Eu nunca pensei ter que vir dizer isto sobre um dos maiores estúdios de animação, e pessoalmente um dos que mais admiro. Mas, infelizmente, sou obrigado a concordar com a maioria das críticas feitas ao mais recente filme da Pixar. “Carros 2” é a pior produção do estúdio. Depois de dez filmes com enorme sucesso, uns melhores do que outros, mas todos eles com qualidade e boas histórias, eis que chega o momento de o império da Pixar ceder. Também não é o fim do mundo, pois este estúdio, que comemora este ano 25 anos com doze longas-metragens, onze são excelentes.

Confesso que nunca gostei muito do primeiro “Carros” (2006), sempre achei-o um dos mais fracos do estúdio. Carros que falam, nunca me convenceu. Mesmo assim o filme era razoável. Mas a Pixar lá achou que merecia uma sequela, pelo que criaram o “Carros 2”, desta vez, no mundo da espionagem, cheio de ação.

Lightning McQueen, deixa de ser o protagonista do filme e passa-o para o seu melhor amigo, Mater. McQueen percorre o mundo a disputar corridas com os melhores carros do mundo. Entretanto, Mater, que é confundido por um agente secreto, vê-se envolvido num esquema de espionagem internacional, com a ajuda de Finn McMissile e Holley Shiftwell. Juntos viajam pelo Japão, França, Itália e Inglaterra para salvarem o mundo de um ataque terrorista.

Ora aqui está um dos grandes problemas do filme, a narrativa. Para além de não ser nada original, usa constantemente muitos clichés dos filmes de espionagem. Quantas vezes já vimos os heróis a serem presos na Torre de Londres ou a rainha de Inglaterra ser ameaçada por uma bomba. O filme tenta um pouco parodiar com isso, mas nem isso consegue. Uma história fraca, vulgar, com pouco humor (pessoalmente só devo ter dado duas gargalhadas e na sala quase ninguém se ria) e muito previsível. A certa altura o filme perde o ritmo que deveria ter e torna-se aborrecido. A aposta na personagem Mater parecia ser uma boa ideia, pois no primeiro filme, era a personagem mais divertida. Não é que em “Carros 2” não seja também, mas há alguns momentos em que a personagem cansa e perde a piada. E não há evolução nas personagens, apenas em McQueen, que aprende a dar valor aos amigos e a respeitar aquilo que eles são.

A nível técnico é o único aspecto positivo do filme. Mais uma vez a Pixar mostra que domina a técnica de desenho feito a computador, com cenários muito realistas e bem fotografados. As cidades pareciam reais, nota-se que o estúdio captou bem o ambiente e a luz de cada cidade. Tóquio com as suas luzes de neon, a pequena cidade italiana com um ambiente mais quente e aconchegante e Londres com o céu cinzento. Continua a deslumbrar visualmente. E há ainda boas cenas de ação, com muitas explosões. Mas isso não chega. Já sabemos que o estúdio domina estas técnicas, melhor do que ninguém e que de filme para filme aperfeiçoam sempre. Um bom argumento sempre foi a base de um filme, a diferença entre um bom e um mau filme.

“Carros 2” simplesmente não está ao nível do que a Pixar nos foi habituando ao longo de 25 anos. Não era necessário que baixassem de qualidade, sinceramente não se percebe este “descuido” por parte do estúdio. Sempre tão preocupado em contar boas histórias de forma a que agrade a todos. Agora espero que com esta recaída do estúdio, aprenda uma lição – não apostar em sequelas. E vocês pensam: mas “Toy Story” teve uma direito a três filmes. Pois, mas “Toy Story” é uma obra completamente diferente de “Carros”, com um argumento muito mais desenvolvido, personagens cativantes e inteligentes e fortes mensagens. E a Pixar podia ter feito sequelas em muitos mais outros filmes, mas não o fez, e ainda bem! Porque normalmente as sequelas são piores que os originais. No caso de “Toy Story”, por acaso, aconteceu que o último foi o melhor dos três.

Espero que o próximo filme do estúdio seja tão bom como os outros 11. “Brave” estreia em 2012 e terá pela primeira vez uma heroína como protagonista, ambientado em terras escocesas. E mais tarde em 2013, a Pixar vai investir noutra sequela, desta vez de “Monstros e Companhia”, um dos filmes mais apreciados pelo público e crítica. Vamos lá ver como corre.

“Carros 2” é sem dúvida um filme que irá agradar apenas aos mais novos, ao contrário do que acontecia com os outros filmes da Pixar e quase de certeza não será filme para ganhar um Óscar, variando um pouco. É triste ver um estúdio como a Pixar cometer erros destes, mas como é o primeiro (erro), estão perdoados!

Realização: John Lasseter, Brad Lewis

Argumento: Ben Queen, John Lasseter

Elenco: 

EUA/2011 – Animação

Sinopse: Relâmpago McQueen, a sua equipa e novas personagens percorrem o mundo na Corrida dos Campeões (World Grand Prix), que decorrerá em cinco países diferentes: Japão, Alemanha, Itália, França e Inglaterra. No entanto, Mate, envolvido numa confusão de identidade, salva a vida de um agente secreto britânico: Aston Martin, chamado Finn McMissile, e acaba envolvido num esquema de espionagem que dura 24 horas.

«Carros 2» - Um grande descuido da Pixar
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