Cannes desvenda o “caso” Sound of Falling

O segundo filme da alemã Mascha Schilinski chega a Cannes cercado de mistério e expectativa. É o primeiro alemão em competição desde que “Toni Erdmann” roubou as atenções em 2016.
"Olhar o Sol", de Mascha Schilinski © FabianGamper_StudioZentral "Olhar o Sol", de Mascha Schilinski © FabianGamper_StudioZentral
©FabianGamper_StudioZentral

Depois de semanas de burburinho subterrâneo, sussurrado nos corredores e cobiçado nos mercado de “work in progress” ainda antes do anúncio oficial da seleção em Cannes, In Die Sonne Schauen, ou pelo título em inglês pelo qual será conhecido, Sound of Falling, segundo longa da berlinense Mascha Schilinski, abriu ontem a competição principal de Cannes. Com isso, o festival revela um dos títulos mais aguardados da sua 78ª edição. O nome do filme, aliás, é uma história à parte: alterado pela distribuidora m2k por ser considerado “invendável”, acabou provocando reação até de Thierry Frémaux, diretor artístico do festival, durante o anúncio do programa em abril, quando lamentou publicamente a mudança. “O nome anterior era tão bonito… por que mudaram?”. Frémaux referia-se ao poético The Doctor Says I’ll Be Alright but I’m Feelin’ Blue – título que, por alguns dias, chegou até a constar na página do filme no site oficial de Cannes.

Outro rumor que circulava pelos bastidores, e que ganhou força após a inclusão do filme no programa de Cannes, é o de que ele estaria originalmente confirmado para a competição da Berlinale em fevereiro, mas que teria sido “roubado” por Cannes pouco antes do anúncio oficial de Berlim. O episódio espalhou-se como rastilho de pólvora. A princípio, teria sido convidado para a paralela Un Certain Regard, até ser promovido à competição principal. A história não é exatamente inédita no universo dos festivais, mas todo esse burburinho ao redor de The Sound of Falling contribuiu para que o filme chegasse à Croisette cercado por uma aura de mistério e um certo halo mitológico.

Agora, revelado ao público, o filme talvez não seja a obra-prima que muitos esperavam, mas é, sem dúvida, um dos mais curiosos e intrigantes filmes a abrir a competição de Cannes em anos. Mais do que isso, é um gesto de linguagem, um caso pouco usual para um “filme de competição” em Cannes. Movendo-se entre os contornos épicos do filme de época e de uma narrativa mais experimental, a obra se lança numa tentativa real de invenção formal, tentando criar a sua própria linguagem. Mascha Schilinski, até então uma presença discreta no cinema alemão, havia estreado com Dark Blue Girl em 2017, na extinta seção Perspektive Deutsches Kino da Berlinale, e agora é alçada à uma das grandes revelações desta edição, já no seu primeiro dia.

A estrutura do filme é um stream of consciousness de vozes, gestos e imagens que atravessam quase um século na vida de quatro mulheres ligadas a uma mesma fazenda na região de Ollmark, na Saxônia do Norte, uma localidade que, não por acaso, é hoje reduto da extrema-direita alemã. Esse espaço, rural, isolado, quase suspenso no tempo, é o ponto de ancoragem de uma narrativa que pula décadas, troca de corpos e muda de vozes sem aviso, guiada por um fluxo associativo que imita mais a lógica da memória do que a da narrativa tradicional.

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É um filme sobre desejo, mas o que mais persiste é a sensação de que estamos diante de uma investigação sobre o olhar: o olhar do outro, o olhar do cinema. Sempre com a morte à espreita. Filmes como As Virgens Suicidas ou O Laço Branco vêm à mente, mas The Sound of Falling não os replica, apenas compartilha com eles a inquietação. As mulheres do filme não são propriamente retratadas, são evocadas. Vistas através de janelas e portas, às vezes desfiguradas como uma fotografia amarelada pelo tempo . Elas existem como presença e como ausência, como imagens que resistem à nomeação.

Nesse sentido do olhar sobre o corpo das mulheres, o filme não se pretende fazer de um repúdio ao male gaze – ele o expõe em sua impotência. Esse olhar que deseja, que observa, que constroi imagens do outro, mas que nunca alcança a verdade. O que resta é um mal-estar suave, um desconforto elegante: o desejo como tentativa frustrada de possuir o que, por definição, não pode ser possuído: a subjetividade de alguém.

A não linearidade da montagem, que poderia ser mero artifício, aqui serve à construção de uma temporalidade própria, intuitiva, quase onírica. O filme não oferece explicações psicológicas. Ao contrário, amplia o mistério. As personagens permanecem opacas, não por falta de complexidade, mas por excesso de projeção. Elas são todas e nenhuma. O que parecia voyeurismo vira espelho: um cinema que devolve ao espectador o vazio de sua própria fantasia.

The Sound of Falling é o primeiro longa alemão em competição oficial em nove anos, desde que outro segundo filme de uma outra realizadora alemã, Toni Erdmann, de Maren Ade, abalou a croisette em 2016 e monopolizou as atenções do festival, transformando Ade – que, aliás, retorna este ano como presidente do júri das curtas – numa sensação da noite para o dia.

Que The Sound of Falling, esse pequeno acontecimento de Schilinski agora lançado ao mundo, venha a ocupar o mesmo lugar de descoberta que Toni Erdmann ocupou em 2016, parece improvável. Ainda assim, trata-se de um belíssimo filme, com um olhar profundamente político, mesmo que por vezes se perca em certos maneirismos do chamado “filme de arte”. Superada essa distração, porém, ele recompensa com generosidade quem aceita lhe dedicar a atenção exigida ao longo de suas quase três horas. Basta olhar com calma e deixar-se perturbar.