Após a minha pequena apreciação a “Disponível para Amar”, senti-me na obrigação de homenagear outro grande filme com mais uma, também ela favorável ao filme.

O cinema asiático é conhecido essencialmente pelos seus famosos filmes de terror, animação e os icónicos filmes de artes marciais da produtora de Hong Kong – Shaw Brothers, de onde nasceram títulos surpreendentes como a “36ª Câmara de Shaolin” aplaudido globalmente e um favorito de Quentin Tarantino. Contudo, há quase um século que países asiáticos, principalmente a china e o Japão, também exploram formas alternativas de contar o drama humano. Realizadores como Ozu, exploravam o quotidiano e a sua beleza subtil na vida de pessoas comuns, Mizoguchi e a sua incessante busca pelo etéreo na mulher ou filmes como “Adeus Minha Concubina” de Chen Kaige, um retrato feroz da subjugação feminina perante as regras da civilização oriental. É lamentável a comunicação social portuguesa não proporcionar à grande generalidade do público português estes excelentes filmes, embora existam sempre as sessões insólitas da RTP 2.

Kim Ki-Duk não é apenas mais um nome no vasto espólio do cinema asiático, é um cineasta voraz e implacável, apaixonado pelas vicissitudes das relações entre pessoas, particularmente, a paixão e o amor. Nascido a 20 de Dezembro de 1960, este realizador que antes de se tornar cineasta passou dois anos a vender pinturas originais nas ruas de Paris, teve a sua estreia em 1996 com o filme “Crocodile” sobre um jovem que salva uma rapariga tentando cometer suicídio. Já no seu primeiro filme a temática agressiva e selvagem que marca a sua carreira é evidente, contudo, uma paixão misteriosa esconde-se nas entrelinhas. No desenvolvimento do filme o rapaz começa por abusar sexualmente da rapariga, mantendo-a prisioneira em sua casa até que uma estranha relação de amor começa a crescer entre ambos.

Apesar de “O Bordel do Lago” mostrar semelhanças temáticas com alguns dos seus filmes anteriores, isso não compromete a qualidade e a originalidade da história. Hee-Jin, uma rapariga que vive numa casa próxima de um lago, opera uma estância de pesca onde aluga pequenas cabanas aos seus clientes. Hee-Jin serve-os apenas do necessário sem nunca os confrontar – alimento e , por vezes, prostitutas. Contudo quando Hyun-Shik que foge de um passado obscuro descobre o lago, a rotina de Hee-Jin quebra-se. Hee-Jin mostra-se atraída pelo passado de Hyun-Shik e tenta seduzi-lo. Rejeitando-a, Hyun-Shik pede-lhe uma prostituta para o servir apenas como companheira. O enredo desenrola-se entre as duas relações de Hyun-Shik. Hee-Jin despreza a relação entre Hyun-Shik e a prostituta alheia à dor provocada pelo seu passado. Enquanto Hee-Jin continua a tentar aproximar-se de Hyun-Shik, ele tenta suicidar-se por duas vezes, uma delas confere ao filme uma das suas cenas mais emblemáticas quando Hyun-Shik engole um fio de anzóis. Hee-Jin salva-o de ambas as tentativas. No entanto, a prostituta continua a visitá-lo e numa crise de ciúmes Hee-Jin finge transportá-la até à cabana de Hyun-Shik amordaçando-a.Eventualmente a prostituta cai ao lago e morre. O chulo que a tenta encontrar também é assassinado por Hee-Jin. Após os homicídios, Hyun-Shik, continua alheio aos sentimentos de Hee-Jin. Numa última tentativa, desesperada, Hee-Jin tenta chamar a atenção de Hyun-Shik espetando um anzol na vagina, quase sangrando até à morte. O clímax do filme resolve-se com Hyun-Shik, finalmente reconhecendo, os sacrifícios de Hee-Jin para o afastar do seu passado e salva-a da morte. No desenlace, alguns pescadores encontram os dois corpos no lago, enquanto a cabana de Hyun-Shik e Hee-Jin flutua enigmaticamente pelo rio fora, desaparecendo na neblina. Uma última cena surge como um epílogo, vemos Hyun-Shik num barco a dirigir-se para uma zona do lago parecida com um pequeno pantanal com ervas compridas. A câmara faz um zoom lento revelando o corpo de uma mulher flutuando na água com Hyun-Shik navegando sobre ele.

Além da temática principal do filme sobre culpa e redenção, sofrimento e amor, o filme retrata ,essencialmente, a mulher – deificando-a. Hee-Jin é a força que acompanha Hyun-Shik pelo seu sofrimento, tentando ser reconhecida, absorvendo toda a dor de Hyun-Shik e a sua. O epílogo sugere-o quando vemos que o corpo de Hee-Jin é o pantanal por onde Hyun-Shik navega, a sua força vital.

Para finalizar, falta refirar que o filme não tem diálogos. O uso da metalinguagem insere-se no âmago do estilo de Kim Ki-Duk mantendo a fala reservada exclusivamente às personagens secundárias, excepto em alguns títulos, como em “A Samaritana”. O cineasta utiliza o silêncio para demonstrar a inocência das personagens, como se estivessem dentro de uma bolha invisível que os protege do mundo exterior, apenas quebrada se as personagens escolherem sair para esse mundo, impuro e caótico. No caso deste filme o silêncio das personagens sugere, também, a simplicidade na forma de comunicar, como se as coisas mais importantes da vida passassem por uma comunicação pura, de movimentos subtis e graciosos, no fundo, simplificando a comunicação a um nível mais emocional e sincero.

Uma história profundamente tocante recomendada a todos sem excepção. Uma experiência verdadeiramente única.

Realização: Kim Ki-Duk

Argumento: Kim Ki-Duk

Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung

Coreia do Sul/2000 – Drama

Sinopse: A violência do sexo é a razão de viver de uma mulher misteriosa que decidiu deixar de falar. Isolada numa ilha bordel onde conforta os pescadores, vai entrar numa relação de submissão e horror quando salva um suicida. Um dos filmes surpresa de Cannes 2000, muito embora o seu realizador, Kim Ki-Duk, seja uma estrela de primeira grandeza em toda a Ásia e «O Bordel do Lago» seja a sua terceira longa metragem de grande sucesso. Depois de perder a inocência, uma mulher deixa de falar. Como um pássaro numa gaiola, vive numa ilha num sítio remoto onde dá bebidas aos pescadores e os consola, juntamente com outras mulheres, nas horas de aborrecimento. Esta ilha é uma ilha especial. Pequenas casas flutuam no lago que a circunda e permitem aos homens transformar em realidade as suas mais estranhas fantasias sexuais. A chegada à ilha de um pescador com vontade de se suicidar vai quebrar-lhe a rotina. Apesar de o ter salvado da morte e de ser a sua amante, a mulher não consegue prendê-lo ao seu amor.

"O Bordel do Lago" - Violência, Amor e Clarividência
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