítica ao cenário actual nos Estados Unidos da América mas ao mesmo tempo pinta revolucionários em todos os lugares comuns possíveis. Drogas, sexo e um entusiasmo adolescente completamente descabido. Zero profundidade, zero reflexão, lugares comuns atirados por todo lado, tudo superficial.

Argumentos longos são normalmente o resultado de um escritor que não consegue tomar decisões. Em vez de se comprometer com uma direção coloca-se tudo no pote. O resultado? Um argumento em que os sub-plots pesam tanto como a espinha dorsal do filme, em que se puxam demasiados fios sem fazer novelo até à altura em que há demasiados nós e se corta tudo com uma tesoura.

Nos tempos que vivemos Paul Thomas Anderson joga um jogo perigoso. Ao populismo ridiculariza, mas não as ideias. Ridiculariza os seus agentes, homens brancos, racistas, machistas, supremacistas enquanto no lado revolucionário são as ideias que são mostradas como infantilidades, caprichos narcisistas e utópicos não concretizáveis. A fácil derrota de Bob Fergunson (Leonardo Di Caprio) perante as ideias mas o resurgir de um herói forte para salvar a filha mostram o quão fraco é o arco da personagem. Bob é uma versão significativamente mais confusa da personagem interpretado por Jeff Bridges em o “O Grande Lebowski”.

Em cima disso a tentativa de humor de um revolucionário desactualizado que não sabe lidar com as questões de género ou de uma forma de combate diferente da sua geração. A forma como nos é apresentada é da mesma forma dos que falam de uma agenda “woke” para se referirem a liberdades e direitos essenciais da humanidade, ridicularizando essas mesmas questões através de paternalismo. Os revolucionários geram violência pela violência, são mal-criados, rudes e desleixados.

O triunfo deste filme e da sua máquina de marketing vivem do mega orçamento e do que será a sua campanha para os Óscares. Construído para ser um “amouse bouche” da crítica e da Academia é tão incisivo como uma faca de manteiga. Tem que lhe ser reconhecido o mérito técnico na sua cinematografia, pela lente de Michael Bauman a capturar a textura visual de alta resolução, clareza e detalhes que é difícil não ficar imerso no seu aspecto geral e Paul Thomas Anderson que volta a convocar o seu colaborador musical frequente Jonny Greenwood e, desta vez, a banda sonora pinta o quadro completo com o uso variado de som e música em camadas que complementam cada cena até à música dos créditos finais.

Revolucionário para os Estados Unidos da América, blasé para o resto do mundo.

Batalha Atrás de Batalha
“Batalha Atrás de Batalha” e uma guerra por ganhar
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