Este ano o cinema português adapta a vida de três personalidades de relevo nacional, nos filmes “Florbela” (sobre a poetisa Florbeal Espanca), “O Cônsul de Bordéus” (sobre o Aristides de Sousa Mendes) e “Operação Outono” (sobre o general Humberto Delgado – estreia a 22 de novembro). É interessante vermos como, mesmo em tempo de crise, se aposta em filmes de época e há empenho por parte dos cineastas nacionais em trazer para o cinema vidas de personalidades históricas que marcaram o país. Mais uma vez refiro que a história de Portugal tem pano para muitas mangas, ou seja, que se continue apostar neste tipos de filmes.

No entanto, “O Cônsul de Bordéus” seria um desses filmes interessantes se não tivesse sido realizado por Francisco Manso e João Correa. Este é um filme de época em estilo biográfico que pretende prestar homenagem a um dos maiores heróis portugueses, e talvez um dos menos conhecidos pelos mesmos, Aristides de Sousa Mendes. Aristides foi tão ou mais importante que Oskar Schindler, pois também salvou bastantes judeus que fugiam da perseguição nazi em Bordéus. O filme foca-se exactamente nesse período, mas acrescenta uma história paralela de duas crianças que se separam, sendo que um deles se cruza com a vida de Aristides.

Em 2010 estreou “Assalto ao Santa Maria”, também realizado por Francisco Manso, um filme sobre o momento em que o capitão Henrique Galvão assalta o navio cruzeiro Santa Maria, em protesto contra o regima de Salazar. Estes dois filmes tem bastante em comum, a começar por serem boas histórias que foram completamente desperdiçadas. Ambos os filmes tem uma estrutura narrativa semelhante, contada com recurso do flashback. Ambos usam o cliché, entre muitos outros clichés, de um jornalista que entrevista o protagonista, onde este conta a sua vida passada. No filme “Assalto…” o capitão Galvão tem uma personagem principal como seu apoio durante toda a história, um rapaz e no filme “Cônsul…” Aristides tem como seu apoio um jovem rapaz. Há portante inúmeras semelhanças nos dois filmes, já para não falar de que parte do elenco de “Assalto…” entra também no filme “Cônsul…”. É frustante como pela segunda vez, se desperdiça mais uma boa história.

A produção, que esteve ao cargo da Take 2000, contou com um orçamento de cerca de três milhões de euros e contou com a co-produção de Espanha e Bélgica. Nem mesmo com um orçamento generoso se conseguiu tirar partido de todo o guarda roupa, cenários e figurantes (que são muitos). Pouca coisa se salva neste filme: para além das 30 mil vidas que Aristides salvou, o argumento é fraco, assim como os diálogos, a realização e a edição é amadora, recorrendo sempre ao fade out para negro, sempre que uma sequência terminava, tornando muitas vezes o filme como um puzzle de sketches. Salva-se a banda sonora, que é muito interessante, da autoria de Henri Seroka. Quanto ao elenco nem mesmo Vítor Norte esteve no seu melhor desempenho, apesar de ser talvez a interpretação que mais se destaca.

Esta é mais uma oportunidade perdida, quer por parte do realizador que podia melhorar as suas técnicas de realização e mostrar que aprendeu com os erros cometidos nos seus anteriores filmes, quer por parte do próprio cinema português que perde mais um bom momento da história portuguesa, ou de uma personalidade histórica, para adaptar ao cinema. Francisco Manso tem boas intenções ao querer adaptar ao cinema todos estes marcos históricos nacionais, mas inconscientemente, ou não, estraga sempre uma boa história com fracos filmes. O herói Aristides de Sousa Mendes merecia muito mais. “O Cônsul de Bordéus” deve ser visto apenas pelo seu importante acontecimento histórico.

Realização: Francisco Manso, João Correa

Argumento: João Nunes, António Torrado

Elenco: Vítor Norte, Miguel Borines, João Cabral, António Capelo, São José Correia, Pedro Cunha, Manuel de Blas, Joaquim Nicolau, Carlos Paulo, Leonor Seixas, Laura Soveral

Portugal/2012 – Drama

Sinopse: Com a invasão de França pelas tropas nazis, dezenas de milhares de refugiados começam a formar-se junto do consulado português em Bordéus, na esperança de aí obterem um visto para Portugal. Obrigado a respeitar a circular de Salazar que determinava a proibição expressa de concessão de vistos a quaisquer refugiados judeus, Sousa Mendes viveu, então, um terrível dilema: se concedesse vistos, arriscava a carreira diplomática e o sustento da sua família; se não o fizesse, todos aqueles milhares de pessoas teriam como destino os campos de concentração nazis.

«O Cônsul de Bordéus» - Mais uma oportunidade desperdiçada
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