Cannes vai ao delírio com Östlund e o seu “Triangle of Sadness”, mas quem brilha mesmo é outro escandinavo: “Sick of Myself”

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Depois da Palma de Outro em 2017, o sueco retorna à competição de Cannes com o seu muito aguardado Triangle of Sadness, de onde saiu ovacionado pelo público do festival ontem a noite. Mas foi um outro filme da escandinávia, o Sick of Myself de Kristoffer Borgli que levou a melhor.

Não é exagero dizer que Ruben Östlund está fazendo o mesmo filme há anos, pelo menos desde o seu hilariante Force Majeure de 2014. O realizador sueco parece que soube bem como surfar a onda daquele momento, um pré #metoo que revelava as fragilidades de uma masculinidade anacrónica e caricata. O filme foi um sucesso tão grande que até teve um remake americano com Will Ferrel e Julia Louis-Dreyfus.
Três anos depois ele voltaria ao mesmo tema, com o seu
O Quadrado, só que desta vez também adicionando um comentário mordaz à certa elite intelectual e elaborando um retrato impiedoso sobre uma guerra de classes. a fórmula deu certo e ele acabou por levar a palma de ouro em Cannes em 2017 e com isso se alçar ao estatuto de grande autor, juntando-se aos A-list.

Por isso mesmo, havia muita expectativa com o seu novo Triangle of Sadness, que o realizador apresentou ontem à noite em competição. O resultado foi um sucesso, claro, com a imprensa internacional dando conta da quantidade de minutos que o filme foi aplaudido (oito, dizem eles) e alguns até gritando ao ecrã “palm d’or!”. 

O filme enche os olhos, não negaremos, não só pela sua plástica ostentadora mas por fazer parte daquela liga de “cinema do desconforto” do qual foi feito os seus melhores filmes e ao qual o cinema do sueco se engavetou. No entanto, esta “fórmula” sabichona, que quer explorar assuntos trendy, e ser a que expõe as hipocrisias do mundo, agora soa um pouco falsa.

E Östlund quer colocar o espectador num beco sem saída. Para isso ele enche o seu filme de pessoas odientas e espera que nós nos juntemos a ele no seu sermão pedante e moralista. O ensemble piece que ele criou podia bem se chamar Feios, Porcos e Maus, dado como pune os seus personagens de forma implacável e renegando-lhes qualquer traço de simpatia. Um pouco quase como já era em O Quadrado.

Deste conjunto de personagens, ele se foca principalmente num casal: Carl (Harris Dickinson) e sua namorada Yaya (Charlbi Dean). Eles ganham a vida como modelos, exibindo uma vida de excesso e (falso) glamour, dentro e fora do Instagram. Ela é superficial e manipuladora e numa cena enquanto estão a mesa, faz uma selfie com um prato de pasta, mas depois se recusa a dar uma única garfada, visto que é, diz sem nenhum traço de ironia “intolerante ao glúten”. Carl é carismático e inseguro, e capaz de algumas das ações mais inesperadas e questionáveis quando se sente ameaçado.

Eles são meras marionetas nas mãos do sueco, que é incapaz de lhes dar qualquer profundidade. Mas Östlund é esperto, pois aprendeu muito bem como manipular a audiência com a sua verborragia cínica, sempre dando uma piscadela de olhos ao espectador como se quisesse dizer que está do lado dele.
O filme é composto de uma série de sketches de humor negro, onde o realizador meio que faz uma mistura dos seus dois filmes anteriores. Teve gente até a chamar os três filmes de “trilogia sobre a masculinidade tóxica”.
Mas não é bem por aí. A primeira parte de Triangle of Sadness é menos sobre homens se expondo (mais uma vez) ao ridículo mas também uma resposta enraivecida aos “excessos” do #metoo.

Veja-se a cena que o casal central envolve-se numa briga num restaurante porque Carl não quer ser ele a ter sempre de pagar a conta, fazendo o “papel do homem”. Yaya ganha mais que ele, então é mais que justo que dividam a conta. No entanto, a namorada não se propõe a dividi-la porque, na verdade, não quer reverter os gender roles a que está tão acostumada. Segundo ela, “falar de dinheiro não é sexy”.
O episódio culmina numa briga épica entre os dois, e dá o tom de “subversão das regras” que Östlund quer estabelecer durante as duas horas e meia de filme.  Ao mesmo tempo que o sueco quer se interrogar acerca dos códigos que regem os papéis de géneros, ele parece também querer expor uma certa hipocrisia feminista, sugerindo que o problema do sistema patriarcal é também culpa das mulheres. 

