Parece que o assédio no mundo do cinema não se resume ao comportamento dos actores nas suas vidas pessoais. Existem filmes que, no momento em que surgem os créditos finais, nos fazem sentir vítimas de um assédio imagético: há uma vontade enorme de o filme nos tocar que permanece irremediavelmente não correspondido. É o caso de “Cold War – Guerra Fria”.

O filme pretende contar a história de duas pessoas, Zula (Joanna Kulig), uma talentosa cantora, e Wiktor (Tomasz Kot), músico e maestro, com personalidades distintas, que vivem um amor que parece condenado à separação.

Toda a narrativa assenta em várias elipses temporais que acabam por eclipsar toda a carga afectiva das imagens. Estas elipses escondem a matéria concreta que vivifica um filme. Como podemos acreditar num casal com discursos de amor eterno, quando em nenhuma das personagens conseguimos vislumbrar qualquer tipo de conteúdo?

O realizador apenas usa as partes externas dos corpos para os fazer posar numa série de imagens pomposas que, para além de não possuírem uma fotogenia capaz de as fazer resplandecer por elas mesmas, acabam por criar uma falsa opacidade, aquela que nada tem para esconder.

Caso fossemos capazes de, num gesto de magia, lançar as nossas mãos até às imagens para lhes sentirmos algum tipo de pulsação, elas estilhar-se-iam por entre os nossos dedos como uma matéria gélida, maximamente arrefecida pela ausência de fluxos de afecção.

Não podemos deixar de atribuir mérito ao tecnicismo que se revela na composição pictórica dos seus planos. Existem imagens cuja profundidade de campo acrescenta algo à própria imagem, mas nunca ao filme.

Se pensarmos no contexto histórico da Guerra Fria em que este amor acontece, vemos que o filme acaba sem nos dar uma verdadeira representação histórica da época, e, com isto, escoa a vida do plano de imanência habitado pelas personagens, pois não existe nenhum tipo de interacção entre os corpos das personagens e os espaço onde eles se deslocam.

Quando vemos um plano em que ervas secas se agitam lentamente, perto de rostos que se contemplam mutuamente, não conseguimos vislumbrar o doce mistério que se esconde dentro das mais belas imagens em movimento: embora ambos se contemplem, a natureza, tanto aquela que é exterior aos seus corpos, como a que lhes é interior, em nenhum momento, os contempla.

O que falta? Talvez intensidade, como por exemplo, aquela intensidade metafísica que Tarkovsky conseguia, com uma mestria quase divina, colocar nos seus filmes, que, de tanta força bruta imanente, parecem conseguir arrebatar-nos por sentirmos que as imagens se transformam na própria natureza insondável que representam.

Não basta que a câmara se foque nos corpos para os embelezar tecnicamente: com fortes domínios nos contrastes da cor entre o preto e o branco que se conjugam perfeitamente com o guarda-roupa; ou com planos de profundidade que embora mostrem talento fotográfico, não conseguem transcender essa sua natureza técnica.

Há momentos do filme que fazem lembrar anúncios publicitários de bebidas alcoólicas, em que o casal deve aparentar um charme reluzente para nos convencerem de que se encontram completamente apaixonados – neste caso, embevecidos. Em “Cold War” tudo parece encaixar nesta aparência técnica de produção publicitária, num desfile de imagens vazias que nos pretendem convencer de uma naturalidade inexistente.

Sinto que todas estas minhas palavras em relação ao filme são apenas o reflexo de um sentimento de vazio e desilusão que a experiência do filme me causou. Em “Ida” senti estar a experienciar um belo filme, onde o uso do preto e branco não era apenas uma mera ilustração de uma ideia na qual não conseguimos acreditar.

A personagem Anna (Agata Trzebuchowska), no seu rosto, já contém a força (in)expressiva de que o filme precisa e, com isso, faz-nos acreditar na existência de uma interioridade; e isto, o realizador conseguiu captar e mostrar com grande beleza, com visíveis inspirações “bressonianas”. As imagens têm uma respiração adequada ao respirar próprio da expressividade da actriz e a narração não é engolida por elipses, pois flui de forma organizada e nunca apressada. As imagens de “Ida” contam uma história e revelam algo que as transcende, contendo um lastro invisível que as suporta e as une num todo.

Em “Cold War” não existe um todo que possa agarrar o filme fazendo com que os fragmentos se transfiram uns para os outros, tornando-os solidários; os hiatos temporais narrativos não são ganho, mas antes uma diminuição na sua dinâmica rítmica; são perdas irreparáveis no élan que o impulsiona para o seu fim, e, por essa razão, são perdas de intensidade dentro de nós.

As imagens olham-nos de forma ávida, implorando que as desejemos, e isso provoca em nós algum constrangimento e, talvez, um certo gesto instintivo de desviar o olhar para não sermos vistos por uns olhos tão dissimuladamente devoradores.

Realização: Pawel Pawlikowski
Argumento: Pawel Pawlikowski
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc
Polónia/2018 – Drama
Sinopse
: Cold War é uma impetuosa história de amor entre duas pessoas de diferentes origens e temperamentos que são fatalmente incompatíveis, mas que estão destinadas a estar juntas. Tendo como pano de fundo a Guerra Fria na década de 50 na Polónia, Berlim, Jugoslávia e Paris, o filme retrata uma história de amor impossível em tempos impossíveis.

«Cold War» - A fome crónica das imagens gélidas
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