Como já virou tradição, a antecipação do programa de Cannes transformou-se, mais uma vez, num espetáculo à parte. Durante semanas, circularam previsões, confirmações e desmentidos de última hora sobre os títulos que poderiam ocupar a Croisette a partir do próximo mês. Com o anúncio finalmente feito, começa a ganhar forma um retrato mais nítido do que poderá ser esta edição.
Mesmo com a ausência de alguns títulos muito aguardados, como o novo filme de Terrence Malick (“The Way of the Wind” há anos na sala de pós produçao), e de outros dados como praticamente certos, como “Paper Tiger”, de James Gray, a seleção oficial surge, pelo menos no papel, como particularmente forte e promissora. Mas essa já foi, em certa medida, a sensação do ano passado. A diferença estará menos no impacto imediato dos nomes anunciados e mais na capacidade dos filmes de sustentar esse peso quando confrontados com o olhar das primeiras projeções.
O lineup de 2026 reforça também uma tendência já conhecida da gestão de Thierry Frémaux: a de um festival que continua a orbitar em torno de nomes seguros, apostando em realizadores “da moda”, muitos deles já em circulação por outros festivais, e numa constelação de autores recorrentes do próprio catálogo de Cannes. Talvez seja Frémaux a tentar, por enfim, dar mais sentido à sua já famosa declaração do ano passado, quando afirmou que o festival é “leal aos seus autores” ? Resta saber até que ponto essa lealdade se traduz em renovação ou apenas em repetição.
Entre os destaques da competição de 2026, a Espanha surge particularmente bem representada, com Rodrigo Sorogoyen a “subir” à competição principal com “El Ser Querido”, depois do sucesso de “As Bestas”, que passou por Cannes Premiere em 2022 e ajudou a consolidar o seu nome no circuito internacional.
Já o americano Ira Sachs apresenta “The Man I Love” depois da boa recepção crítica do seu “Peter Hujar’s Day” em fevereiro na Berlinale, coincidindo com a atual retrospectiva dedicada ao fotógrafo no Gropius Bau em Berlim. O húngaro László Nemes retorna à Croisette com “Moulin”, desta vez falado em francês, num desvio curioso após o estardalhaço de “O Filho de Saul”, que lhe rendeu o Grand Prix em Cannes em 2015. Já a austríaca Marie Kreutzer sobe à competição com “Gentle Monster”, retomando o diálogo com o festival depois do sucesso de “Corsage” (2022), novamente centrada em uma figura feminina sob pressão, agora interpretada por Léa Seydoux.
O japonês Ryusuke Hamaguchi apresenta “All of a Sudden”, mantendo uma presença contínua no circuito internacional desde “Drive My Car”, vencedor do prêmio de melhor guião em 2021, e reforçada por “Evil Does Not Exist”, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Veneza em 2023.
Uma das surpresas deste anúncio foi o retorno do belga Lukas Dhont com o seu “Coward” depois do sucesso de “Close”, Grand Prix em 2022, num retorno que quase não aconteceu, visto que foi noticiado que o filme iria ficar fora do programa por não estar pronto e acabou sendo incluído de última hora após ser visto pelo comitê na noite de ontem.
Um dos filmes mais aguardados é o novo do iraniano Asghar Farhadi, “Parallel Tales”. Doze anos após a sua estreia em língua francesa com “O Passado”, o realizador, duas vezes vencedor do Óscar, regressa a Paris com um projeto que reúne um elenco com uma grande parte do star system do cinema francês: incluindo Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney, Adam Bessa e Catherine Deneuve.
É um percurso curioso esse do realizador iraniano, que segue praticamente inabalável depois do explosivo exposé publicado pela The New Yorker em 2022, que levantava suspeitas sobre a sua proximidade com o regime iraniano e reunia uma série de acusações de plágio por parte de antigos colaboradores. Ainda assim, Farhadi continua a mover-se com uma certa imunidade dentro do circuito internacional.
E por fim, o espanhol Pedro Almodóvar traz o seu aguardado “Natal Amargo”, filme que já estreou comercialmente na Espanha, numa presença que estranhamente desloca ligeiramente a lógica de estreia mundial que Cannes costuma privilegiar.
Dentre os realizadores franceses, talvez o maior ponto de interesse recaia sobre o novo filme de Arthur Harari, “The Unknown” (“L’inconnue”). Conhecido por ter co-escrito, ao lado da companheira Justine Triet, “Anatomia de uma Queda”, Harari volta à realização com o seu terceiro longa. O realizador ganhou projeção com “Onoda: 10,000 Nights in the Jungle”, um drama de guerra sobre um soldado japonês que se recusou a aceitar o fim da Segunda Guerra Mundial, que abriu a Un Certain Regard em 2021 e acabou por se tornar uma das sensações daquela edição.
“L’inconnue” chega cercado de expectativa. O filme já foi adquirido pela Neon, que nos últimos anos ficou conhecida por ter adquirido os direitos de distribuição das últimas seis Palmas de Ouro, consolidando-se como uma das powerhouse de circulação internacional. O filme adapta a graphic novel escrita pelo irmão do realizador, Lucas Harari, “The Case of David Zimmerman”, e acompanha um homem que vê a sua vida virar do avesso ao acordar no corpo de um desconhecido. Nos bastidores, fala-se de um filme insano, já comparado com Gaspar Noé, e que terá deixado os programadores inquietos com o que viram. A confirmar-se, Harari pode muito bem tornar-se um dos nomes mais comentados desta edição.
