Spike Lee, com o seu mais recente filme, vem mostrar que são dispensáveis quaisquer explicações sobre o ódio, por isso, cria uma série de imagens no sentido de nos mostrar a sua génese. O realizador faz um levantamento arqueológico, escavando no tempo para trazer até à superfície da tela cinematográfica uma imagem de “E Tudo o Vento Levou” (1939), onde Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) caminha, lacrimejante, por um solo plenamente revestido com corpos onde a vida se vai extinguindo lentamente. A Guerra Civil Americana é a primeira imagem escolhida pelo realizador para começar esta arqueologia do ódio, e é nesse momento histórico que, no mesmo solo onde se derramou o sangue, o ódio se infiltrou e proliferou por toda uma nação.

Ron Stallworth é o primeiro afro-americano a ingressar no seio da polícia americana. Quando entra na polícia do Colorado, afirma-se com um telefonema inusitado para o líder local do Ku Klux Klan, no sentido de levar a cabo a mais arriscada das missões: infiltrar-se dentro da organização. Para conseguir este intento, o corpo que dá carne à voz dos seus telefonemas e que se apresenta nas reuniões é o do seu colega, judeu, Flip Zimmerman.

A história passa-se nos anos 70, em tempos em que a segregação racial nos Estados Unidos da América ainda era feita a céu aberto e de forma despudorada. O filme consegue retratar estas mutações, pois se há coisas que vão mudando com o tempo, o ódio permanece, mais ou menos dissimulado, principalmente quando a ignorância ganha o fulgor e poder que tem nos nossos dias. Ron é uma personagem que confunde o chauvinismo americano: por um lado está a servir a nação na sua fonte mais preciosa e glorificada, a segurança, mas, por outro lado, a sua cor de pele incomoda uma parte daqueles que fazem parte da sagrada instituição. Neste sentido, Ron encontra algumas resistências quando chega à polícia do Colorado, encontrando colegas que encontram nele uma oportunidade para exibirem todo o seu racismo, referindo-se aos negros cadastrados como toads. Porém, é o seu telefonema para o líder do Ku Klux Klan que impõe um novo ritmo ao filme ao quebrar todas as expectativas, as dos seus colegas e as nossas, enquanto espetadores. O efeito de estranhamento do seu telefonema agarra-nos a atenção por completo, e não o faz sem retirar de nós algumas gargalhadas. Esta cena condensa dentro de si a essência do filme: a voz de Ron torna-se protagonista de todo o filme ao introduzir-se como uma espécie de armadilha que virá revelar o vazio que existe na cabeça de onde provém a voz que fala desde o outro lado da linha. Spike Lee, com este golpe de génio, consegue mostrar que, retirando a cor da pele, permanece, a emanar das nossas bocas, uma matéria etérea, que nunca se mostra senão pelas suas nuances de timbre e que possui a capacidade plástica de assimilar novos sotaques, novas sonoridades, novas formas de dizer todas as palavras que existem. Spike Lee faz da voz um signo de igualdade que perpassa todo o filme e que reduz ao absurdo todo o discurso que pretenda atribuir qualquer tipo de supremacia de um aparelho orgânico sobre outro, quando toda a matéria acidentada de que somos constituídos se vê transcendida – e superada – a partir do momento em que possuímos essa maravilhosa capacidade que é pensar – fora da prisão do paradigma do orgânico e da mera sobrevivência.  Só é preciso uma coisa: agarrar o poder e lutar contra as forças que querem reduzir o mundo a uma mesquinhez e vulgaridade eternas, que eternizam a desigualdade.

O realizador não deixa de dizer que aquele que se exime da luta está condenado a sucumbir pelas garras das forças opressoras, então não basta ter o poder de sair da ignorância para descobrir a igualdade entre todos os homens, mas é preciso que o silêncio dê lugar a um exercício de poder do qual a parte oprimida da sociedade nunca fez uso por estar moralmente condicionada à inacção. O poder está aí, no meio de nós, para ser usado e um “não” é a sua primeira grande manifestação. Não se trata de usar o poder para condicionar os opressores à mesma lógica de desigualdade a que as partes oprimidas foram submetidas, mas rebentar com as amarras para ganhar uma nova força motriz capaz de imprimir uma ordem mais justa no mundo. O discurso de Kwame Ture é disso um bom exemplo. O palanque onde Ture discursa tem a palavra “Power” com grande destaque, e é aí que reside o símbolo dessa recuperação do poder que deve ir para além de uma resignação consciente da opressão e desigualdade instituídas: “all the power for all the people”, grita Ture durante o seu discurso.

Spike Lee para além de ir introduzindo no seu filme alguns destes signos políticos essenciais, vem mostrar que a comunidade negra americana possui uma história significativa no mundo do cinema ao introduzir na tela os pósteres de filmes Blaxploitation que marcaram uma época do cinema.

A par de filmes como “Foge” e “Sacanas Sem Lei”, “BlacKkKlansman: O Infiltrado” é um daqueles filmes que necessitava existir pelo simples facto de criar imagens que parecem conseguir criar novas percepções da nossa realidade e alargá-la. Não se trata de um filme que consegue apenas passar uma importante mensagem política, mas que a par disso consegue, na sua componente formal, intensificar essa mesma interpretação que faz da realidade. Estamos perante um Spike Lee que também ele atingiu um novo poder de domínio sobre os meios cinematográficos, ao conseguir atingir o fundo da essência de toda a obra de arte, comunicar e desvelar.

Realização: Spike Lee
Argumento: Charlie Wachtel, David Rabinowitz
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier
EUA/2018 – Drama
Sinopse
: No início dos anos 70, um período de grande agitação social onde a luta pelos direitos civis vai enfurecendo. Ron Stallworth (John David Washington) torna-se o primeiro detetive afro-americano do Departamento da Polícia de Colorado Springs, mas a sua chegada é vista com ceticismo e abre hostilidades nos vários departamentos. Com audácia, Stallworth decide subir a pulso e fazer a diferença na sua comunidade; e é com grande coragem que entra numa perigosa missão: infiltrar-se e expor o Ku Klux Klan. Fazendo-se passar por um racista extremista, Stallworth contacta por telefoneo grupo e acaba por ser convidado a entrar no núcleo do mesmo. Consegue mesmo criar uma relação com o ‘Grande Feiticeiro’, David Duke (Topher Grace), que elogia o compromisso de Stallworth ao progresso da América Branca. Com a investigação à paisana a ficar cada vez mais complexa, um colega de Ron Stallworth, Flip Zimmerman (Adam Driver), faz-se passar por ele nos encontros cara-a-cara com os membros do grupo de ódio, recolhendo informações para um plano mortal.

«BlacKkKlansman: O Infiltrado» - A voz como signo de igualdade
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