Há a obra, e há o escândalo. Em “Rafiki” sucede que o segundo precede o primeiro, o que é um infortúnio- mas já lá irei. Banido no seu próprio país de origem pelo “mote homossexual e manifesta intenção de promover lesbianismo no Quénia, em oposição à lei”, “Rafiki” é uma obra cuja existência é por si só milagrosa.

É consequência habitual da polémica que se elevem as expetativas pré-visualização para níveis estratosféricos. Eu não sabia ao certo o que esperar, mas antecipava uma obra contestatária, uma afronta. Quiçá um ou outro momento provocatório reminisciente daquelas cenas de “A vida de Adèle”; uns instantes dedicados a grupos de ativismo pró-direitos LGBTQ+, ao estilo de “120 BPM”; ou talvez um piscar de olhos ao documentário icónico de Jennie Livingston sobre voguing, prática inerentemente negra e drag. Falhei redondamente nas minhas presunções. Não observei nada disto, observei tão simplesmente duas raparigas a apaixonarem-se inocente e despretensiosamente. Deverei frisar que mesmo que a obra incluísse momentos como os descritos acima, a sua censura seria sempre injustificável, mas sem estes momentos torna-se ainda mais incompreensível. Reitero a premissa base que serve de mote ao filme: são só duas raparigas a apaixonarem-se – e o descalabro subsequente. O intolerável para os membros do KFCB (Kenya Film Classification Board) terá sido o final, uma vez que continha esperança. Foi nesse sentido que Wanuri Kahiu, a realizadora, foi convidada a recriar o fim, nomeadamente a torná-lo pejado de arrependimentos, para que a sua visualização fosse considerada apropriada. É evidente que Kahiu se manteve fiel à sua visão, referindo estar particularmente alerta para a troupe cinematográfica de narrativas queer trágicas, e querendo distanciar-se disso o mais possível.

Assim o fez, ao criar um filme descontraído, amoroso e pincelado de cores primárias, que a própria enquadrou no estilo/movimento “Afrobubblegum”, que se dedica a contar histórias africanas “alegres, vibrantes e superficiais”. Inspirada no conto “Jambula Tree” da ugandesa Monica Arac de Nyeko, Kahiu pretendia contar uma história de amor entre duas pessoas africanas, reivindicando esse género cinematográfico para os seus. É uma narrativa intensamente africana, queniana especificamente, com múltiplas artistas locais envolvidas na sua criação, nomeadamente ao nível da banda sonora original, que conta com a contribuição da veterana Muthoni Drummer Queen, mas também de newcomers como Njoki Karu e Mumbi Kasumba.

Kahiu reiterou sucessivas vezes a sua intenção de abolir o pathos ocidental que domina o conteúdo cinematográfico produzido no continente. Rejeita com veemência a representação de África como um local de pobreza, limitado à satisfação de necessidades básicas. Nesse sentido, Kahiu recriou o célebre Teste de Bechdel. A versão da realizadora contempla critérios diferentes, que colocam em foco questões raciais em detrimento de questões de género. Especificamente a presença de pelo menos duas personagens de etnia africanas, saudáveis, sem constrangimentos económicos nem necessidade de serem salvas e, talvez o critério de maior relevo, felizes. “Rafiki” cumpre e transcende estas condições, presenteando-nos com uma história universal, isenta de vieses.

Uma vez concluída a obra, Kahiu debateu-se pela sua divulgação, inclusive nos tribunais. A batalha judicial, realizadora versus governo, foi vencida ela primeira, o que significou que o filme foi efetivamente distribuído em território queniano durante um período limitado de sete dias. Foram sete dias de sessões completamente esgotadas, filas intermináveis e multidões de quenianos a exigir o lançamento regular do filme. Na altura a comunicação social enquadrou a proibição num contexto nacional e pouco específico, omitindo por vezes que a decisão foi estritamente política. Importa enfatizar a unilateralidade da proibição e realçar que os quenianos pretendiam ver o filme, tendo-se inclusive manifestado nesse sentido. A atual geração fervilha, diz Kahiu, e anseia por mais – chegou o tempo da AFROBUBBLEGUM.