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No seu último filme, Clint Eastwood mostra como a velhice pode mostrar várias facetas. Por um lado, ela traz uma inelutável fragilidade; por outro, traz uma nova inocência. O realizador americano mostra como ela pode ser o segredo de uma forma plena de viver, mas só uma nova sabedoria poderá desejar a busca do tempo perdido.

As primeiras imagens do filme mostram planos ensolarados que focam o tom amarelo da superfície das flores, que Earl Stone se dedica a plantar para vender. Porém, o seu negócio com as flores acaba por falir, devido à progressiva transferência dos negócios para as plataformas de vendas online. Com uma vida inteiramente dedicada ao cultivo das flores, às feiras onde as negoceia e uma intensa vida social, preenchida por todos os mundanos prazeres que lhe são inerentes, Earl acabou por tornar frágeis todos os laços que o ligavam à sua vida familiar. Solitário e falido, Earl, durante uma festa de família, é aliciado por um dos convidados a realizar um trabalho muito bem pago e aparentemente simples: fazer alguns quilómetros com a sua velha pickup. Porém, essa simples tarefa possui um elevado risco, que Earl inocentemente ignora: transportar grandes quantidades de cocaína ao serviço de um cartel mexicano.

O filme usa como mote para o seu argumento este fait divers, publicado no “The New York Times Magazine”, com o título: «The Sinaloa Cartel’s 90-Year-Old Drug Mule», da autoria de Sam Dolnick. Este enredo insólito é trabalhado por Nick Schenk de uma forma absolutamente inventiva e inteligente. A história é já cativante em si mesma: um velhinho falido, que é facilmente ludibriado e cai nas perigosas malhas de uma rede de traficantes maus e impiedosos. Contudo, esta pequena história é a oportunidade para criar uma personagem que, pese embora a sua fragilidade, traz consigo uma inocência que o faz transbordar de vida. É esta sua leveza existencial que faz emergir o instinto hedonista que o insere numa tensão constante, entre o egoísmo de uma vida destinada aos prazeres mundanos e as responsabilidades afectivas familiares, que foram amiúde negligenciadas. Nesta tensão da personagem habitam algumas reminiscências fellinianas: por vezes, conseguimos ver, em Earl, um Marcelo Rubini, vivido, que optou pelo casamento, mas que continuou em aventuras nocturnas, que poderiam passar por banhar-se com mulheres dentro da Fontana di Trevi.

A doce vida de Earl torna-se amarga quando este se lembra que passou uma vida inteira afastado do seu lar, esfriando, com o tempo, todos os laços que mantinha com a família. Na iminência de um acontecimento trágico, Earl resolve deixar tudo para ir em busca da sua redenção. Nesse momento-chave do filme, a emoção entra em cena num diálogo de último fôlego, onde a proximidade da morte traz uma perspectiva desmoralizante, que acaba por vestir Earl com uma pele mais humana, com as fraquezas e debilidades que lhe são inerentes.

Durante o filme, temos a impressão de estarmos perante uma daquelas imagens que víamos na nossa infância, que, conforme a inclinação que lhe déssemos, ela apresentava, na mesma superfície, duas imagens distintas, e isso é aquilo que o filme tem de mais desconcertante. Nesta dialética aspectual, por um lado, temos um enredo que parece retratar o típico americano maximamente liberalizado, que transparece em alguns gestos de Earl, nas ambições puras por dinheiro, no belo carro, nas drogas, nas prostitutas e até nas piadas racistas; por outro, nas brechas dessas formas vulgares de vida, emergem gestos que acabam por tornar Earl um homem que foi inocentemente fiel a um único princípio, o do prazer. Nas várias viagens que Earl faz, há uma despreocupação total da situação em que está inserido; a banda sonora é feita precisamente pela sua descontracção, enquanto vai cantarolando ao volante do seu Ford Lincoln novo em folha; nas suas viagens, nunca se inibe de parar quando lhe apetece, mesmo quando é seguido e vigiado pelos capatazes do cartel, chegando mesmo a salvar-lhes a pele.

Esta ambiguidade torna difícil decifrar Earl, apenas sabemos que a forma inocente como age purga-o moralmente de toda a maldade possível. No final do filme, chega mais um momento de redenção, que, desta vez, não é um corpo que se entrega à morte e que baila em stacatto ao som de uma infinidade de balas que vão penetrando no corpo, como em “Grand Torino”, é uma simples palavra durante o seu julgamento. Esta palavra mostra como em Earl não há planos nem calculismos, há, apenas, inocência e generosidade infinitas; há uma vontade de redenção, com a plena consciência de que, no final, do nosso lado, apenas ficam os verdadeiros amores e o resto são só memórias aleatórias de momentos de felicidade.

Realização: Clint Eastwood
Argumento: Sam Dolnick, Nick Schenk
Elenco: Bradley Cooper, Clint Eastwood, Manny Montana
EUA/2018 – Drama
Sinopse
: Um horticultor de 90 anos, veterano da Segunda Guerra Mundial, é apanhado a transportar um carregamento de cocaína no meio do estado do Michigan. A droga vale nada menos do que três milhões de dólares e pertence aos narcotraficantes mexicanos do cartel de Sinaloa. “Correio de Droga” é baseado numa história real, que foi magistralmente contada num artigo da revista do New York Times.

«Correio de Droga» - Família ou Doce Vida?
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