25 de Abril

«Beautiful Boy» – Uma doce história de amargura

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A overdose é a maior causa de mortalidade em pessoas abaixo dos 50 anos nos Estados Unidos”. É com esta estatística que termina o filme “Beautiful Boy”, um drama irrepreensível baseado nas memórias de um pai e um filho que experienciam na primeira pessoa a dor que o vício impõe a quem com ele luta, e aos seus entes queridos. Uma história de dor e esperança, perda e reencontro, que não poderia ter sido melhor contada, tendo Timothée Chalamet obtido ainda uma nomeação para Melhor Ator Secundário nos Globos de Ouro.

Realizado por Felix van Groeningen, o filme procura mostrar o lado menos estereotípico de quem é, muitas vezes, marginalizado pela sociedade: afinal Nic Scheff (Timothée Chalamet) vem de uma família com posses, tem pais que, apesar de divorciados, estão aparentemente presentes na sua vida e foi aceite em diversas faculdades.

No entanto, é utilizador de todo o tipo de droga, sendo especialmente viciado em metanfetaminas. Nic vive com o pai, David Scheff (Steve Carell), a madrasta (Maura Tierney) e os seus dois filhos pequenos. A relação entre pai e filho começa por ser retratada como próxima e feliz, apesar da personalidade com uma clara predisposição depressiva de Nic que, nas palavras do próprio pai, “passa os dias fechado no quarto a ler livros de escritores deprimidos”.

Numa noite em que Nic, desorientado pelo efeito das drogas, desaparece de casa durante dois dias, o pai decide colocá-lo num programa de reabilitação, onde lhe são apresentadas estatísticas promissoras: entre 25 e 80% de sucesso. Ele acaba, no entanto, por ceder ao impulso e fugir, sendo mais tarde encontrado pelo pai num estado deplorável, encharcado pela chuva e novamente sob o efeito da droga. “A recaída é parte da recuperação”, é com esta frase que a diretora da clínica apazigua David, que irá repetir a frase ao filho numa das suas subsequentes recaídas.

À medida que o filme avança, questionamos a aparente proximidade da relação de Nic com o pai. Afinal, este lida com a situação quase na posição de um médico e não de ente querido. Apesar da sua óbvia preocupação e tentativa incessante de ajudar o filho, a maioria das suas reações apresentam uma calma desconcertante e quase passiva, mais focada no tentar e menos no conseguir. Será este um dos motivos pelos quais Nic recai sempre no vício, apesar do seu inerente desejo de se libertar?

Mas, afinal, talvez o maior sinal de dor seja a incapacidade de a revelar e de lidar com ela; talvez um pai que acha que o filho está perdido não tenha outra opção que não seja reprimir o desespero que dele se apodera.

Os eventos, desde cedo contados num tom amargo, vão-se tornando mais angustiosos ao longo do filme. Ao contrário do ditado, depois da bonança veio sempre a tempestade: mesmo após longos períodos de sobriedade, Nic vai recaindo sempre no vício, vivendo uma luta diária contra a escolha que quase lhe tirou a vida.

A sensação de incapacidade e desespero vai crescendo na sala, amplificada pelo pormenor de edição que destaca o filme: as cenas de dor, luta e desamparo são alternadas com cenas do passado de Nic preenchidas de felicidade e banalidade, que poderiam certamente ter sido retiradas das memórias de qualquer um de nós. O espetador é deixado com o desejo e impotência de ajudar alguém que, afinal, não é assim tão diferente de si próprio, e no ar paira a questão: “poderia ter sido alguém que conheço?”

Timothée Chalamet, que aos seus apenas 22 anos já foi nomeado para Óscar e Globo de Ouro de melhor ator principal pelo filme “Chama-me Pelo Teu Nome” e vencedor de alguns prémios mais independentes pelo mesmo título, presenteia-nos com uma interpretação crua, emocional e desinibida, ainda mais louvável do que qualquer outra do seu passado enquanto ator, dando vida à sua personagem e conseguindo provocar a conexão emocional entre o espetador e a dor da luta de Nic.

Também Steve Carell, nomeado para o Óscar de Melhor Ator Principal em 2015 por “Foxcatcher”, apesar do seu papel menos emocionante, (pelo menos no exterior) consegue dar vida à dor apática de um pai que já quis um mundo para o filho, mas que agora só não o quer perder.

A banda sonora e mistura de som manipulam subtilmente as nossas emoções, fazendo-nos sentir a apatia de alguns momentos em contraste com a angústia enfurecedora de outros, o desespero de Nic e a dor de David. A fotografia, a cargo de Ruben Impens, submerge-nos na realidade inundada por toda uma miscelânea de sentimentos que as personagens vivem, tanto pelas cenas tingidas com cores afetivas, como pelos planos filmados de forma a evidenciar os traços mais subtis das vivências mostradas.

I almost turned on the gas again, but when the good moments arrived again I didn’t fight them off, like an alley, adversary. I let them take me, I luxuriated in them, I made them welcome home. I even looked into the mirror, once having thought myself to be ugly, I now liked what I saw, almost handsome, yes, a bit ripped and ragged, scares, lumps, odd turns, but all in all, not too bad”.

É ao som da declamação de Nic do poema integral “Let It Enfold You”, de Charles Bukowski, que o filme termina, deixando na sala uma nota de esperança.

73082428a08cf6fb88e1a4076c6dd8687960e8db 3Realização: Felix van Groeningen
Argumento: Luke Davies, Felix van Groeningen
Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney
EUA/2018 – Drama
Sinopse
: Steve Carell e Timothée Chalamet num comovente drama familiar sobre a adição. Este filme traz-nos o retrato, profundamente comovente, do amor inabalável de uma família e do seu compromisso perante a luta contra o vício do filho e as suas tentativas de reabilitação. Após as várias recaídas do filho, os Sheff são confrontados com a dura realidade de que o vício é uma doença que não descrimina ninguém e que pode atingir qualquer família a qualquer momento. Baseado numa história real, a do jornalista David Sheff e do seu filho, conta com a assinatura de Brad Pitt na produção e com os talentosos Steve Carell e Timothée Chalamet entre o elenco.

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