Em 2005, António Lobo Antunes tomava a decisão de tornar pública uma parte da sua privacidade, ao publicar o volume “D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto: Cartas da Guerra” – uma compilação da correspondência trocada com a sua primeira esposa, Maria José, quando esteve na Guerra Colonial (1961 – 1974), destacado em Angola, entre 1971 e 1973. É este o material-base para “Cartas da Guerra”, que se apresenta como uma interpretação e como a terceira longa-metragem do realizador, Ivo M. Ferreira, que há muito desejava trabalhar este capítulo da História de Portugal, mas de um modo que escapasse aos arquétipos e aos modelos pré-estabelecidos do cinema que aborda confrontos bélicos. A ideia de transportar para filme estas memórias autobiográficas de António Lobo Antunes, surgiu quando um dia, ao chegar a casa, presenciou a sua esposa, Margarida Vila-Nova, a recitá-las para o seu ventre grávido do primeiro filho do casal. Este paralelismo de biografias é apreendido pelo espetador do filme – a vida do realizador entrelaça-se com a do escritor lisboeta.

A estória inicia-se no ano de 1971, quando um António (Miguel Nunes) de 28 anos é incorporado no exército português como médico no Leste de Angola, em plena Guerra Colonial, deixando em Lisboa a sua esposa grávida, Maria José (Margarida Vila-Nova), com quem troca apaixonadas cartas, diariamente e durante dois anos. Estas cartas – as escritas por Lobo Antunes e as respetivas respostas que lhe chegam – servem de narração à cena, pela voz omnipresente de Margarida Vila-Nova, contudo num tom demasiado lânguido e, frequentemente, monocórdico para se tornar sublime, tocando, por demasiadas vezes, a monotonia e o enfado durante os 105 minutos de duração, e não fazendo a merecida justiça à beleza cruel e erótica, até, da palavra escrita de Lobo Antunes na sua saudosa correspondência para sua esposa amada, uma tarefa ambiciosa, quase herculiana, para qualquer ator.

“Cartas da Guerra” pretende explorar o lado humano, a solidão, o desespero, o trauma, o medo, a angústia, a raiva, a incerteza de não regressar e a esperança em regressar, não apenas do próprio António Lobo Antunes – que encontra na escrita um escapismo aos horrores do confronto bélico para o qual o Estado Novo o arrastou –, mas daqueles homens anónimos do seu pelotão, forçados a partir para uma guerra na qual ninguém acredita e na qual ninguém quer combater, senão pela própria sobrevivência, na certeza de que não existem heróis. O sentimento de descrença é uma constante presente nos desabafos entre os personagens.

Porém, frequentemente, “Cartas da Guerra” fica-se pela promessa da pretensão: a atmosfera é demasiado anestesiada para recriar com veracidade um ambiente de guerra – o desenrolar da ação é lento e foca-se excessivamente em planos paisagísticos, o que quarteja ao espetador a apreensão das emoções violentas dos personagens, uma vez que

é esse «lado humano» que interessa explorar. Os alívios cómicos protagonizados por alguns personagens, entre as quais Major M (Ricardo Pereira), caem na caricatura, pelo que a sua inexistência poderia ter sido uma mais-valia.

Nem tudo é negativo – o que me faz ter uma opinião muito bipolarizada acerca de “Cartas da Guerra”, que, por vezes, consegue cativar o espetador, e noutras, torna-se fastidioso. Miguel Nunes é o ator com a personagem mais desafiante do elenco – o próprio António Lobo Antunes – que interpretou com uma melancolia bela e pose de estátua, como um silencioso testemunho de tudo aquilo, constantemente imerso nos seus escritos e no amor da sua esposa, aos quais se agarra para não perder a sua sanidade. Esteticamente falando, “Cartas da Guerra” é um assombro de beleza, um banquete para os olhos, devido à excelente fotografia com direção de João Ribeiro. A utilização do preto-e-branco torna a ação mais romantizada, e foi justificada pelo próprio realizador, Ivo M. Ferreira, como um mecanismo para «criar um filtro de distanciamento em relação à realidade do material de origem». Contudo, impera a questão: pode um filme acerca dos horrores da carnificina ser belo? Ivo M. Ferreira fá-lo com sucesso.

Em conclusão, Ivo M. Ferreira escapa, de fato, aos arquétipos do «cinema de guerra», contudo um projeto tão ambicioso quanto este exige um grau de maturidade que não se verificou. Vem nesta onda do cinema virado para questões das «antigas colónias» (no vocabulário oficial do Estado Novo, as chamadas «províncias ultramarinas», mas não entremos em pormenores historiográficos), como “Tabu” (2012) de Miguel Gomes e, o mais recente, “Palmeras en la Nieve” (2016) de Fernando González Molina. Com a limagem de algumas arestas, “Cartas da Guerra” seria magistral. Infelizmente, não o foi.

Realização: Ivo M. Ferreira
Argumento: Ivo M. Ferreira, Edgar Medina
Elenco: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira
Portugal/2016 – Drama
Sinopse: 1971. António vê a sua vida brutalmente interrompida quando é incorporado no exército português, para servir como médico numa das piores zonas da Guerra Colonial – o Leste de Angola. Longe de tudo que ama, escreve cartas à mulher à medida que se afunda num cenário de crescente violência. Enquanto percorre diversos aquartelamentos, apaixona-se por África e amadurece politicamente. A seu lado, uma geração desespera pelo regresso. Na incerteza dos acontecimentos de guerra, apenas as cartas o podem fazer sobreviver.

«Cartas da Guerra» – Uma estranha placidez em tempos de carnificina
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