Atores atrás das câmeras e famosas ausências
Se em 2025 Cannes acabou por se destacar pela forte presença de atores que se aventuraram na realização, com nomes como Kristen Stewart e o seu esquisito “The Chronology of Water”, Scarlett Johansson com o terrível “Eleanor, The Great” e Harris Dickinson, talvez o único a sair por cima com “Urchin”, esta edição de 2026 parece seguir um caminho semelhante, agora com nomes ainda mais estabelecidos a dar esse salto.

Depois do anúncio de “Propeller: One-Way Night Coach”, estreia de John Travolta na realização a partir do seu livro de 1997, surge também “Diamond”, novo filme de Andy Garcia. O projeto reúne Brendan Fraser, Dustin Hoffman, Bill Murray e Vicky Krieps e acompanha um homem deslocado no tempo, marcado por um passado traumático e uma habilidade incomum para resolver crimes. Trata-se do terceiro trabalho de Garcia como realizador, depois do documentário “Cachao… Como Su Ritmo No Hay Dos” (1993) e de “The Lost City” (2005).
Outro título para a Un Certain Regard é “Club Kid”, estreia na realização do ator Jordan Firstman, que chamou atenção com a comédia hitchcockiana “Rotting in the Sun”, do chileno Sebastián Silva, um dos pequenos fenómenos de Sundance em 2023. Aqui, Firstman também protagoniza o filme ao lado de Cara Delevingne e Diego Calva, numa história sobre um promotor de festas decadente cuja vida muda quando é forçado a cuidar de um filho que não sabia que tinha.
Outro destaque da Un Certain Regard é o super aguardado “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, novo filme de Jane Schoenbrun, que abre a secção após o sucesso do seu segundo filme “I Saw the TV Glow”, que passou por Sundance e Berlim. A realizadora segue explorando um território muito próprio, entre o sensorial e o desconforto identitário.
Entre as ausências mais comentadas nas semanas que antecederam o anúncio estão dois títulos que vinham sendo dados como praticamente certos: “The Entertainment System is Down”, de Ruben Östlund, e “Out of This World”, de Albert Serra. Ambos ficaram de fora por não estarem finalizados a tempo.
O festival já vinha também fazendo alguns anúncios prévios nas últimas semanas. Entre eles, a Palma de Ouro honorária para Peter Jackson e Barbra Streisand.
Já o filme de abertura será “La Vénus Électrique”, de Pierre Salvadori. Ambientado nos anos 1920, o longa marca uma mudança dentro da filmografia do realizador, que aqui se aventura pela primeira vez no cinema de época, situando a narrativa num Paris em transformação.
Confira abaixo a seleção oficial de 2026:
Competição
“Minotaur” – Andrey Zvyagintsev
“The Beloved” – Rodrigo Sorogoyen
“The Man I Love” – Ira Sachs
“Fatherland” – Pawel Pawlikowski
“Moulin” – László Nemes
“The Birthday Party” – Léa Mysius
“Fjord” – Cristian Mungiu
“Notre Salut” – Emmanuel Marre
“Gentle Monster” – Marie Kreutzer
“Nagi Notes” – Koji Fukada
“Hope” – Na Hong-jin
“Sheep In The Box” – Hirokazu Kore-eda
“Another Day” – Jeanne Herry
“The Unknown” – Arthur Harari
“All Of a Sudden” – Ryûsuke Hamaguchi
“The Dreamed Adventure” – Valeska Grisebach
“Coward” – Lukas Dhont
“The Black Ball” – Javier Ambrossi, Javier Calvo
“A Woman’s Life” – Charline Bourgeois-Tacquet
“Parallel Tales” – Asghar Farhadi
“Bitter Christmas” – Pedro Almodóvar
Fora de Competição
“Diamond” – Andy Garcia
“Her Private Hell” – Nicolas Winding Refn
“L’Abandon” – Vincent Garenq
“Karma” – Guillaume Canet
“L’Objet Du Delit” – Agnès Jaoui
“La Bataille de Gaulle: L’âge de Fer” – Antonin Baudry
“The Electric Kiss” – Pierre Salvadori
Sessões da Meia-Noite
“Colony” – Yeon Sang-ho
“Roma Elastica” – Bertrand Mandico
“Sanguine” – Marion Le Coroller
“Full Phil” – Quentin Dupieux
“Jim Queen” – Nicolas Athane, Marco Nguyen
Cannes Premiere
“Propeller One-Way Night Coach” – John Travolta
“The Samurai And The Prisoner” – Kiyoshi Kurosawa
“Visitation” – Volker Schlöndorff
“When The Night Falls” – Daniel Auteuil
“The Match” – Juan Cabral, Santiago Franco
Sessões Especiais
“Rehearsals For A Revolution” – Pegah Ahangarani
“Les Matins Merveilleux” – Avril Besson
“L’affaire Marie-Claire” – Lauriane Escaffre, Yvo Muller
“Avedon” – Ron Howard
“Les Survivants Du Che” – Christophe Dimitri Réveille
“John Lennon: The Last Interview” – Steven Soderbergh
“Cantona” – David Tryhorn, Ben Nicholas
Un Certain Regard
“Teenage Sex And Death At Camp Miasma” – Jane Schoenbrun
“Elephants In The Fog” – Abinash Bikram Shah
“Iron Boy” – Louis Clichy
“Ben’imana” – Marie-Clémentine Dusabejambo
“Congo Boy” – Rafiki Fariala
“Club Kid” – Jordan Firstman
“Uļa” – Viesturs Kairišs
“Strawberries” – Laïla Marrakchi
“The Meltdown” – Manuela Martelli
“Forever Your Maternal Animal” – Valentina Maurel
“Yesterday The Eye Didn’t Sleep” – Rakan Mayasi
“I’ll Be Gone In June” – Katharina Rivilis
“Words Of Love” – Rudi Rosenberg
“Everytime” – Sandra Wollner
“All The Lovers In The Night” – Sode Yukiko

