Depois de tanto se ter falado das divergências entre público e crítica, acerca de “Bohemian Rhapsody”, ganhei uma curiosidade extra para ver o filme. Assim que surgiram os créditos finais, olhei em meu redor para ter uma percepção das reacções do público e reparei que essa divergência é, afinal, o resultado das experiências de dois tipos de sujeitos estéticos distintos: o fã de Queen e o cinéfilo.

A plateia de espectadores que assiste a um filme é sempre plural, pelo menos tão plural quanto as vivências individuais de cada um. Cada espectador leva para a sala um olhar repleto de histórias, memórias e paixões que acabam por construir o sujeito único em que ele se vai tornando. Afinal quem vê o filme senão esse sujeito, feito de uma matéria dinâmica e fluida?

Sabemos, também, que esta pluralidade traz consigo uma vasta quantidade de possibilidades de interpretação do mesmo filme. Acontece que, “Bohemian Rhapsody” faz com que essas subjectividades diferentes se manifestem com mais vigor, dando origem ao contraste entre dois sujeitos: um deles foi subjectivado, em algum momento da sua vida, com um pathos musical específico; o outro, com um pathos cinéfilo.

Enquanto o primeiro procura prazer no conteúdo do filme, nos signos da banda, na sua história e música; o segundo exige um pouco mais, procurando-o, ainda, num nível mais formal: nas suas qualidades estéticas enquanto obra cinematográfica. É claro que estes dois sujeitos podem coincidir e a visão crítica do filme enriquece quando as paixões coincidem.

Por um lado, temos um início de filme que parece querer agarrar o cinéfilo. Há, nos primeiros planos, um ritmo de montagem acelerado, que vai mostrando o frenesim do backstage com alguns planos de pormenor de conteúdo mais simbólico, tanto do espaço onde decorre o concerto como da própria banda.

Em certo momento, vemos um plano da bracelete de Freddy Mercury que se vai afastando até mostrar todo o seu corpo que caminha até à entrada no palco do Live Aid. Esta intensidade cinematográfica acaba no momento em que o plano subjectivo de Mercury encara a multidão que o espera.

Todo o flashback que se segue, que constitui grande parte do filme, possui uma forma banal. Estes primeiros minutos de filme, onde a forma se evidencia através da montagem, mostram o seu momento mais cinematográfico, por existir uma maior preocupação estética. Após este bloco de tempo de maior formalidade, a restante duração do filme centra-se quase completamente no contar da história e menos na forma de a contar. Podemos dizer que, após esse momento formal, o filme é entregue aos fãs, isto porque a realização se volta para o conteúdo, em busca da veracidade da história e das suas possíveis revelações.

A supervisão, enquanto produtores executivos, de Brian May, Roger Taylor e Jim Beach faz com que “Bohemian Rhapsody” remonte à tradição clássica de Hollywood, onde tudo se centrava no produtor, que detinham todo o poder de decisão sobre o filme, relegando o papel do realizador para segundo plano. Sendo o toque do realizador menos importante, torna-se natural que os aspectos mais formais sejam menos trabalhados, para que nenhum intelectualismo contamine a sua perfeita compreensão por parte do público e, sobretudo, para que o entretenimento esteja garantido.

Isto torna o filme demasiado leve, não possuindo nenhuma espessura subjectiva, nenhum ponto de enfoque vital e específico da vida de Freddy Mercury que elevasse a obra e a tornasse algo mais universal. Ao fugir das componentes mais intelectualizáveis, o filme foge de si mesmo para se escapar, o mais depressa  possível, para dentro do coração dos fãs da banda.

Algo que vive presente no coração dos fãs é Freddy Mercury, e Rami Malek tem a tarefa, tão difícil quanto desafiante, de ter de se colocar dentro da pele do excêntrico vocalista. Ao pensarmos na possibilidade de Sacha Baron Cohen ter aceitado o papel, imaginamos a sua fisionomia e excentricidade adequarem-se mais à personagem.

Estas semelhanças talvez não exigissem tanto do actor e a identificação por parte do público seria mais rápida; porém, as diferenças de Malek exigem um esforço maior de interpretação, que fazem ainda com que o espectador sinta nessa diferença algo novo, um traço criativo mais vincado.

Quando olhei em meu redor assim que o filme terminou, ouvi as palmas do público que alegremente acompanhava a música dos créditos finais. É um sinal claro de que o entretenimento foi garantido; porém, sentimos que “Bohemian Rhapsody” pensa por nós, não nos dando um espaço para a criação de pensamento, daí que toda esta crítica se foque mais nas distintas experiências do filme do que no filme em si.

No final de contas, um sujeito fica alegre por ter uma nova perspectiva daquilo que facilmente o emociona, enquanto o outro, mais exigente, embora lhe possam soar sempre bem as músicas de Queen, permanece com a sua alma sedenta de cinema.

Realização: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten, Peter Morgan
Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee
EUA/2018 – Biografia
Sinopse
: Bohemian Rhapsody é uma celebração da banda Queen, da sua música e do seu líder, Freddie Mercury (1946-1991), que desafiou os estereótipos e quebrou as convenções para se tornar um dos artistas populares mais venerados de sempre. O filme conta a história por detrás da ascensão dos Queen, surgidos em 1970, através de uma sonoridade muito própria que oscilou entre um rock grandiloquente e orquestral e um pop capaz de fabricar sucessos retumbantes. Relata também a implosão iminente do grupo, graças ao estilo de vida de Mercury e a sua reunião na véspera do festival Live Aid (organizado por Bob Geldof, em Wembley, no ano de 1985) no qual o cantor, compositor e pianista dos Queen, a debater-se com uma doença mortal, conduziu a sua banda para um dos concertos mais lendários da história da música popular.

«Bohemian Rhapsody» - Banquete para os fãs, fome para os cinéfilos
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