Na segunda parte do filme, ele se dedica a expôr os super ricos e os códigos do poder. E é quase como se ele se tivesse orgulhoso de si próprio, vivendo o seu momento Alexandria Ocasio-Cortez com a frase “Tax the rich” imprimida no vestido. Cena após cena, o sueco não consegue esconder o quão enamorado está com os seus “temas”.

Por exemplo, num determinado momento Carl reclama à gerente do cruzeiro que há um funcionário do navio que está a trabalhar sem camisa, o que é, pois claro, “inapropriado”. Só que ele o faz enquanto está ele próprio de peito nu.  Pegou a ironia?
Em outra cena mais adiante, numa conversa entre uma milionária russa (que está dentro da sua jacuzzi) e uma funcionária do navio, a primeira diz à última que no fundo no fundo, “somos todos iguais”. Mensagem esta que vimos anteriormente num fashion show onde a frase WE ARE ALL EQUAL aparece ao fundo da passarela, momentos depois de um grupo de pessoas não tão famosas serem retiradas da primeira fila onde estavam sentadas.

Quer dizer, não é que haja algo de propriamente errado em expôr as hipocrisias contemporâneas, onde os super ricos estão absolutamente alheios ao que se passa fora das suas existências de privilégio. Não de todo. Mas a forma repetitiva e petulante como Östlund o faz, nos faz crer que é como se ele acreditasse ter descoberto a pólvora. Quando ele está na verdade, a dizer tudo o que já sabemos.

Não precisamos nem ir muito longe, a divertidíssima série da HBO The White Lotus do ano passado, fez exatamente o mesmo, e de forma muito mais mordaz, sincera e perspicaz.

O que aconteceria da mistura de Östlund e Cronenberg? 

No entanto um outro sueco que estreou discretamente na seção Un Certain Regard saiu-se melhor do que o conterrâneo mais famoso Östlund: é o Kristoffer Borgli e a sua vibrante estreia na direção Sick of Myself (ou Syk Pike no original em sueco). A história sobre um casal de narcisistas que, navegando no mesmo universo da elite liberal dos filmes de Östlund, vivem numa constante competição um com o outro.


O ponto de partida se dá quando Thomas (Eirik Sæther) começa a ficar famoso por causa do seu trabalho como artista contemporâneo e como resposta, a namorada Signe (Kristine Kujath Thorp) resolve elaborar um plano mirabolante numa tentativa desesperada de chamar mais atenção a si.

Borgli vinha construindo uma invejável carreira com seus curtas se tornando verdadeiros sucesso de público em festivais como Sundance, como o Former Cult Member Hears Music For The First onde o realizador se propunha a fazer um comentário ácido sobre a forma como consumimos arte e sobre a espetacularização do horror. Onde já vimos isso anteriormente? Precisamente em O Quadrado do colega Östlund!
Depois do sucesso de Former Cult em Sundance seguiu-se o fabuloso curta Eer que o realizador gravou em dois dias, numa espécie de laboratório – e um teaser, para a sua estreia na realização,
Sick of Myself. 


Portanto, era só uma questão de tempo para chegarmos ao seu promissor filem de estreia, onde ele consegue fazer uma mistura inesperada mas original e pujante entre os “sketches do desconforto” de Östlund com o body horror do mestre David Cronenberg, que aliás, apresentará o seu muito aguardado Crimes of the Future aqui em Cannes na segunda-feira, e o qual Borgli admite como referência principal no seu trabalho.


A boa notícia é que
Sick of Myself bebeu muito mais de A Mosca aqui do que provavelmente de Östlund, mas as comparações são sempre fáceis e redutoras, pois o seu filme é muito mais do que isso. Através de uma série de episódios que tem por fim expor a natureza tóxica do relacionamento entre Signe e Thomas, Borgli constrói um retrato desconfortável e cruel – e muitas vezes incrivelmente hilário, de uma mente obsessiva que já não consegue distinguir entre fantasia e realidade. O nível de instabilidade e horror que está o estado mental de Signe não é apenas a expressão de uma sociopatia profundamente enraizada, mas o resultado das dinâmicas do que acontece diretamente à sua volta, sugerindo que o mundo que habitamos anda muito mais doente e decrépito do que suspeitávamos.

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