Cinemas fecham portas por todo o país

Desde a última semana de janeiro que se tem falado muito sobre o encerramento de 49 das 106 salas de cinema por todo o país, que a exibidora Socorama Castello-Lopes detém. São cerca de metade das salas da Castello-Lopes que já fecharam portas, tendo levado ao despedimento de 75 trabalhadores. Há casos verdadeiramente alarmantes de regiões de Portugal sem um único cinema comercial, como é o caso de Viana, São João da Madeira, Covilhã, Leiria, Loures, Seixal, Guia e Ponta Delgada (os Açores ficam assim sem cinemas comerciais). Estes 49 cinemas multiplex já não exibem filmes desde o dia 31 de janeiro.

 

Até então, em todo o país existiam cerca de 540 salas de cinema, passando agora a existirem menos 49, ou seja, 491 salas. Segundo os dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), em 2011 foram ao cinema cerca de 15,7 milhoes de espectadores, obtendo uma receita bruta de 79,9 milhões de euros. Em 2012 houve uma redução de 12% no número de espectadores, cerca de 13,7 milhões, e uma redução de 8% na receita bruta, 73,8 milhões de euros. No caso particular da exibidora Castello Lopes, segundo os dados do ICA, o número de espectadores em 2012 foi de 2.269.208 (-14,2% do que em 2011) e uma receita bruta de 12.608.260,20€ (-12,3% do que em 2011). Houve portanto uma grande quebra de receitas e de espectadores do segundo maior exibidor do país. Como é sabido, o líder de exibição cinematográfica é a a ZON Lusomundo (os representantes do dinheiro americano), que irá certamente ganhar alguma coisa com estes encerramentos. A ZON Lusomundo assume portanto um vasto controlo do monopólio dos cinemas portugueses, escolhendo que tipo de filmes devem passar nas salas, sendo eles maioritariamente americanos, ou melhor, de Hollywood. Existe uma concentração da distribuição que deve ser urgentemente pensada.

 

“Os portugueses vão menos ao cinema. Descarregam da net”. A crise, o aumento do desemprego e o aumento do preço dos bilhetes de cinema são algumas das possíveis razões que levam a encerrar cinemas. Deste modo, é natural que a pirataria online aumente e bastante. É um facto que há menos portugueses a irem aos cinemas. Mas também é verdade que há mais espectadores a irem ver cinema português, sendo que em 2012 estrearam 29 longas-metragens de produção nacional (seis a mais do que em 2011), tornando-se no ano em que mais filmes portugueses estrearam e segundo os dados do ICA (até 31 de dezembro de 2012), a produção nacional cinematográfica estreada em 2012 em Portugal foi vista por 756.298 espectadores. Este é até hoje o melhor resultado de sempre para o cinema português, que superou os dados de 2005.

 

Não é novidade nenhuma vermos cinemas a fecharem portas, infelizmente. Nas duas últimas décadas encerraram dezenas, se não mesmo milhares, de salas de cinema independentes e também comerciais por todo o país. Muitas cidades e vilas apenas conseguem manter uma regular exibição de filmes graças aos cineclubes. Os Cineclube de Guimarães, Viseu e Aveiro são dos mais ativos do país, com regular exibição, criação de workshops, ciclos de cinema e contacto com escolas, graças a um grande número de sócios que contribuem para que estas instituições continuem em funcionamento. É de louvar o enorme trabalho de alguns cineclubes, que apesar das enormes dificuldades financeiras que atravessam, conseguem transmitir um grande amor pela sétima arte às populações locais.

 

O Porto é um caso onde não se entende para onde foi o público de cinema. “Que segunda cidade do país é esta que já teve um dos maiores cineclubes da Europa e onde agora há pessoas para tudo, menos para o cinema?” (1).

 

Foi na cidade do Porto que nasceu o cinema português em 1896, apenas um ano depois dos irmãos Lumière terem apresentado o cinematógrafo em Paris, pelas mãos de Aurélio Paz dos Reis. Este realizou a “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, tornando-se no primeiro filme português. Em 1912 surge, no Carvalhido, os estúdios da Invicta Film, que viriam a tornar-se num dos maiores e mais bem equipados estúdios de cinema da Europa. Nos anos 20 a indústria cinematográfica portuguesa cresceu muito, graças aos estúdios da Invicta, pois atraíram técnicos e realizadores estrangeiros de toda a Europa, como Rino Lupo e George Pallu. Em 1945 nasceu o Cine-clube do Porto que em pouco tempo se tornou num dos maiores da Europa e “a ter mais sócios do que o FC Porto” (2).

 

Portanto, o Porto foi sempre uma cidade crucial para o desenvolvimento das artes cinematográficas em Portugal, sempre na linha da frente. Infelizmente com o tempo a cidade, que já teve 50 salas ao longo de 100 anos, foi perdendo essa força e investimento no cinema. Até aos anos 80 as salas estavam cheias, nos anos 90 começa a sentir-se uma quebra no público. Atualmente o Porto não tem nenhuma sala de cinema que passe filmes diariamente. Muitas dessas grandes salas que fizeram furor nos anos 70 e 80 fecharam, outras foram vendidas e algumas são alugadas ocasionalmente para a realização de outros eventos. O que vingou na cidade, principalmente a partir dos finais dos anos 90, foram as salas multiplex, em centros comerciais, os chamados cinemas “pipoqueiros”. Em 2009, “O panorama actual da exibição cinematográfica no Porto é tudo menos exemplar – 14 salas em funcionamento, 12 das quais em centros comerciais (oito salas Lusomundo no Dolce Vita do Estádio do Dragão, quatro salas Medeia no Shopping Cidade do Porto, com um anexo no Cine- Estúdio do Teatro do Campo Alegre), e apenas um cinema na Baixa (o Estúdio 111, no Teatro Sá da Bandeira), a passar filmes porno. Dos 21 cinemas activos na cidade em 1978, não há nenhum aberto.” (3). Em 2013, o Porto não tem um único cinema na cidade que passe cinema regularmente, contando apenas com o Passos Manuel, que passa de vez em quando filmes e conta com os cinemas comerciais do Dolce Vita (que pertencem à ZON Lusomundo).

 

Os cinemas têm hoje que se reinventar, não podendo ser apenas um espaço para exibir filmes. Têm que oferecer mais serviços, como bibliotecas, salas de estudos, auditórios, salas para museus, etc, passando a ser um centro cultural. Veja-se o magnifico exemplo espanhol, que teve a ideia de transformar um antigo matadouro num múltiplo espaço cultural (com cinemas, biblioteca, cantina, auditorios, museu, etc) (ler artigo aqui). É preciso pensarmos nas potencialidades destes espaços e em novas formas de exibir cinema. Os cinemas em Portugal estão à beira da morte.

 

Aconselho ainda o visionamento do programa 360 da RTP, a partir do minuto 12:15 aqui. Para terminar, não em tom de tristeza, mas num modo mais alegre, porque rir de nós próprios faz bem, aconselho o visionamento do seguinte vídeo:

 

 

Fontes

1 in Ipsilon, “Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?” (27/02/2009 – Inês Nadais);

2 in Ipsilon, “Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?” (27/02/2009 – Inês Nadais);

3 in Ipsilon, “Porto: Onde é que estão os espectadores para o cinema?” (27/02/2009 – Inês Nadais);

in Público, “Fecho de salas da Castello-Lopes deixa Açores, distrito de Viana e cinco cidades sem cinema” (29/01/2013 – Joana Amaral Cardoso, Sara Dias Oliveira e Tolentino de Nóbrega);

Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA);