Terrence Malick é um realizador assombroso. São dele filmes como “Noivos Sangrentos”, “Dias do Paraíso”, “A Barreira Invisível”, “Novo Mundo” ou “A Árvore da Vida”. Entre 1973 e 2011 Malick realizou apenas estes 5 filmes, e que filmes! Cada um deles é uma Obra com “O” grande e qualquer um seria suficiente para deixar o seu nome inscrito entre os grandes. Mas qualquer coisa aconteceu em Malick nos últimos anos. Começou em “A Árvore da Vida” onde, apesar de ser um filme enorme, já se nota uma certa queda para uma grandiosidade over-the-top, mas aqui essa sua veia epopeica é justificada – “A Árvore da Vida” trata isso mesmo, a vida, em toda a sua essência e por isso mesmo, não podia ser outra coisa que não épico. Com o sucesso do filme, com o qual ganhou novas audiências, Malick achou que tinha encontrado uma fórmula mágica, e desde então já fez (fez dois e tem mais dois por estrear) quase tantos filmes como tinha feito em 38 anos. O problema é que essa fórmula não é tão mágica como Malick pensa, e a prova disso são os filmes que nos tem apresentado desde então. Primeiro com “A Essência do Amor” e agora com “Cavaleiro de Copas”.

E o problema com “O Cavaleiro de Copas” resume-se muito simplesmente a isto: não tem conteúdo suficiente, o seu tema não chega a ser uma problemática. Não falo em clímax, inicio, desenvolvimento ou desfecho, falo em história, em essência. O filme é um vazio cheio de imagens e movimentos magistrais e palavras soltas, sim porque Malick parece que se esqueceu que para construiu uma frase precisa de mais do que uma palavra; “Stay”, “Begin”, “Why?” são tudo o que ouvimos em 118 minutos de um filme que, infelizmente, apenas nos cativa pela beleza da sua estética. A abertura do filme é particularmente bela com a recitação de um excerto de “O Peregrino” pelo já falecido Sir. John Gielgud, e belíssimas imagens da aurora boreal que marcam a introdução de Rick, caminhando sozinho numa paisagem deserta. Interpretado por um Christian Bale que, como sempre, se limita a cumprir, Rick é a personificação do “herói” da história que alimenta o filme, a lenda do cavaleiro que vem do Oriente, enviado pelo pai em busca de uma magnífica pérola, mas que bebe de uma taça marcada pelo destino, caindo num sono profundo. Rick é um homem que aparentemente tem tudo: rico, atraente, bem-sucedido, mas que caiu no sono profundo de uma vida que não reconhece como sua “Todos aqueles anos a viver a vida de alguém que não conhecia”; uma vida que vamos conhecendo à medida que o filme se vai dividindo em capítulos e personagens inspirados nas cartas do Tarot. A vida da qual Rick tenta fugir, a de bom vivant com todos os excessos e leviandades do costume, incapaz de manter uma relação amorosa minimamente estável, com uma relação conflituosa com a família (destaque para a interpretação de Brian Dennehy) é, em geral, de uma absoluta superficialidade.

É um filme, mais um, sobre o existencialismo, e neste caso sobre a apatia que se vai apoderando de nós enquanto seres mundanos, e talvez seja esta a forma que Malick encontrou para nos transmitir essa apatia da existência humana. O problema é que por muito que tentemos enquanto espectadores participar, aquilo que Malick nos dá em termos de conteúdo é insuficiente; simultaneamente, dá-nos demasiado daquela sua beleza poética que quando é demais enjoa, e aqui é claramente demais. Talvez se Malick não tentasse tanto embelezar o filme, e apostasse mais nas personagens, nas relações entre elas, na sua profundidade, talvez assim, conseguiríamos extrair um pouco mais de substância, mas assim, assim é só forma, é só beleza visual e uma apatia que não convence muito.

Acreditem que está a ser para mim muito penoso escrever desta forma tão pouco abonatória sobre Malick ou sobre os seus filmes uma vez que este foi, até a “Árvore da Vida”, um dos meus realizadores favoritos. Mas, para mim, tal como Kim Ki-Duk, Tsang Ming Liang ou Wong Kar Wai (outros meus predilectos) Malick também se “perdeu” na sua própria dialéctica; e perdeu-se porque, ao contrário de, por exemplo, David Lynch, não soube parar quando deixou de ter coisas para dizer, e, verdade seja dita, depois de “Árvore da Vida” pouco mais poderia ser dito.

Realização: Terrence Malick
Argumento: Terrence Malick
Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman
EUA/2015 – Drama
Sinopse: Esta era a história que contavam a Rick na sua infância…. Agora, Rick é um escritor de comédia que vive em Santa Monica. Anseia por algo diferente, algo mais do que a vida que conhece, sem saber muito bem o quê ou como partir para o encontrar. Não sabe para que lado se virar. A morte do seu irmão, Billy, paira sobre ele como uma sombra. O seu pai, Joseph, carrega um sentimento de culpa pela morte de Billy. Outro irmão, Barry, numa maré de azar, mudou-se recentemente do Missouri, onde cresceram, para Los Angeles. Rick tem ajudado o irmão a superar esta fase. Rick procura distração na companhia de mulheres: Della; Nancy, uma médica com quem foi casado; uma modelo chamada Helen; Elizabeth, uma mulher que ele engravidou; uma stripper chamada Karen; e Isabel, uma jovem que o ajuda a olhar para o futuro. As mulheres parecem saber mais do que ele próprio. Elas trazem-no para o coração das coisas, mais perto do mistério. As drogas não acrescentam nada. As festas, os engates, a carreira… nada o satisfaz. E no entanto, cada mulher e cada homem que conheceu ao longo da sua vida serviu-lhe, de alguma forma, de guia, de mensageiro. A estrada para Este estende-se diante dele. Será que ele vai avançar? Vai faltar-lhe a coragem? Irá manter-se acordado? Ou será que tudo não vai passar de um sonho, uma esperança, uma passagem imaginária? A viagem ainda agora começou.

«Cavaleiro de Copas» - A confirmação do declínio de Malick
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