Ao intitular o seu filme com o nome de uma famosa canção interpretada no final da década de 1970 por Elis Regina, a realizadora brasileira Laís Bodanzky escolheu falar sobre a sua geração de mulheres em “Como Nossos Pais”, que chega agora à plataforma VoD de cinema independente Filmin.

A quarta longa-metragem de Bodanzky é, no entanto, a primeira em que ela retrata o seu próprio universo, após se centrar nos jovens em “Bicho de Sete Cabeças” (2000), “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) e na população mais velha em “Chega de Saudade” (2007).

A personagem Rosa, interpretada por Maria Ribeiro (atriz, escritora e realizadora brasileira de 43 anos), tem 38 anos e deixou de lado a sua vocação como dramaturga após o nascimento das duas filhas, enquanto o marido Dado (Paulo Vilhena) seguiu normalmente a carreira de antropólogo e ativista ambiental. Num típico almoço de família, Rosa recebe uma revelação chocante da sua mãe Clarice (Clarisse Abujamra).

A partir daí, Rosa começa a questionar-se sobre a ideia do casamento, da monogamia, da profissão, da maternidade, etc. “Não quero mais fingir que sou uma mulher que dá conta de tudo. Eu não dou conta de tudo”, desabafa Rosa a dada altura. Esse “tudo” inclui não sentir-se bem-vista pela mãe, ser vista como antiquada pelas filhas, não ter relações sexuais com o marido, sentir-se atraída por um homem casado, ter um trabalho frustrante e por aí adiante.

É muito fácil as mulheres identificarem-se com Rosa, entretanto, para abordar essa crise da “supermulher” que deseja a perfeição em todos os setores da vida, a realizadora faz uma referência à personagem Nora da peça “Casa da Boneca”, de Henrik Ibsen, em que esta, ao tomar conta da falsa solidez do casamento, separa-se do marido e deixa os filhos com ele. Esse é o texto que inspira Rosa a voltar a investir na carreira de dramaturga, mas a ligação entre o filme e a peça ficam-se por aqui.

É fascinante como Bodanzky usa os detalhes para explicitar o drama das relações familiares de uma mulher sobrecarregada pelas funções do quotidiano em cenas como a do telemóvel do marido sempre a tocar, as vozes dissonantes das crianças a pedir ajuda, o cigarro fumado demasiadas vezes pela mãe.

Maria Ribeiro está fantástica e natural no papel, mas são os seus momentos com Clarisse Abujamra e com Jorge Mautner, que interpreta o pai, que são marcantes e dão um alívio cómico a toda esta tensão. “Como Nossos Pais” certamente fixa Laís Bodanzky como uma das melhores realizadoras brasileiras contemporâneas.