Berlim 2021: Berlinale estreia em formato virtual e com duas surpresas nas seções paralelas

Festival de Berlim começa discreto com sua primeira edição virtual, sem grandes títulos no concurso oficial mas com dois tesouros escondidos nas seções paralelas. Um grandioso filme de estreia vindo do Vietnã e um biopic nada convencional chamado “Ted K”.

A manhã de segunda-feira começou com a abertura oficial da 71.ª edição do Festival de Berlim. A primeira parte da Berlinale, que acontece até sexta-feira em formato virtual e apenas para a indústria e imprensa, é o grande desafio para os novos diretores do certame, Carlo Chatrian e Mariette Rissenbeek.

Numa recente entrevista a uma revista local, Chatrian defendia a sua hesitação inicial em organizar uma edição virtual do festival já que, para ele, o festival de Berlim não era só sobre assistir filmes mas sim sobre assistir a filmes juntos. A ausência da experiência coletiva era o que mais preocupava o italiano. Esse incómodo se fez sentir nessa manhã de segunda-feira, quando sentamos em frente ao computador para começar a nossa longa jornada berlinense, mas este ano bem longe da gelada Potsdamer Platz. A segunda parte do festival, esta para o público em geral e a acontecer em cinemas físicos, foi reagendada para o começo de junho e foi batizada de “Summer Special”.

Um total de 22 filmes foram liberados à imprensa, dos quais três fazem parte do concurso oficial. Hong Sangsoo, que ganhou o urso por melhor direção o ano passado pelo seu “The Women Who Ran apresenta o seu mais novo e discreto Introduction, o libanês Memory Box dos realizadores Joana Hadjithomas e Khalil Joreige e o filme com mais cara de “filme de abertura” de Berlim, o simpático Ich Dein Dein Mensch da atriz e realizadora alemã Maria Schrader, a mesma por trás do sucesso da Netflix Unorthodox.

No entanto, foram nas seções paralelas onde encontramos os filmes mais interessantes deste primeiro dia de Berlinale. “Taste” é talvez o filme que mais se destaca, abrindo a nova seção do festival, Encounters, iniciada o ano passado com o intuito de mostrar filmes mais audaciosos e de autores não tão conhecidos.

Taste é o hipnótico e sensorial debut do realizador vietnamita Lê Bảo, de apenas 29 anos, que passou despercebido pela imprensa neste primeiro dia de festival. É um filme todo feito de silêncios e texturas. A primeira frase de diálogo só vem lá pelos vinte minutos, mas a esse ponto já estamos tão impressionados com a esplêndida cinematografia barroca de Vinh Phúc Nguyễn que nem notamos pela sua falta. Bảo filma a rotina diária de um homem nigeriano a viver numa favela de Ho Chi Minh como se fizesse arte performática inspirada pelas pinturas eróticas de Caravaggio.

Este homem sem nome, do qual sabemos muito pouco, vive de pequenos trabalhos numa favela no Vietnã. Ele tem um filho pequeno, que deixou na sua terra natal e com o qual faz vídeo-chamadas ocasionalmente. Até que um dia ele é despedido de um dos seus trabalhos e então vai viver com quatro mulheres de meia-idade e com elas passa os dias a fazer sexo, a cozinhar, a costurar e a meditar sobre religião e solidão. Num eufemismo preguiçoso, seria como se Apichatpong tivesse filmado o seu “Eat, Pray, Love”.

A linha ténue que separa a sanidade e a loucura 

A segunda surpresa do dia veio na forma do biopic americano “Teddy K.” na seção Panorama. É o terceiro longa do realizador Tony Stone, talvez mais conhecido pelos seus vídeos para a banda R.E.M e por ser casado com a compositora Melissa Auf der Maur, que no passado fez parte de bandas como Hole e Smashing Pumpkins, e que é a produtora executiva do filme.

Teddy K conta a incrível história do anarquista e terrorista Ted Kaczynski, mais conhecido pela mídia americana como “Unabomber”. Ted começou sua carreira académica aos 16 anos, quando entrou para Universidade de Harvard, saindo de lá com um PHD em matemática. Após os estudos, foi um respeitado e brilhante professor universitário até decidir ir viver numa cabine nas montanhas de Lincoln, cidade do estado de Montana. 

Lá ele viveu por 25 anos sem água corrente ou eletricidade e deu início a um processo de radicalização que o fez detonar dezenas de bombas matando 3 pessoas e deixando outras 23 feridas. Ted publicou um manifesto onde defendia que o uso de tecnologia moderna e o impacto que o processo de industrialização tem na natureza está destruindo a sociedade atual e nos transformando em ratos na gaiola. Para que suas teorias fossem ouvidas, ele se transforma num dos ecoterroristas mais procurados dos Estados Unidos, dando então início ao que veio a ser a mais cara e longa investigação da história do FBI.

A vida do ecoterrorista já foi motivo de várias adaptações cinematográficas e mais recentemente na série de tv Manhunt. Para a nossa surpresa, Tony Stone não parece nada interessado em filmar o habitual perfil do homem comum tornado terrorista e é então que se dá início a uma bela desconstrução do género biopic, onde nunca se romantiza ou se condena os atos de Kaczynski e isso leva o filme a outro patamar. O negrume do filme traz o “The Shining” à memória, pela forma como Kubrick filmou a linha ténue que separa a sanidade e a loucura. 

“Nos próximos 10 anos teremos um enorme desafio ambiental e Ted escreveu sobre como a dependência da tecnologia irá dar origem a mais conflitos e mais polarização. Com o filme, nós queremos produzir um estudo das suas ações. Não é uma narrativa de vilanização mas também não queremos condenar o que ele fez. Queremos que as pessoas se conectem com esta história porque a cada ano ela está se tornando mais e mais relevante.” disse o realizador numa entrevista recente.

Em 1995 Ted enviou aos jornais New York Times e ao Washington Post um manifesto de 35 mil palavras intitulado “Industrial Society and Its Future” e exigiu a sua publicação se quisessem que as bombas parassem. Numa decisão inédita, o manifesto foi publicado pelo Washington Post em setembro daquele ano e discutido por toda a imprensa americana.

“Nós queríamos saber como é que esta pessoa, coberta em sujeira da cabeça aos pés e capturada pelo FBI, consegue se esconder por mais de 20 anos e ainda tem a proeza de ter seu manifesto publicado no Washington Post?” questionava o realizador na mesma entrevista.

A ambiguidade e complexidade da personagem é encarnada de modo impressionante por Sharlto Copley, aquele ator imenso que deu corpo ao protagonista do fabuloso “Distrito 9″ e só isso já é motivo suficiente para não perder de vista este filme perturbador.

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