“How we destroyed our world?!” é a interrogação exclamativa dos “teóricos da conspiração” médios, cidadãos indagados que perguntam e se admiram ao mesmo tempo de como o nosso mundo é a absurda miséria do seu desequilíbrio global. Mas porquê? Afinal, esse mundo desequilibrado é mantido e alimentado por nós, os médios, pela (nossa) aceitação de que a subserviência aos poderes não existe realmente e que não se está “verdadeiramente” ao serviço dos interesses de uns poucos que podem mandar sobre todos os outros porque “lhes compramos os serviços” e “nos tornamos seus clientes” aos biliões, porque tanto queremos ter aquela experiência média, ainda que “absolutamente pessoal” (como se…), que as mega-corporações contemporâneas nos podem possibilitar, aquela que depois podemos discutir com todos os outros, para dizer o quanto diferente é ela e o “nosso uso” desses serviços e que é, no entanto, idêntica à dos outros.
E tudo isto porque quisemos aceder ao serviço, comprar o bem, ser clientes, ou não fossemos a ser os únicos a não fazê-lo. É o capitalismo contemporâneo, cego, iludido, sem critério de consumidor, fundado na oferta da (nossa) vontade pela troca da informação que não pára e pelo consumir contínuo de um novo serviço que é muito mais amplo e personalizado que o anterior ou de um novo bem/serviço tecnológico que é muito mais rápido ou melhorado (“upgraded”, “maximized”, “optimized”) que o anterior.
Ou seja, exatamente o mesmo tipo de “high-tier corporation” da qual Michelle Fuller (Emma Stone) é a CEO. Ainda se perguntam porque é que se chegou aqui?… ”It ‘s THEM!! They are doing it!” é o que diria um teórico das conspirações sério, ou não fosse o mundo atual não só esse descuido dos que não vêem o que acontece porque se está muito comprometido em simplesmente consumir: bens, serviços, mentiras, ilusões, ou não houvesse ainda algo bem pior, a ilusão de todas as ilusões, ou não fosse para ele claro que o que todos pensam que está perante cada um não é, de todo, a verdade do mundo, por todas as razões até agora invocadas, e ainda mais por outra: há sempre um véu que nos tapa do que está acima, a verdade tem sempre véus e mais véus, opacos, dissimulados, em que a percepção da que é verdadeiro está mascarado pela necessária simulação que esconde a verdade-das-verdades, sempre contrária ao bem comum, porque dantescamente construída para só servir o interesse próprio dos que simulam e enganam.
O signo do conspirativo será, sempre e sempre, o controlo, e é sobre isso mesmo que o filme fala: ter o controlo e não o ter, saber-se que o tem e os que são controlados não o saberem que não o têm.
Mas, claro é, que só o teórico da conspiração sabe a verdade que mais ninguém sabe, ele fala ao vento, e ninguém o ouve…como se pudesse ser ouvido, nada do que ele diz pode fazer algum sentido para a grande massa da equação global, o cidadão médio que olha para os teóricos da conspiração e para as suas teorias como o maior chorrilho de idiotices que alguma a mente humana urdiu e vociferou. Em que ficamos, será possível que essas teorias estejam corretas? Ou que sejam só devaneios?
No entanto, há mais um filme que fala delas e sobre elas…as teorias da conspiração… Ora, Yorgos Lanthimos é um grande irónico e este filme é uma grande ironia. Sobre quê? Sobre a cedência de controlo, sobre o destruir da nossa casa, sobre o não se pensar, sobre deixarmos para outros as escolhas que devemos só reter para nós. “Bugonia” é sobre a infirmação do humano, a desvitalização da comunalidade do bem geral, a desregulação dos modos económicos de construção do entorno comum, a fraqueza de cada um que não olha para mais alguém que não seja para si, para a sua “experiência única” de vida. É por isso que precisamos de controlo de quem está acima, para que não nos culpemos pelo modo como não mostramos amor pela terra, amor pelo outro, amor pela criação, amor pelo bem, amor pela auto-nutrição, amor pelo pensamento, amor pela escolha própria, amor pela vida e por estarmos vivos. Se a culpa é de quem nos controla – e ainda que não os conheçamos esses controladores, esses “overlords” e “mestres marionetistas” – é porque, na verdade, escolhemos, fracos que somos, em ceder esse controlo a outros que não nós próprios, enquanto cidadãos pensadores e decisores do seu próprio caminho e bem singular e coletivo. Quem decide por si, para si e em respeito ético pelos outros, não necessita dos “controladores”. Que se possa olhar para a fina ironia destas meta-conspirações pelo que ela nos possam fazer pensar: o mundo é aquilo que queremos fazer dele, e o que dele fazemos é tão a nossa grande falha ou a nossa grande criação, ficamos ou com a culpa de o estragar ou com a satisfação de o fazer crescer para todos que nele vivem. Não precisamos de mais ninguém.
A ironia de Lanthimos é também fílmica, é sobre a formulação cultural das conspirações na forma audiovisual: e se tudo pudesse ser verdade? Um filme, que é uma ilusão criada, poderá levantar o véu da dúvida sobre as mentiras que nos contam? Ir e acompanhar “Bugonia” é tão melhor se também o espetador médio de cinema que todos nós somos, o seja enquanto imbuído de um espírito dos anos 90 – a década de ouro das teorias da conspiração plasmadas no audiovisual – e esteja já sabedor de como ele e ela possa ser um perpetuador do legado dos “Ficheiros Secretos”, e procurar a “verdade que está lá fora”, essa que nunca se poderá encontrar, porque é sempre fugidia, pelo menos nas narrativas cinematográficas e televisivas – elas que são sempre narrativas do controlo – porque é sempre inatingível e auto-irónica, já que a verdade da ilusão é a imagem da sua própria simulação, e isso é, passados todos estes anos, a nova forma da disfunção do consumismo desenfreado: as imagens e os ecrãs, o clicar e gastar, os fluxos vorazes do virtual. Chegados ao fim, é por Teddy (Jesse Plemons) que torcemos…e não é que ele tinha razão !!?

